Rico chega mais cedo e se choca com o que encontra

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Hoje cheguei mais cedo do escritório e vi uma cena que mexeu comigo. O Duarte Costa está acostumado a chegar a casa depois das 21h, quando todos já dormem. Mas hoje a reunião com os investidores em Lisboa acabou antes do esperado. Ao abrir a porta da mansão no bairro de Cascais, parei, sem conseguir processar o que via. No meio da sala, a Joana, a nossa empregada de 28 anos, estava de joelhos no chão molhado com um pano na mão. Mas não foi isso que me deixou sem reação.

Era a cena ao lado dela. O meu filho, o Tomás, de apenas quatro anos, estava em pé com as suas muletas roxas, segurando um pano de cozinha e tentando ajudar a jovem a limpar o chão.

“Tia Joana, eu consigo limpar esta parte aqui”, disse o meu miúdo louro, esticando o bracito com dificuldade.

“Não te preocupes, Tomás, já me ajudaste muito hoje. Que tal sentares-te no sofá enquanto eu termino?”, respondeu a Joana com uma doçura que eu nunca lhe tinha ouvido.

“Mas eu quero ajudar. A senhora sempre diz que somos uma equipa”, insistiu o menino, tentando equilibrar-se melhor nas muletas.

Fiquei ali, invisível, a observar. Havia algo naquela interação que me tocou de um jeito inexplicável. O Tomás estava a sorrir – algo raro de se ver em casa.

“Está bem, meu ajudante, mas só mais um bocadinho”, cedeu a Joana, aceitando a ajuda do miúdo.

Foi então que o Tomás me viu na porta. O rostinho iluminou-se, mas havia surpresa e medo nos seus olhos azuis.

“Pai, chegaste cedo!”, exclamou, virando-se rápido e quase perdendo o equilíbrio.

A Joana levantou-se de um salto, assustada, deixando cair o pano. Secou as mãos no avental e baixou a cabeça. “Boa noite, senhor Duarte. Não sabia que estava em casa.”

“Estava a acabar de limpar”, gaguejou, visivelmente nervosa.

Continuei a processar a cena. Olhei para o Tomás, que ainda segurava o pano, depois para a Joana, que parecia querer desaparecer.

“Tomás, o que estás a fazer?”, perguntei, tentando manter a calma.

“Estou a ajudar a tia Joana, pai. Olha!” O Tomás deu uns passos trôpegos na minha direção, orgulhoso. “Hoje consegui ficar em pé quase cinco minutos sozinho!”

Olhei para a Joana à procura de explicações. Ela continuava de cabeça baixa, torcendo as mãos nervosamente.

“Cinco minutos?”, repeti, surpreso. “Como assim?”

“A tia Joana ensina-me exercícios todos os dias. Diz que se eu praticar, um dia consigo correr como os outros meninos”, explicou o Tomás entusiasmado.

O silêncio encheu a sala. Senti uma mistura de emoções – raiva, gratidão, confusão. “Exercícios?”, questionei.

A Joana finalmente levantou os olhos, cheios de medo. “Senhor Duarte, era só uma brincadeira com o Tomás. Se o senhor quiser, eu vou embora.”

“A tia Joana é a melhor!”, interveio o Tomás, colocando-se entre nós. “Pai, ela nunca desiste de mim quando choro porque dói. Diz que sou forte como um guerreiro.”

Senti um aperto no peito. Quando foi a última vez que vi o meu filho tão feliz? Quando foi a última vez que conversei com ele mais de cinco minutos?

“Tomás, vai para o teu quarto. Preciso falar com a Joana”, disse com suavidade.

“Mas pai…”

“Agora, Tomás.”

O miúdo olhou para a Joana, que lhe sorriu encorajadora. O Tomás afastou-se com as muletas, mas antes de desaparecer pela escada gritou: “A tia Joana é a melhor pessoa do mundo!”

Fiquei sozinho com a Joana na sala. Aproximei-me, notando pela primeira vez as manchas de humidade nas calças dela e as mãos vermelhas de tanto esfregar.

