**Diário Pessoal**
Hoje foi o dia em que o meu mundo desabou. Na cozinha da nossa vizinha Dona Maria, encontrei o meu filho de 7 anos, o João, a devorar uma sopa como se não comesse há dias. E ele estava mesmo faminto, magro demais, quase irreconhecível. “Por favor, não digas ao pai que vim aqui. Se não, ela não me deixa sair do quarto nunca mais,” sussurrou-me ele, desesperado. O que eu descobri sobre a minha esposa, a Helena, durante a minha viagem de negócios, deixaria qualquer pessoa em choque.
A limusine preta deslizava silenciosamente pelas ruas calcetadas de Lisboa, os vidros escurecidos refletindo o brilho dourado do pôr-do-sol. O Ricardo Almeida ajustou a gravata italiana enquanto verificava os últimos relatórios da sua empresa tecnológica no tablet. Três semanas em Singapura, a fechar o contrato mais importante da sua carreira, tinham valido a pena, mas agora só queria chegar a casa e abraçar o João, o seu filho.
“Sr. Ricardo, chegamos em cinco minutos,” murmurou o Rui, o seu motorista de confiança, que trabalhava para a família há anos. “Obrigado, Rui. Há alguma novidade de casa enquanto eu estive fora?” perguntou ele, guardando o tablet na mala de couro. O Rui hesitou por um momento, os seus olhos encontrando os de Ricardo no retrovisor. “Tudo tranquilo, patrão. A Dona Helena esteve ocupada com os seus eventos de caridade.” Algo no tom de voz do Rui fez Ricardo franzir o sobrolho. Mas antes que pudesse perguntar mais, a limusina parou em frente à imponente mansão de estilo neoclássico em Cascais.
As paredes de pedra brilhavam sob as luzes do jardim, e as fontes de mármore cantavam a sua melodia noturna. Ricardo respirou fundo, inalando o aroma familiar dos limoeiros que ladeavam a entrada. “O João estará acordado?” perguntou, consultando o relógio Patek Philippe. “São apenas sete da noite, patrão, uma criança da idade dele…” O Rui não terminou a frase. Os seus olhos fixaram-se em algo que acontecia na casa ao lado, a residência dos Sousa, uma família de comerciantes que sempre foram bons vizinhos.
Ricardo seguiu o olhar do motorista e sentiu o ar fugir-lhe dos pulmões. Ali, na varanda iluminada da casa dos vizinhos, estava o João. O seu pequeno, com o cabelo castanho desalinhado e os olhos verdes tão parecidos com os seus, estava sentado nos degraus ao lado da Dona Maria. Mas não era a localização que o paralisou—era o estado em que o miúdo se encontrava. O João vestia uma camisola às riscas demasiado grande para o seu corpo, agora visivelmente mais magro do que ele lembrava.
As calças de ganga pendiam-lhe nos quadris, e nas mãos tinha uma tigela de barro que segurava com uma urgência que fez o estômago de Ricardo revirar. “Meu Deus,” murmurou ele, saindo da limusina antes que o Rui pudesse abrir a porta. A Dona Maria, uma mulher robusta de meia-idade com o cabelo grisalho apanhado num rabo de cavalo, ergueu os olhos ao ouvir os passos apressados de Ricardo. A sua expressão mudou imediatamente de carinho materno para preocupação.
“Sr. Ricardo,” disse ela, levantando-se rapidamente. “Não sabíamos que tinha regressado.” O João levantou a cabeça ao ouvir a voz do pai. Os seus olhos, que antes brilhavam com a alegria típica de uma criança da sua idade, agora mostravam uma mistura de alívio e algo que Ricardo não conseguiu identificar de imediato—vergonha, medo. “Pai,” murmurou ele, tentando esconder a tigela atrás das costas. Ricardo ajoelhou-se diante do filho, os sapatos italianos a roçar os azulejos da varanda.
