Pensaram que ela seria uma presa fácil. Não sabiam com quem estavam mexendo.

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**Capítulo 1: O Fantasma na Fila da Escola**

A chuva em Lisboa não limpa nada; só torna a sujeira mais escorregadia. Estava sentado no meu velho Renault Megane de 2004, o motor a tremer como a minha mão esquerda.

Os limpa-vidros batiam num ritmo monótono. Tic-tac. Tic-tac. Uma metrónomo para a minha dor de cabeça.

Odeio a hora da saída da escola. É um campo de batalha onde nunca fui treinado. Nas operações, sabíamos quem era o inimigo. Conhecíamos as regras. Aqui, na Escola Básica do Vale Verde, os inimigos usam leggings de marca e conduzem SUVs reluzentes, e a guerra é psicológica.

Olhei para o espelho retrovisor. Os meus olhos estavam cansados. A cicatriz que ia do queixo à orelha ficava roxa com o frio. Puxei o meu gorro para baixo. *Mantém a cabeça fria, Carvalho. Busca a Maria. Vai para casa. Não causes problemas.*

Era o mantra que a psicóloga me dera. Reintegração requer calma.

O toque da campainha soou. Um caos de mochilas e casacos coloridos invadiu o pátio. Procurei-a no meio da multidão. Os velhos hábitos nunca morrem. Não estava a procurar a minha filha como um pai normal—estava a procurar ameaças.

Setor um limpo. Setor dois limpo.

E então vi-a.

A Maria. A minha menina. Tinha doze anos parecendo seis, pequena para a idade, com os olhos da mãe e o meu queixo teimoso. Mas não caminhava como de costume. Arrastava os pés. Ombros curvados, cabeça baixa, a olhar para o chão molhado.

Estava sozinha. Os outros afastavam-se como se tivesse uma doença.

E quando se virou para evitar uma poça, vi.

O ar pareceu desaparecer do carro.

Lá estava, colado às costas do seu casaco cor-de-rosa, um papel de caderno quadriculado. As bordas estavam encarquilhadas.

Escrito a marcador grosso, duas palavras:

LIXO HUMANO.

O mundo ficou em silêncio. A chuva, o motor, a rádio—tudo desapareceu. Só ouvia o sangue a correr nos meus ouvidos, como o mar antes de uma tempestade.

Três rapazes vinham atrás dela. Apontavam, riam-se. Sem disfarçar.

Olhei para o lado. Duas professoras estavam debaixo do alpendre, secas. Uma olhava para o telemóvel. A outra olhava diretamente para a Maria. Para o papel.

Não fez nada. Bebeu um gole do seu café e virou a cara.

A minha mão agarrou a maçaneta. O metal estava gelado.

*Mantém a calma*, sussurrou uma voz na minha cabeça.

*Neutraliza a ameaça*, rugiu a outra voz. A voz que me mantivera vivo em missões passadas.

Abri a porta.

**Capítulo 2: Hora Zero**

Saí para a chuva. Não senti o frio. As minhas botas bateram no asfalto com um baque surdo.

Não corri. Nunca se corre sem ser sob fogo. Move-se com propósito. Como um predador.

Fechei a porta do carro. Não bateu. Clicou, suave. Tudo tinha de ser controlado, porque se perdesse o controlo agora, assustaria a Maria.

Passei pela fila de carros caros. Uma mulher num Mercedes buzinou-me por atravessar à sua frente. Olhei para ela através do pára-brisas. Só um segundo.

A mão dela congelou na buzina. Olhou para os meus olhos—mortos, planos, olhos de tubarão—e trancou as portas. Esperta.

Cheguei ao passeio. Os miúdos sentiram a mudança na pressão do ar. As risadas atrás da Maria morreram, substituídas por murmúrios. Não usava farda. Vestia calças de ganga e um casaco velho. Mas a postura conta mais que a roupa.

Fui direto à Maria.

Ela sentiu alguém atrás e encolheu-se.

“Maria,” disse. A minha voz era áspera, mas suave.

Ela congelou. Virou-se devagar, terror nos olhos. Quando me viu, o dique quebrou. O lábio inferior tremeu, e as lágrimas misturaram-se com a chuva nas suas faces.

“Pai?” sussurrou. “Podemos ir? Por favor, vamos embora.”

Ela não sabia do papel. Só sabia que o mundo se ria dela, sem saber porquê.

Ajoelhei. O alcatrão molhou os meus jeans. Fiquei à altura dela. Segurei-lhe os ombros.

“Num instante, minha princesa. Espera.”

Virei-a devagar.

Os três rapazes que se riam estavam a uns metros. Miúdos grandes. Oitavo ano. Casacos de desporto. Olharam para mim, surpresos de um adulto interromper a diversão, mas ainda não estavam assustados. Eram arrogantes.

Arranquei o papel das costas dela.

*Riiip.*

O som pareceu ecoar.

Mostrei o papel. A tinta já começava a escorrer com a chuva, fazendo a palavra LIXO parecer sangrar.

Ergui-me. Tenho um metro e oitenta e cinco. Virei-me para os rapazes.

“Quem pôs isto nela?” perguntei.

Silêncio.

O líder, um miúdo loiro com um relógio caro, sorriu. “Talvez ela própria o tenha colado. Combina com ela.”

Os outros riram-se.

A professora decidiu intervir. Apressou-se para mim, saltos a bater no chão.

“Senhor! Não pode estar aqui! Tem de ir para o seu carro. Está a atrapalhar.”

Não olhei para ela. Mantive os olhos no loiro. Memorizei o seu rosto. O emblema no casaco—*Leões do Vale Verde. Equipa de Luta.*

“Senhor!” repetiu, mais alto, pondo uma mão no meu braço.

Erro.

Não a empurrei. Não levantei a voz. Só olhei para a sua mão no meu casaco, depois para o seu rosto.

Ela viu o olhar de mil metros—o olhar de quem viu coisas que lhe partiriam a realidade. E retirou a mão como se tivesse tocado em lava.

“Isto,” ergui o papel, a voz baixa e vazia, “estava nas costas da minha filha. E a senhora viu-a passar.”

“Eu… eu não reparei…”

“Reparou. E não fez nada. Isso torna-a pior que eles.”

Voltei-me para os rapazes. O sorriso do loiro desaparecera. Olhava para as minhas mãos. Os meus nós dos dedos estavam brancos de tanto apertar o papel.

“Fim de jogo,” murmurei.

Agarrei a mão da Maria. “Vamos, borboleta.”

Caminhámos para o carro em silêncio. O mar de pais e alunos abriu caminho. Senti os seus olhos. Julgavam o meu carro velho, a cicatriz, as roupas. Achavam-se os reis deste pequeno mundo.

Liguei o motor. Ao afastar-me, olhei uma última vez para o retrovisor. O loiro ria-se de novo, batendo palms com os amigos.

Achava que tinha ganho. Achava que eu era só mais um pai pobre, impotente, que iria para casa e choraria.

Toquei na bandeira portuguesa dobrada na consola.

Eles não faziam ideia. A missão não acabara quando me reformei. Só mudara de cenário.

E eu nunca perco.

**Capítulo 3: O Alvo**

A viagem para casa foi sufocante. O silêncio no carro não eraE no dia seguinte, enquanto o sol nascia sobre Lisboa, a Maria entrou na escola de cabeça erguida, e os mesmos rapazes que antes riram agora baixaram os olhos, porque finalmente aprenderam que até os gigantes caem quando a verdade os atinge.

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