Testemunhei Trinta Motociclistas Roubarem uma Loja e o Dono Apenas Sorrir

6 min de leitura

Lembre-me da noite em que vi trinta motoqueiros a assaltar uma mercearia às três da manhã e o dono apenas ficou ali, a sorrir, como se fosse a coisa mais normal do mundo.

Estava a tremer atrás do meu carro, no estacionamento do outro lado da rua, a marcar o 112 com dedos que mal conseguiam segurar o telemóvel, enquanto aqueles homens enormes de coletes de couro enchiam sacos do lixo com tudo o que havia nas prateleiras.

Tinha acabado de me mudar para aquela vila no interior de Trás-os-Montes há três semanas. Arranjara um trabalho noturno num armazém ali perto. Ia a caminho de casa quando vi as motocicletas paradas em frente ao Mercearia do Zé. Trinta, pelo menos. Talvez mais.

O meu primeiro instinto foi seguir em frente. Não me meter onde não era chamada. Mas depois vi-os pelas montras. Motoqueiros a passar pelos corredores, a enfiar coisas nos sacos. Leite em pó, fraldas, comida enlatada, medicamentos, papel higiénico. Tudo o que havia.

E o dono, um velhote de cabelo grisalho, apenas ficou atrás do balcão a observá-los. Sem pedir ajuda. Sem tentar pará-los. Apenas ali, de braços cruzados, com um sorriso no rosto.

Estacionei no parque vazio do outro lado da rua e baixei-me no banco. As minhas mãos tremiam tanto que mal conseguia segurar o telemóvel.

“112, qual é a sua emergência?”

“Está a acontecer um assalto”, sussurrei. “Mercearia do Zé, na Estrada Nacional 12. Pelo menos trinta homens. Motoqueiros. Estão a levar tudo. Por favor, venham rápido.”

“Minha senhora, pode descrever o que está a ver?”

“Estão a encher sacos. O dono não os está a impedir. Acho que o devem ter ameaçado. Por favor, mandem alguém.”

A operadora fez uma pausa. “Minha senhora, disse Mercearia do Zé? Na Estrada Nacional 12?”

“Sim! Por favor, depressa!”

Outra pausa. Mais longa desta vez. “Minha senhora, é nova na região?”

Que tipo de pergunta era aquela? “Sim, mudei-me há pouco. Que importância tem? Há um assalto a acontecer!”

“Minha senhora, vou mandar um agente até si. Por favor, fique no seu carro. Mas preciso que entenda que o que está a ver pode não ser o que pensa.”

“Do que está a falar? Eles estão a roubar tudo da loja!”

“Apenas fique onde está. Um agente vai explicar.”

Desligou. Olhei para o telemóvel, incrédula. Que tipo de operadora do 112 diz que um assalto não é o que parece?

Voltei a olhar para a mercearia. Os motoqueiros continuavam a carregar. Um deles, um homem enorme com uma barba até à barriga, carregava garrafões de água. Outro levava sacos de ração para cães. Um terceiro tinha os braços cheios de produtos de higiene feminina.

Produtos de higiene feminina? Que tipo de assalto era aquele?

O dono saiu com eles. Estava a rir. A rir! Aperta a mão de um, abraçou outro. Conversavam como velhos amigos.

Aquilo não fazia sentido.

Uma viatura da GNR parou ao lado do meu carro. Esperei sirenes. Que o agente saltasse e enfrentasse os motoqueiros. Em vez disso, baixou o vidro calmamente.

“Foi a senhora que ligou para o 112?”

“Sim! Não vai fazer nada?”

O agente olhou para a mercearia. Para os motoqueiros a carregar as motas com coisas supostamente roubadas. Depois olhou para mim com uma expressão estranha. Quase como se tentasse não rir.

“Minha senhora, há quanto tempo mora aqui?”

“Três semanas. Porque é que toda a gente me pergunta isso?”

