O som do zíper da mala cortando o silêncio parecia mais alto do que deveria ser.
Beatriz Almeida parou no meio da cozinha, os balcões de mármore reluzindo sob a luz pendente, e olhou para o homem que chamara de marido por oito anos.
Rodrigo encostou-se na ilha da cozinha, os braços cruzados, aquele sorriso arrogante nos lábios. Vestia um terno cinza que provavelmente custava mais que o aluguel mensal da maioria das pessoas, o relógio brilhando a cada movimento do pulso. Tudo nele gritava dinheiro, poder, controle.
“Então, vai mesmo fazer isso?” perguntou, o tom carregado de ironia. “Vai mesmo sair de casa?”
As mãos de Beatriz estavam firmes quando deixou as chaves de casa sobre o mármore. O metal tilintou contra a superfície, um som de finalidade.
“Sim.”
Ele riu—uma risada de verdade.
“Vai lá. Sai. Dou uma semana sem mim, talvez menos. Para onde vai, Beatriz? O que vai fazer? Não trabalha há anos. Viveu do meu dinheiro, na minha casa, dirigindo meus carros.”
Beatriz não disse nada. Apenas pegou o telefone e checou a hora.
23h47.
Em treze minutos, seria um novo dia. Um novo começo.
“Acha que consegue se virar sozinha?” Rodrigo continuou, afastando-se da bancada e andando na direção dela. “Acha que alguém vai contratar uma mulher que não exerce a advocacia há oito anos? Acha que consegue pagar um apartamento nesta cidade sozinha?”
Beatriz olhou para ele—e realmente o enxergou.
Antes, achava-o bonito. Agora, via a crueldade nos olhos, a arrogância na postura. Via o homem que dormia com Sofia Martins, do departamento de contabilidade, há três anos. O homem que levava Sofia a jantares caros enquanto ela esperava em casa. O homem que dera joias a Sofia compradas com o dinheiro da própria herança dela.
“Eu me viro,” disse calmamente.
“Se vira.” Ele imitou o tom dela e balançou a cabeça. “Vai voltar arrastando. Eles sempre voltam. Mulheres como você—não foram feitas para o mundo real. Foram feitas para isto.”
Gesticulou em volta, indicando a cozinha: os armários sob medida, os eletrodomésticos profissionais, o lustre na sala de jantar visível pela porta.
Beatriz pegou a mala. Tinha feito as malas com pouco—uma bagagem com roupas, itens de higiene, documentos importantes. Todo o resto—as roupas de marca, os sapatos caros, as joias que ele comprara—ela deixava para trás.
Nada daquilo lhe interessava.
“Adeus, Rodrigo.”
“Volta até o fim de semana,” ele gritou quando ela se virou para a porta da frente. “Não vou trocar as fechaduras porque sei que vai precisar voltar.”
Ela parou na porta, a mão na maçaneta, e olhou para ele uma última vez.
Ele estava no corredor, tão confiante, tão seguro de si.
Não fazia ideia do que estava por vir.
“Não espere por mim,” disse, e saiu para a noite.
A porta fechou-se atrás dela com um clique suave.
Deixara o seu antigo Fiat Punto—o carro que tinha antes de casar com Rodrigo—estacionado duas ruas adiante. Ele a obrigara a guardá-lo em um depósito porque “não combinava” com a estética da garagem. Agora, agradecia por ainda tê-lo no próprio nome, quitado anos atrás.
Enquanto dirigia para longe daquela casa—da vida que conhecera por oito anos—Beatriz sentiu algo que não sentia há muito tempo.
Liberdade.
O telefone vibrou no porta-copos. Ela olhou para ele no semáforo.
Uma mensagem de Cristina Monteiro, sua antiga mentora da faculdade de direito e agora sua empregadora.
Tudo ocorreu como planejado do meu lado. Documentos protocolados. Vejo você segunda de manhã, Dra. Almeida.
Beatriz sorriu.
Dra. Almeida.
Ela conquistara aquele título três meses antes, quando passou no exame da OAB.
Rodrigo não fazia ideia.
Estivera muito ocupado com Sofia para perceber que a esposa reconstruía a vida em silêncio.
Dirigiu até um apartamento pequeno em um bairro onde Rodrigo jamais poria os pés. Não era muito—apenas um quarto, piso de madeira, cozinha minúscula—mas era seu. Assinara o contrato dois meses antes, mobiliara-o com móveis de segunda mão e utensílios de lojas populares. Aos poucos, levara seus pertences pessoais: seus livros, o edredom da avó, as fotos da mãe.
Eram 0h23 quando finalmente se acomodou na cama nova.
Programou o despertador para 6h.
Tinha um grande dia pela frente.
Enquanto isso, do outro lado da cidade, Rodrigo serviu-se de um uísque e sentou-se no escritório em casa. Checou o telefone, percorreu os e-mails, enviou uma mensagem para Sofia perguntando se ainda estava acordada.
Ela não respondeu.
Andava distante ultimamente, menos entusiasmada com os encontros secretos. Ele supôs que estava sendo cuidadosa, já que a esposa andava estranha.
Pensou em Beatriz saindo de casa.
Ela voltaria.
Elas sempre voltavam.
Vira acontecer com a esposa do sócio, com a namorada do irmão. Mulheres se aborrecem. Saem. Percebem que não sobrevivem sem o conforto e voltam—normalmente em dias.
Foi para a cama às 2h, sem preocupações.
O telefone tocou às 6h15.
Rodrigo resmungou e esticou o braço, esperando que fosse Beatriz, pronta para pedir desculpas e voltar.
Em vez disso, o nome na tela era Fernando Lopes—o dono da Lopes Investimentos, empresa controladora da divisão de Rodrigo.
“Alô,” disse Rodrigo, a voz rouca de sono.
“Rodrigo, acabo de falar com o Banco Atlântico. Que diabos está acontecendo?” A voz de Fernando estava tensa de raiva.
“O quê? Do que está falando?”
“Estão cobrando o empréstimo do projeto Riverside. Dizem que as garantias não são mais válidas. Precisam do pagamento total ou de nova garantia até o fim do dia, senão vão executar.”
Rodrigo sentou-se na cama, de repente acordado.
“Isso é impossível. As garantias são sólidas. A assinatura da minha esposa está em toda a papelada.”
“A assinatura da sua esposa *estava* na papelada,” Fernando respondeu. “Parece que ela protocolou documentos há três meses revogando todas as garantias. O banco só processou ontem. Enviaram aviso para o e-mail corporativo—que imagino que você não checou no fim de semana.”
As mãos de Rodrigo começaram a tremer.
“Ela não pode fazer isso.”
“Ela fez. E isso não é tudo.” A respiração de Fernando soou cortante. “Carlos Mendes acabou de me ligar. Está retirando o investimento. Algo sobre demonstrações financeiras fraudulentas. Rodrigo, ele está falando em processar. Investiu dois milhões de euros com base em documentos que mostravam sua esposa como garantidora e coproprietária de ativos. Se essas garantias são inválidas—se ela nunca concordou em ser listada como garantidora—”
O telefone escorregou da mão de Rodrigo. Ele se apressou a pegá-lo.
“Preciso de você no escritório às oito,” Fernando disse. “Precisamos descobrir o que está acontecendo.”
Fernando desligou.
O telefone de Rodrigo tocou novamente imediatamente.
Banco Atlântico, depois CrediGlobal, depois outro investidor—E quando o sol da manhã finalmente raiou, Beatriz respirou fundo, sorriu para o novo dia e seguiu em frente, sabendo que a melhor parte de sua vida estava apenas começando.