Com mãos trémulas, pegou no rosto do João entre as palmas. A pele do miúdo estava mais fria do que o normal, e as bochechas, antes rechonchudas, agora deixavam os ossos salientes à vista. “Meu filho, o que estás a fazer aqui? Onde está a Helena?” perguntou, a voz carregada de confusão e uma crescente alarme. A Dona Maria tossiu, olhando nervosamente para a mansão dos Almeida. “Sr. Ricardo, o miúdo veio aqui há um par de horas. Estava com fome.”
Fome. A palavra saiu como um rugido abafado da garganta de Ricardo. “O que quer dizer com que ele tinha fome?” O João baixou a cabeça, os dedos pequenos a brincar com a bainha da camisola. “A tia Helena disse que não havia comida suficiente para o jantar, que eu tinha de esperar até amanhã.” O mundo de Ricardo caiu. A tia Helena, como ensinaram o João a chamar à madrasta, era quem supostamente cuidava dele durante as viagens de negócios.
A mulher que conquistara o seu coração dois anos antes com a sua beleza refinada e a aparente devoção ao João. “Há quanto tempo não comes, filho?” perguntou, a voz mal audível. O João olhou para a Dona Maria, como se pedisse permissão para falar. A mulher acenou gentilmente, acariciando a cabeça do miúdo. “Desde ontem de manhã,” sussurrou. “Ela só me deu um pouco de água e disse para ficar no meu quarto.” Ricardo sentiu o sangue ferver-lhe na cabeça.
Vinte e quatro horas. O seu filho tinha estado sem comer durante vinte e quatro horas numa casa onde o frigorífico estava sempre cheio, onde a despensa tinha provisões para alimentar uma dúzia de pessoas. “Dona Maria,” disse ele, levantando-se, “já viu isto antes?” A mulher trocou um olhar com o marido, que acabara de aparecer à porta. O Sr. José Sousa, um homem de compleição forte com bigode grisalho, conhecia a família Almeida desde que se mudaram para o bairro.
“Sr. Ricardo,” começou o Sr. Sousa com voz calma, “não queríamos intrometer-nos em assuntos familiares, mas o miúdo tem vindo cá nas últimas semanas.” Várias vezes. Ricardo sentiu as pernas fraquejarem. “Sempre com fome,” acrescentou a Dona Maria suavemente. “E sempre quando a Dona Helena saía para os seus eventos sociais.” Ricardo olhou para a mansão, onde as janelas do primeiro andar brilhavam com luz quente. Nalgum lugar daquela casa estava a Helena, provavelmente a preparar-se para mais um daqueles jantares de caridade, enquanto o filho dele mendigava comida aos vizinhos.
“João,” disse ele, virando-se para o miúdo, “acaba de comer. Depois vamos a um sítio onde possamos conversar.” O miúdo acenou, levando a tigela novamente aos lábios. Foi então que Ricardo reparou no conteúdo. Um caldo de galinha caseiro com legumes, arroz e pedaços de abacate—comida simples mas nutritiva, exatamente o que uma criança precisava. O filho bebia o caldo com a desesperança de quem não sabia quando seria a próxima refeição.
“Dona Maria, Sr. Sousa,” disse Ricardo, sacando a carteira. “Não sei como agradecer.” “Não precisamos de dinheiro, Sr. Ricardo,” recusou a Dona Maria com firmeza. “O que precisamos é saber que este miúdo está seguro.” Ricardo guardou a carteira, entendendo a mensagem. Os vizinhos não só tinham alimentado o João—tinham sido testemunhas de algo que ele, absorvido pelos negócios, tinha ignorado completamente.
“Posso perguntar-lhes: notaram mais alguma coisa? Comportamentos estranhos da Helena com o João?” Os Sousa trocaram outro olhar significativo. FinalE no final, enquanto o sol se punha sobre Lisboa, Ricardo segurou o João nos braços, prometendo a si mesmo que nunca mais permitiria que o seu filho passasse fome ou medo, porque agora, finalmente, ele estava em casa.