“Porque se já cá estivesse há mais tempo, conheceria as noites de sexta-feira.” Abriu a porta do carro. “Venha comigo. Acho que precisa de conhecer algumas pessoas.”

“Está louco? Não vou para lá!”

“Minha senhora, garanto-lhe que está segura. Aqueles homens não são criminosos. Bem, a maior parte não é.” Sorriu. “Venha. Deixe-me apresentar os Cavaleiros da Sexta-Feira.”

Contra todo o meu instinto, saí do carro e segui o agente até ao outro lado da rua. As pernas tremiam. O coração batia tão forte que o ouvia nos ouvidos.

Quando nos aproximámos, os motoqueiros viraram-se para nós. Trinta homens imponentes de coletes de couro, cobertos de remendos. Barbas. Tatuagens. Lenços. Pareciam exatamente o tipo de pessoas que a minha mãe sempre me avisou para evitar.

“Olá, Fernando!”, gritou um deles para o agente. “Temos uma vizinha nova?”

“Pois temos”, respondeu o agente. “Ligou para o 112 por causa de vocês. Achou que estavam a assaltar o lugar.”

Os motoqueiros desataram a rir. Não de forma cruel. Uma risada genuína, amigável.

O dono da mercearia aproximou-se. De perto, vi que devia ter setenta e poucos anos. Olhos bondosos. Sorriso caloroso. “Deixe-me adivinhar. Viu-nos a carregar e achou que estávamos a roubar?”

“Ninguém pagou”, disse, fraca. “Eu vi. Ninguém pagou por nada.”

“É verdade.” Estendeu a mão. “Sou o José Martins. Dono desta mercearia. Há quarenta e três anos.”

Apertei a sua mão, completamente confusa. “Não percebo o que está a acontecer.”

O Zé olhou para os motoqueiros, depois para mim. “O que está a acontecer é o que acontece todas as sextas-feiras há doze anos. Estes rapazes esvaziam a minha loja. Levam tudo o que está perto de expirar. As latas amolgadas, as caixas danificadas, o que já não consigo vender. E distribuem para quem precisa.”

“Distribuem?”

Um motoqueiro aproximou-se. Devia ter sessenta anos, com um rabo-de-cavalo grisalho e um colete de couro onde se lia “Santas Estradas MC – Presidente”.

“Chamo-me Marco”, disse. “Presidente dos Santas Estradas. Todas as sextas-feiras, percorremos o distrito a entregar mantimentos a sem-abrigo, famílias pobres, idosos com reformas miseráveis, qualquer um que o sistema deixou para trás.”

“Mas… vocês não estão a pagar por nada disto.”

O Zé riu-se. “Diz-lhe como isto funciona, filho.”

Marco sorriu. “O Zé declara isto como perdas. Abate nos impostos e no seguro. Estas coisas iam para o lixo de qualquer forma – expiradas, danificadas, invendáveis. Desta forma, vão para quem precisa. O Zé tem o seu abate. Nós temos mantimentos para distribuir. Todos ganham.”

“E a GNR sabe disto?”

O agente Fernando acenou. “Toda a esquadra sabe. Já ajudámos a carregar as motas mais vezes do que consigo contar. A mulher do comandante Silva às vezes anda com eles.”

“A mulher do comandante da GNR anda com um grupo de motoqueiros?”

“Clube de motociclismo”, corrigiram três vozes em uníssono.

A minha cabeça rodopiava. “Então isto tudo… o assalto… os sacos… é tudo…”

“Caridade”, disse Marco. “Há doze anos. Começámos depois das cheias de 2010. Muita gente no nosso distrito perdeu tudo. A ajuda do governo demorava. A Cruz Vermelha estava sobrecarregada. Então começámosE desde então, todas as sextas-feiras às três da manhã, quando os motores rugem e os sacos se enchem, lembro-me da noite em que julguei mal os maiores anjos que esta terra já viu.

Leave a Comment