Nunca esquecerei o som do meu coração batendo forte nos ouvidos, como um tambor que ameaçava abafar a voz do juiz. Estava sentada naquela cadeira de madeira fria, com as mãos suadas tão apertadas que os dedos ficaram brancos. Diante de mim, o juiz António Mendes, conhecido por ser implacável, analisava os documentos que os meus cunhados tinham apresentado.
A disputa pelo apartamento da minha falecida sogra, Maria, tornara-se um pesadelo que já durava meses. Sabia que as minhas chances eram pequenas. Como poderia eu, uma viúva sem emprego, lutar contra os recursos e a malícia do Ricardo e do Rui, irmãos do meu falecido marido? Eles tinham advogados caros, fatos impecáveis e uma história cruelmente construída. Eu só tinha a verdade, mas naquele tribunal, a verdade parecia não valer nada.
Foi então, quando senti o chão a fugir-me debaixo dos pés, que o Tomás, o meu filho de apenas seis anos, fez algo que parou o tempo.
Levantou-se da cadeira ao meu lado. Não com medo, mas com uma determinação que nunca lhe tinha visto nos olhos. Ajeitou o blazer bege que eu lhe tinha comprado num brechó – aquele que ele insistia em usar para parecer «elegante» – e, com uma voz que ecoou pelas paredes da sala, disse:
«Eu sou o advogado da minha mãe.»
O juiz António parou de olhar para os papéis. Baixou os óculos e encarou o miúdo que o desafiava. Um silêncio pesado encheu a sala.
Senti o sangue a fugir-me do corpo. O pânico tomou conta de mim.
«Tomás, senta-te aqui, filho», sussurrei, puxando-o pela manga. Não queria que ele fosse repreendido, não queria que fosse exposto à crueldade dos tios.
Mas o meu filho não se mexeu. Era como um carvalho no meio de uma tempestade. Em vez de se sentar, meteu a mão no bolso do blazer e tirou uns papéis amassados, dobrados com a despreocupação de uma criança, mas guardados como um tesouro.
Do outro lado da sala, ouvi a gargalhada do Ricardo.
«Agora até as crianças brincam aos advogados», disse, com um sorriso cruel, procurando a cumplicidade do seu irmão, o Rui, que riu também.
Aquela voz magoou-me mais do que qualquer insulto. Estavam a gozar com o meu filho, com a sua inocência, com a sua coragem.
«Silêncio!», ordenou o juiz António, e o riso secou no mesmo instante. Fixou o Tomás. «Continua, rapaz.»
O Tomás respirou fundo. Vi-o encher o peito, imitando o que me via fazer sempre antes de enfrentar uma situação difícil.
«Tenho algo importante para mostrar», disse ele, começando a desdobrar os papéis com cuidado. «A avó Maria deu-me isto antes de ir para o céu.»
Os meus olhos encheram-se de lágrimas ao ouvir o nome dela. A minha sogra tinha morrido três meses antes, depois de uma longa batalha contra o diabetes. Eu tinha cuidado dela até ao último suspiro, mas não fazia ideia de que ela tinha deixado algo ao neto.
«O que é isso, Tomás?», perguntou o juiz, e pela primeira vez notei um tom de bondade na sua voz.
«Uma carta. A avó pediu-me para a guardar em segredo e só mostrar se alguém tentasse tirar-nos a casa.»
O advogado dos meus cunhados, o Dr. Silva, levantou-se como se tivesse levado uma picada.
«Meritíssimo, isto é inaceitável! Não se pode aceitar um documento apresentado por uma criança!»
O meu coração parou. Eles tinham razão do ponto de vista legal. Iam invalidar o meu filho.
«Deixem o rapaz falar», disse o juiz, com um gesto autoritário. «Continua, Tomás.»
O meu filho olhou para mim. Eu estava pálida, a tremer. Depois olhou para os tios, que o encaravam com raiva e arrogância. Mas o Tomás não estava com medo. Ele lembrava-se das palavras da avó: «Sê corajoso como o teu pai.»
«Uma semana antes de ficar muito doente, a avó chamou-me», começou ele, com uma clareza surpreendente. «Disse-me que ia contar-me um segredo muito importante e que só o podia revelar se alguém fizesse a minha mãe chorar.»
O Tomás acabou de desdobrar a primeira folha. Da minha cadeira, vi que era uma carta escrita com uma letra trémula, aquela letra frágil que a minha sogra tinha nos últimos dias, quando as mãos mal conseguiam segurar a caneta.
«“Ao meu querido neto Tomás”», leu ele devagar, concentrado.
A sala mergulhou num silêncio absoluto. Até o Ricardo e o Rui pararam de murmurar. Era como se o espírito da Maria tivesse entrado na sala.
«“Se estás a ler esta carta, é porque algo me aconteceu e agora há gente a tentar tirar a casa à tua mãe. Quero que saibas que a tua mãe, a Ana, foi a única pessoa que verdadeiramente cuidou de mim nestes últimos anos.”»
A voz do meu filho era clara e pura, lendo as palavras de uma mulher que já não estava aqui e que vinha salvar-nos. Mal conseguia respirar entre as lágrimas. Não sabia que ela tinha escrito aquilo. Não sabia que ela tinha visto tudo o que eu fazia.
«“Os meus filhos, o Ricardo e o Rui, não me visitaram uma única vez enquanto estive doente”, continuou o Tomás. “Só ligavam para perguntar por dinheiro, mas a Ana vinha ver-me todos os dias, mesmo depois de perder o emprego por me levar ao médico.”»
O Ricardo levantou-se de repente, batendo com o punho na mesa.
«Isto é uma farsa!», gritou. «Ela está a usar uma criança para inventar histórias! Nós trabalhávamos, não podíamos estar sempre a bajular uma velha!»
«Sente-se, Sr. Carvalho!», ordenou o juiz, com uma voz que fez todos estremecerem. «E cuidado com o que diz. Está a falar da sua mãe.»
O Rui, agitado, tentou intervir:
«Meritísimo, a minha mãe estava confusa nos últimos meses. Tudo o que disse ou escreveu não tem valor legal. Ela estava senil!»
O Tomás olhou para os tios com uma expressão que me partiu o coração. Era uma mistura de tristeza e indignação.
«A avó não estava confusa», disse ele, defendendo a memória da mulher que o amava. «Ela sabia o nome de todos, contava histórias antigas e ajudava-me nos trabalhos de casa quando a minha mãe estava a trabalhar.»
O miúdo virou-se para o juiz, ignorando a fúria dos tios.
«Há mais na carta, senhor juiz. Posso continuar?»
«Por favor», disse o juiz António, ignorando o advogado contrário.
«“Tomás, o apartamento onde vives pertenceu ao teu avô Manuel. Antes de morrer, ele fez-me prometer que deixaria a casa para quem verdadeiramente cuidasse de mim na velhice. Não era para os filhos dele, era para quem tivesse amor no coração.”»
O advogado Silva tentou interromper novamente, mas o juiz cortou-o. O Tomás virou a página. As suas mãozinhas tremiam, mas ele estava determinado a cumprir a promessa que fizera à avó.
«“A Ana perdeu o emprego porque precisava de me levar ao médico três vezes por semana. Nunca se queixou, nunca me tratou mal, sempre me tratou como se eu fosse a mãe dela. Quando eu chorava de dor de madrugada, era ela quem vinha.”»
Finalmente, o juiz António suspirou, ergueu os olhos para mim e disse com firmeza: «A casa é sua, Ana, porque o amor verdadeiro não se mede em papéis, mas em actos.»