Quando Ricardo Mendes saiu do edifício de vidro no coração do Chiado, só pensava no e-mail que precisava enviar antes da meia-noite. Tinha fechado um contrato de trinta milhões de euros, os mercados reagiriam bem, o conselho ficaria satisfeito. Mais um triunfo. Mais um número a somar à sua fortuna de cento e cinquenta milhões.
Até que a viu.
A meio da calle, junto à parede de pedra de uma boutique de luxo, duas figuras destacavam-se contra o cinzento da tarde. Um cobertor velho e gasto, um gorro de lã, um carrinho de supermercado com sacos. E, no meio de tudo, um casaco de cashmere bege que Ricardo conhecia demasiado bem.
O seu coração parou.
—Mãe? —sussurrou, sem acreditar.
Isabel Mendes, setenta e três anos, a viúva elegante do grande António Mendes, estava sentada no passeio molhado, a tremer. Ao seu lado, quase a segurando, estava um jovem de barba por fazer e olhos escuros, envolto em camadas de roupa suja. Ele tinha posto o seu próprio cobertor sobre os ombros dela e protegia-a com o corpo, como um escudo contra o vento gelado.
O frio de dezembro cortava como lâminas. Os primeiros flocos de neve começavam a cair, pousando no cabelo branco de Isabel.
Ricardo correu.
—Mãe! —ajoelhou-se diante dela, sem se importar com o fato Armani nem com os sapatos encharcados. —Mãe, o que estás a fazer aqui?
Isabel olhou para ele como se tivesse dificuldade em focar a imagem. Os seus olhos, sempre tão firmes, estavam perdidos.
—Ri… Ricardo? —balbuciou. —Eu… eu perdi-me… ia… ia…
A voz quebrou-se. O jovem sem-abrigo segurou-a pelo cotovelo.
—Calma, senhora, o seu filho já está aqui —disse ele, com uma tranquilidade que contrastava com o seu aspeto.
Ricardo olhou para ele pela primeira vez com atenção. Tinha uns vinte e poucos anos, a barba desalinhada, a pele vermelha do frio. Os dedos tremiam-lhe. Mesmo assim, continuava a manter o cobertor sobre os ombros de Isabel.
—O que aconteceu? —perguntou Ricardo, esforçando-se para parecer controlado.
—Encontrei-a há meia hora —respondeu o jovem. —Ela andava pela rua, muito confusa. Não sabia onde morava, nem como se chamava, no início. Tinha muito frio, por isso sentei-a e dei-lhe o meu cobertor. Não tenho telemóvel para chamar ninguém… Estava a pensar ir à polícia.
Ricardo engoliu em seco. Chamou o motorista com mãos trémulas, depois os serviços de emergência. Enquanto falava, não conseguia tirar os olhos da cena: a sua mãe, a mulher que organizava jantares de gala e vivia rodeada de luxo, agarrada ao cobertor sujo de um estranho.
E esse estranho, sem nada mais que um carrinho e um cobertor, tinha feito mais por Isabel em meia hora do que ele em meses.
Quando levaram Isabel na ambulância, Ricardo ficou uns segundos no passeio, ao lado do jovem.
Tirou a carteira. Notas. Muitas.
—Obrigado pelo que fez pela minha mãe —disse, estendendo o dinheiro. —Isto não paga, mas…
O jovem olhou para o maço de notas. Ricardo esperava ver ambição, urgência. Em vez disso, viu algo parecido com desconforto.
—Não —disse Pedro, abanando a cabeça. —Não o fiz por dinheiro, senhor. Apenas… —olhou para onde a ambulância tinha ido —não podia deixá-la ali no chão. Qualquer pessoa com coração teria feito o mesmo.
Qualquer pessoa com coração.
Ricardo sentiu a frase atravessar algo dentro dele. Quis insistir, mas o jovem já recolhia o cobertor, sacudia-o e o colocava ao ombro.
—A sério, fique com isso —repetiu Pedro, com um meio sorriso cansado. —Cuide da sua mãe.
Deu meia-volta e afastou-se pela rua nevada, desaparecendo entre a multidão que não o via.
Ricardo ficou imóvel, as notas na mão, enquanto o vento gelado lhe batia no rosto.
No Hospital de Santa Maria, o diagnóstico caiu como uma sentença longa e silenciosa.
—Alzheimer em fase inicial —explicou o neurologista, com tom profissional, como quem repete uma frase dita muitas vezes. —Teve um episódio de desorientação severa. A partir de agora, não deve ficar sozinha em nenhum momento.
Ricardo ouviu, mas a única coisa que conseguia ver era a imagem da sua mãe sentada no passeio ao lado daquele rapaz. Isabel, que nunca saía sem motorista, que ainda insistia em pôr flores frescas na mansão de Cascais; Isabel, perdida, sem saber sequer quem era.
Naquela noite, sentado na sala de espera enquanto a mãe dormia sedada, Ricardo abriu o portátil para tentar distrair-se. O e-mail, os relatórios, os gráficos… pela primeira vez em anos, pareceram-lhe irrelevantes.
Fechou o ecrã.
Na sua mente, repetia-se o rosto do rapaz do cobertor.
“Qualquer pessoa com coração”.
Percebeu, com um golpe desconfortável de lucidez, que não sabia se, no lugar daquele rapaz, ele teria feito o mesmo.
Passaram-se três dias.
Três dias a reorganizar a casa, a contratar enfermeiras, a adaptar quartos, a cancelar viagens. Os médicos confirmaram o inevitável: bons dias, maus dias, um declínio lento e inexorável.
A primeira noite em que Isabel o chamou de “António” em vez de “Ricardo”, ele trancou-se no escritório e desatou a chorar.
E no meio de tudo, continuava a pensar no rapaz. Pedro.
Na quarta-feira à tarde, voltou à Rua Augusta, agasalhado, mas com o mesmo nó estranho no estômago. Caminhou sem saber bem o que procurava. Olhou para os portais, para as caixas multibanco, para os bancos.
Por fim, o cheiro a fumo guiou-o até um beco lateral. Lá, à volta de um bidão aceso, quatro pessoas aqueciam-se. Um deles, com o mesmo cobertor cinzento, levantou o olhar.
—Pedro —disse Ricardo, sem saber bem porquê, mas contente por o reconhecer.
O rapaz franziu a testa, desconfiado. Ricardo era uma imagem estranha naquele contexto: casaco caro, cachecol impecável, relógio que poderia pagar a renda de todos eles durante um ano.
—Queria falar contigo —acrescentou Ricardo, levantando as mãos num gesto pacífico. —Apenas… agradecer-te, a sério, pelo que fizeste pela minha mãe. E explicar-te.
Afastaram-se um pouco do grupo. Pedro ouviu em silêncio enquanto Ricardo lhe contava o diagnóstico, o susto, a nova realidade. Não fez perguntas indiscretas, apenas assentiu.
—Lamento muito —disse no final. —É duro ver alguém que amamos desaparecer pouco a pouco. Os meus pais… —olhou por um momento para o céu plúmbeo —também se foram assim, de repente. É outra forma, mas o vazio sabe igual.
Ricardo olhou para ele com mais atenção.
—Quantos anos tens? —perguntou.
—Vinte e sete.
—Há quanto tempo estás na rua?
—Dois anos.
Não o disse com vitimização, mas com uma espécie de resignação calma, como quem afirma um facto.
Ricardo hesitou um instante, depois perguntou—Queres voltar a estudar e acabar o que começaste? —perguntou Ricardo, estendendo a mão como quem oferece não só um futuro, mas uma redenção.