*13 de Outubro de 2003*
Quando o meu pai nos abandonou, a madrasta arrancou-me do inferno do orfanato.
Na infância, a minha vida foi um conto de fadas: uma família unida e cheia de amor numa casinha humilde à beira do Tejo, perto da vila de Constância. Éramos três — eu, a minha mãe e o meu pai. O cheiro dos bolos da minha mãe enchia a casa, e, ao cair da noite, o meu pai contava histórias das suas aventuras no rio. Mas o destino é um caçador implacável, e ataca quando menos se espera. Um dia, a minha mãe adoeceu. O seu riso calou-se, as mãos tremeram, e, pouco depois, estava numa cama fria de hospital em Santarém. Desapareceu diante dos nossos olhos, deixando-nos num mar de dor. O meu pai afogou a tristeza em vinho barato, e a nossa casa transformou-se em ruínas, coberta de garrafas partidas e um silêncio de desespero.
O armário da cozinha ficou vazio, testemunha muda da nossa queda. Caminhava até à escola em Constância com a roupa suja e o estômago a roncar de fome. Os professores repreendiam-me por não fazer os trabalhos, mas como podia eu estudar quando só pensava em sobreviver? Os amigos viraram-me as costas, os seus murmúrios cortavam mais que uma faca, e os vizinhos olhavam com pena. No fim, alguém chamou a Segurança Social. Mulheres severas invadiram a nossa casa, prontas a arrancar-me das mãos trémulas do meu pai. Ele caiu de joelhos, suplicando por uma última oportunidade. Deram-lhe um mês frágil — a última palha sobre o abismo.
A visita abalou-o. Tambaleou até ao mercado, trouxe comida, e, juntos, limpámos a casa até um frágil lampejo do que fora antes. Prometeu deixar o vício, e, nos seus olhos, vi um vislumbre do homem que eu conhecera. Comecei a acreditar num milagre. Numa noite de ventania, ele confessou que queria apresentar-me alguém. O coração apertou—já se esquecera da minha mãe? Assegurou-me que ninguém a substituiria, mas que esta era a nossa salvação.
Foi assim que conheci a tia Ana.
Viajámos até à sua casa em Abrantes, uma construção antiga junto ao Tejo, cercada de sobreiros tortos. Ana era um furacão de bondade — voz firme como âncora, olhar como farol. Tinha um filho, o Rui, dois anos mais novo que eu, um miúdo magricela com um riso que afugentava o frio. Logo nos demos bem: corríamos pelas ruas, deitávamo-nos na margem até cairmos de cansaço. No caminho para casa, disse ao meu pai que a tia Ana era como um raio de sol. Ele acenou em silêncio. Duas semanas depois, fechámos a nossa casa, alugámo-la e mudámo-nos para Abrantes — uma tentativa desesperada de recomeçar.
Aos poucos, a vida acalmou. Ana cuidava de mim com tanto amor que as feridas iam cicatrizando — remendava as minhas calças rasgadas, cozinhava caldo verde, e, à noite, ríamos com as brincadeiras do Rui. Ele tornou-se meu irmão, não pelo sangue, mas pela dor partilhada. Brigávamos, sonhávamos, fazíamos as pazes — a nossa lealdade não precisava de palavras. Mas a felicidade é frágil, e o destino adora parti-la. Numa manhã gelada, o meu pai não voltou. Um telefoneme partiu o silêncio — morrera num acidente, atropelado por um camião numa estrada escorregadia. A dor devorou-me como um animal selvagem, sufocante. A Segurança Social regressou, fria e implacável. Sem um tutor legal, arrancaram-me dos braços da Ana e levaram-me para um orfanato em Santarém.
Aquele lugar era uma prisão de desespero — paredes cinzentas, camas frias, cheias de suspiros de almas perdidas. O tempo arrastava-se, cada minuto uma facada na alma. Sentia-me um fantasma, invisível, esquecido, atormentado por pesadelos de solidão eterna. Mas a Ana não desistiu. Todos os domingos, aparecia com pão, cachecóis e uma determinação inquebrável. Lutou como uma leoa — invadiu escritórios, preencheu papéis, as suas lágrimas manchando os documentos enquanto atravessava a teia burocrática. Os meses passaram, e o desespero roía-me; tinha medo de apodrecer naquele lugar. Até que, certa manhã, a diretora disse: «Faz as malas. A tua mãe veio buscar-te.»
Saí e vi a Ana e o Rui no portão — os rostos deles brilhavam com esperança e teimosia. As pernas fraquejaram quando me atirei para os seus braços, soluços irrompendo como uma tempestade. «Mãe», sussurrei, «obrigada por me tirares dessa cova. Juro que o teu sacrifício não foi em vão.» Naquele momento, percebi: família não é só sangue — é a alma que luta por ti até ao último suspiro.
Regressei a Abrantes, ao meu quarto, à escola. A vida seguiu o seu curso — terminei os estudos, mudei-me para Santarém, arranjei trabalho. O Rui e eu mantivemo-nos inseparáveis, a nossa ligação uma rocha contra as tempestades. Crescemos, formámos as nossas famílias, mas a Ana — a nossa mãe — permaneceu a nossa âncora. Todos os domingos, invadimos a sua casa, onde ela nos enche de caldo verde e batatas fritas, o seu riso misturando-se com as vozes das nossas mulheres, agora suas amigas. Às vezes, ao olhar para ela, sou invadido por uma gratidão sem fim por este milagre.
Serei eternamente grato à sorte por esta segunda mãe. Sem a Ana, teria-me perdido nas ruas ou desmoronado na escuridão. Ela foi a minha luz nas sombras mais densas, e nunca esquecerei como me puxou da beira do abismo.
*Fica a lição: o amor verdadeiro não conhece sangue nem fronteiras. Ele constrói famílias onde o mundo só vê ruínas.*