“Desde quando acontece isto? Os exercícios com o Tomás?”

“Desde que comecei aqui, há seis meses. Mas juro que nunca deixei o trabalho por causa disso. Faço nos intervalos ou depois de terminar tudo.”

“E não recebes extra por isso”, observei.

“Não, e não peço. Gosto de brincar com o Tomás. Ele é especial.”

“Especial como?”

Ela sorriu pela primeira vez. “É determinado, senhor Duarte. Mesmo quando dói, não desiste. E tem um coração enorme – preocupa-se sempre se estou cansada ou triste.”

O aperto no peito voltou. Quando foi a última vez que reparei nestas qualidades no meu filho?

A Joana contou-me que tinha experiência com o irmão mais novo, o Rui, que nasceu com problemas nas pernas. “Quando vi o Tomás triste e sozinho, não consegui ficar indiferente.”

“Triste?”

“Com todo o respeito, o Tomás está muito só. A Dona Margarida sempre com as amigas, e o senhor… bem, trabalha muito.”

Perguntei por Margarida. “A Dona Margarida saiu para jantar com as amigas”, respondeu.

Olhei em volta. A sala estava impecável, as plantas viçosas. “Joana, porque trabalhas como empregada? Com conhecimento em fisioterapia, podias trabalhar na área da saúde.”

Ela sorriu com tristeza. “Não tenho diploma, senhor. Aprendi a cuidar do meu irmão, mas isso não conta para nada oficial. E preciso sustentar a minha família – a minha mãe e o Rui.”

Senti vergonha. Ali estava uma mulher que trabalhava arduamente para sustentar a família e ainda encontrava tempo para cuidar do meu filho com tanto amor.

“E nunca pensaste em estudar fisioterapia?”

“Com que dinheiro, senhor? Com que tempo? Saio às seis da manhã, apanho dois autocarros para chegar às sete e meia, trabalho até às seis da tarde…”

Enquanto falava, percebi que não fazia ideia da vida dela para além das horas que passava em minha casa.

“Joana, posso ver os exercícios que fazes com o Tomás?”

“Sim, senhor. Mas ele já está de pijama. Costumamos fazer de manhã, antes das aulas online.”

“De manhã?”

“Chego às sete e meia, preparo o pequeno-almoço do Tomás e fazemos exercícios no jardim enquanto o senhor e a Dona Margarida dormem.”

Foi como um murro no estômago. Não sabia nada da rotina do meu próprio filho. Saía às sete da manhã e voltava depois das nove da noite. Fins-de-semana, estava no escritório ou em reuniões.

“E ele gosta?”

“Adora, senhor. Ontem ficou três minutos em pé sem muletas.”

“Três minutos! Mas o fisioterapeuta disse que isso demoraria meses!”

“Talvez ele esteja mais motivado agora”, sugeriu.

“Motivado por quê?”

“Quer impressioná-lo, senhor. Fala sempre do senhor. Diz que quando conseguir andar bem, vai trabalhar consigo. Quer ser como o pai.”

Os olhos encheram-se de lágrimas. Não fazia ideia que o Tomás pensava assim. Nesse momento, ouvimos passos na escada. Era o Tomás.

“Pai, não vais despedir a tia Joana, pois não?”

“Porque achas que a despediria?”

“A mãe zanga-se quando os empregados fazem coisas que ela não mandou.”

Ajoelhei-me ao nível dele. “Queres muito a Joana?”

“É a minha melhor amiga.”

“E eu também sou teu amigo?”

Ele hesitou. “O senhor é meu pai, não meu amigo. Os pais são importantes, mas os amigos são os que estão connosco.”

Foi como um golpe. “Gostava de ser teu amigo. Ensina-me?”

Os olhos dele iluminaram-se. “A sério? Então tem de brincE naquele momento, enquanto o sol se punha sobre o jardim onde tudo começara, senti finalmente que a nossa família estava completa, unida pelo amor inesperado de uma mulher humilde que nos ensinou que os verdadeiros milagres acontecem quando abrimos o coração.

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