**PARTE 1: A HUMILHAÇÃO**
Começou numa terça-feira. As manhãs de terça na Escola Básica da Fonte da Oliveira sempre cheiravam a cera de chão industrial, pizza da cantina estragada e desespero. Eu estava sentada no fundo da sala da professora Matilde, tentando fazer-me o mais pequena possível, confundindo-me com o plástico bege da mesa.
O trabalho era simples, ou pelo menos devia ser: «Narrativas de Carreira». Tínhamos de fazer um discurso de três minutos sobre a profissão dos nossos pais e levar um «objeto representativo». Era o tipo de tarefa que só servia para destacar as diferenças sociais da nossa zona, embora os professores nunca o admitissem.
«O meu pai é Cirurgião-Chefe no Hospital de Santa Maria», anunciou o Rodrigo Mendes, inflando o peito. Segurava um estetoscópio como se fosse um ceptro real. «Ele salva vidas todos os dias.»
«A minha mãe tem uma imobiliária», disse a Joana Tavares a seguir, atirando o cabelo para trás. «Ela vende as casas mais caras da cidade.»
E assim continuou. Médicos, advogados, engenheiros, gestores de fundos. Um desfile de salários altos e estabilidade. Depois, chegou a minha vez.
«Beatriz? É a tua vez», disse a professora Matilde, olhando por cima dos óculos.
Levantei-me, com os joelhos a tremer. Caminhei até à frente da sala, a apertar uma pequena moeda militar desgastada com um tridente. Não tinha um PowerPoint. Não tinha um discurso perfeito.
«A minha mãe… a minha mãe é da Marinha», disse, baixinho.
«Fala mais alto, Beatriz», pediu a professora, com suavidade.
Respirei fundo, tentando imitar o olhar de aço que via nos olhos da minha mãe quando ela pensava que eu não reparava. «A minha mãe é uma operacional das Forças Especiais», disse, a voz a tremer mas clara. «Ela trabalha em operações secretas.»
A sala ficou em silêncio durante um segundo. Aquele silêncio pesado que antecede a tempestade. Depois, veio a explosão.
«Ah, pois claro!», gritou o Rodrigo do fundo da sala, recostando-se na cadeira com um sorriso que me deu vontade de gritar. «Não há mulheres nas Forças Especiais! Isso é contra as regras ou coisa assim. Quer dizer que ela vende conchinhas na praia?»
A turma inteira rebentou a rir. Não eram risadinhas—era uma gargalhada cruel que me atravessou como uma faca. Até a professora Matilde sorriu, nervosa, como se eu estivesse a inventar uma história para lidar com uma mãe ausente.
«Isso é… muito criativo, Beatriz», disse ela, acenando para eu me sentar. «Mas vamos manter-nos nos factos.»
«Não estou a mentir», murmurei, mas ninguém me ouviu por causa das gargalhadas.
«Ela também luta contra os zombies do Call of Duty?», troçou alguém.
Sentei-me, marcada como mentirosa. O rosto ardia. Não chorei—a minha mãe ensinou-me melhor do que isso. «Controla a respiração, Bia. O pânico é o inimigo», dizia ela. Mas a vergonha doía mais do que qualquer ferida. Olhei para a moeda na minha mão, apertando-a até os bordos do metal me cortarem a pele.
Eles não sabiam das noites intermináveis. Não sabiam das vezes que ela chegava a casa com ligaduras que tentava esconder. Não sabiam que, enquanto os pais deles estavam em reuniões ou a vender casas, a minha mãe estava em sítios que nem sequer existiam nos mapas, a fazer coisas que dariam pesadelos aos pais deles.
Mas não podia dizer isso. Tive de calar e aguentar.
**PARTE 2: A INVASÃO**
Na manhã seguinte, o ambiente na escola era pesado. O céu cinzento lá fora refletia o meu humor. Caminhei pelos corredores de cabeça baixa, evitando olhares. Ouvia os sussurros. «Lá vai a contadora de histórias.» «Pergunta-lhe se a mãe também é a Supermulher.»
Estava na aula de História, a olhar para o parque de estacionamento molhado, quando o intercomunicador tocou. Não eram os anúncios habituais. Foi um ruído agudo e repentino que fez todos sobressaltarem-se.
«Código Vermelho. Emergência. Isto não é um exercício. Repetição, Código Vermelho. Professores, fechem as salas.»
A voz da diretora tremia.
As risadas pararam instantaneamente. O sorriso do Rodrigo desapareceu. Em segundos, a sala transformou-se de um local aborrecido numa gaiola de terror. A professora Matilde deixou cair o marcador.
«Muito bem, todos para o canto. Agora! Em silêncio!», sussurrou, trancando a porta e apagando as luzes.
Agrupámo-nos atrás da secretária da professora, um amontoado de corpos a tremer e respirações assustadas. Algumas raparigas choravam baixinho. O Rodrigo hiperventilava, agarrado aos joelhos.
Senti um nó no estômago, mas, estranhamente, a minha mente ficou clara. Avalia. Adapta-te. A voz da minha mãe outra vez. Olhei em volta. A porta era de madeira, fraca. As janelas davam para o rés do chão. Éramos vulneráveis.
Passaram-se dez minutos. Pareceram dez anos.
Depois, ouvimos.
Começou como um som distante, depois transformou-se num troar ritmado. Botas pesadas. Muitas. A correrem em sincronia pelo corredor. Tum-tum-tum-tum.
Gritos começaram ao longe, depois calaram-se.
«Eles estão a vir», sussurrou a Joana, com lágrimas no rosto.
Os passos pararam mesmo à nossa porta.
Segurámos a respiração. O puxador não se mexeu. Não houve batida.
**BAM!**
A porta não abriu—foi destruída. Voou para dentro com um estrondo, batendo no quadro.
Seis figuras invadiram a sala. Eram assustadoras. Equipadas com fatos táticos—capacetes pretos, viseiras, coletes à prova de bala, armas de assalto com silenciadores. Os lasers vermelhos cortavam a escuridão como víboras.
«MÃOS! DEIXEM VER AS MÃOS!», berrou uma voz por trás da máscara de gás. Distorcida, mecânica, e absolutamente autoritária.
Gritámos. Não deu para evitar. Isto era o fim.
A equipa movia-se com fluidez, verificando os cantos, protegendo o perímetro. Eram uma máquina. Um deles, o líder, aproximou-se do nosso grupo. O laser da arma apontou para o chão, não para nós, mas para garantir que o espaço estava seguro.
A figura parou mesmo à minha frente. Os outros formaram um semicírculo defensivo, de costas para nós, protegendo a porta.
O líder baixou a arma. Respirava com força, o som amplificado pelo fE no dia seguinte, quando a minha mãe apareceu à porta da escola de uniforme, até o Rodrigo baixou a cabeça, e eu finalmente percebi que o silêncio que vinha antes da tempestade era o mesmo que agora me protegia.