**Capítulo 1: O Óleo e o Toque**
O elevador hidráulico guinchou quando baixei o Mustang ’67 no chão de cimento. A oficina cheirava do jeito que gosto — café velho, borracha queimada e desengraxante pesado. Era o cheiro de trabalho honesto. Minhas mãos estavam cobertas de uma mistura preta de graxa, entranhada nos dedos de um jeito que nem uma escova tiraria em dias. Não me importava. Isso mantinha as pessoas longe, e pra mim estava ótimo.
Sou o João. Aqui nesta cidade enferrujada do Alentejo, me chamam de “Ceifador” ou “Sargento”. Sou o Sargento-de-Armas do clube de motociclistas Ceifadores de Ferro. Um título que carrega peso. Significa que sou o homem que mantém a ordem. O homem que resolve problemas quando as palavras não funcionam. Tenho um rosto que parece um mapa de estradas de terra — cicatrizes, danos do sol e uma barba que esconde um queixo que já quebrou duas vezes.
O telemóvel vibrou na bancada de metal, batendo numa chave inglesa, fazendo um barulho metálico que cortou o rock clássico tocando no rádio.
Ignorei no início. Normalmente era só o presidente do clube ou um fornecedor de peças. Nada que não pudesse esperar até eu limpar as mãos.
Aí tocou o toque.
Não era o padrão do telemóvel. Era “Sweet Child O’ Mine”. O riff inicial da guitarra.
Parei. O coração batia forte contra as costelas. Só tinha colocado aquele toque para uma pessoa.
Lúcia.
Lúcia é a filha da minha mulher. Minha enteada. Casei-me com a Sara há três anos, e a Lúcia veio no pacote. Um pacote que eu queria proteger, mas que parecia determinado a ficar fechado. Ela tinha dezasseis anos. Frágil. Artista. Pintava aguarelas de árvores tristes e ouvia música que parecia estranho.
Tinha medo de mim.
Tentei. Deus sabe que tentei. Comprei-lhe materiais de arte caros. Arrumei o seu velho Fiat Punto para funcionar que nem novo. Ficava longe quando os meus companheiros do clube vinham a casa. Mas, para ela, eu era só o motociclista assustador que substituiu o pai dela. O pai era um contabilista que fugiu para os Açores com uma higienista oral. Ele era seguro. Eu, perigoso.
Ela nunca me ligava. Trocar mensagens, talvez duas vezes por ano, sempre sobre coisas como “A mãe está a trabalhar até tarde” ou “Precisamos de leite”.
Ouvir o riff de guitarra ecoando na oficina foi como um alarme.
Agarrei o telemóvel, manchando a tela de graxa. O polegar escorregou duas vezes antes de conseguir atender.
“Lúcia?” gritei, mais alto do que devia.
Silêncio do outro lado.
“Lúcia? Estás aí?”
Então ouvi. Um som que faz qualquer pai — biológico ou não — sentir uma rajada de adrenalina gelada na espinha.
Ela estava ofegante. Uma respiração entrecortada, como quem tenta não chorar enquanto o mundo desaba.
“João…” A voz era tão pequena. Parecia que estava escondida num armário. “João… estás aí?”
“Estou, miúda. Estou aqui. O que se passa? Estás bem?”
Já estava a mover-me. Limpei as mãos nas calças, estragando-as, mas pouco me importava. Sinalizei ao Mário, o mecânico júnior, apontando para o Mustang e passando o dedo na garganta. Estou fora. Cuida.
“Não… não posso ligar à mãe,” choramingou. “Ela está numa reunião… não atende.”
“Esquece a mãe. Tens a mim. Fala.”
“Estou na escola,” sussurrou. O barulho de fundo era estranho. Não o alvoroço da cantina. Era silêncio, mas com um zumbido baixo de risos abafados. “Sala 204. Aula do professor Torres.”
“Ok, sala 204. O que se passa, Lúcia?”
“Levaram-me a mochila,” soluçou baixinho. “O David e os amigos dele. Atiraram o meu caderno de desenhos para o lixo… e depois…”
Parou. Ouvi um ruído na linha, como se estivesse a mudar de posição.
“Depois o quê, Lúcia?” Apertei o telemóvel com tanta força que a capa rangE, naquela tarde, enquanto o sol se punha sobre os campos de trigo, eu e a Lúcia regressámos a casa de mota, sabendo que nada nem ninguém nos separaria outra vez.