O Último Trem da EsperançaA velha locomotiva apitou sua partida, carregando não apenas crianças, mas o coração de uma mãe que, contra todo o desespero, se recusava a parar de bater.

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A chuva fina, fria e implacável como o próprio destino, caía do lado de fora da janela gelada, transformando a cidade num reino fantasmagórico de silêncio e frio. Num quarto pequeno, onde a respiração se transformava instantaneamente numa nuvem de vapor, uma mulher sentava-se, abraçando uma criança frágil.

— Mãe, não quero separar-me de ti — uma voz baixa e entrecortada soava no ar gélido, como um pedaço de gelo a rachar. Os olhos da menina, enormes e azuis como esquecimentos-dois-não cobertos de geada, estavam cheios de lágrimas.

— Minha andorinha, meu sol, é preciso. É mesmo preciso. Em breve, muito em breve, estarei ao teu lado — as palavras soavam como um feitiço, uma reza que a mulher repetia, tentando convencer-se a si própria. Acariciava os cabelos claros e finos como seda da filha, e cada dedo seu parecia entorpecido pela despedida que se avizinhava.

— E como vou ficar sem ti, sozinha?

— Não estás sozinha, o Tomás estará contigo. Ele prometeu.

Junto ao fogão, tentando aquecer as mãos geladas, estava o rapaz do lado. Os seus caracóis ruivos pareciam guardar resquícios de algum calor veraneio extinto, e o olhar, maduro e sério para a idade, estava fixo na amiguinha.

— Inês, dei a minha palavra. Palavra de honra. Vou proteger-te — disse ele com firmeza, aproximando-se e pousando a mão no seu ombro.

A Helena sentia um peso insuportável, mas a razão, fria e lúcida, repetia-lhe uma coisa: era o único fio de salvação, a única hipótese de arrancar as crianças do inferno do cerco. A fome, o frio que trespassava o ser, os fogareiros a deitar fumo e os olhos vazios daqueles que já haviam desistido. O Tomás perdera a mãe no inverno passado — ela partira, tentando dar vida a uma nova pessoa, e ambos ficaram para sempre no apartamento gelado. A ajuda não chegou a tempo, perdeu-se nos redemoinhos de neve da cidade condenada.

Implorou ao chefe da secção que a deixasse partir com as crianças, mas a resposta foi sempre seca, sem margem para discussão:
— Se todos os que têm filhos forem evacuados, quem fica nas máquinas? Pensas que é fácil para mim? Mas há uma ordem. Uma ordem de ferro. Desrespeitá-la é como assinar a nossa sentença.

— Peço-lhe… Salve pelo menos a minha filha! Hei de encontrá-la depois, quando este pesadelo acabar. Por mais que tenha medo, tenho de pensar na vida dela. E o Tomás… Está sozinho no mundo, é o rapaz do nosso prédio.

Foi assim que a Inês e o Tomás seguiram numa coluna de outras pequenas sombras perdidas, conduzidas pelo frágil gelo do rio Tejo — aquela estrada de vida e esperança, tão estreita sobre o abismo negro.

Os dois anos seguintes, a Helena viveu no limite, onde o corpo se recusa a obedecer, mas o espírito, impelido por um único objetivo, força a dar passo após passo. O seu objetivo era o reencontro. Todas as manhãs acordava com o pensamento: “Hoje pode chegar notícia. Hoje pode tudo acabar.” Mas os dias arrastavam-se numa cadeia monótona e interminável. As pessoas, como sombras, caíam nas ruas e não se levantavam mais. A sua própria mãe tornou-se uma dessas sombras, apagando-se silenciosamente no quarto gelado. A eles, operários da fábrica de defesa, não era permitido sequer pensar em partir.

No início de fevereiro de 1944, quando o cerco foi finalmente quebrado, uma mulher magra, quase translúcida, aproximou-se do chefe da secção. A sua voz era baixa, mas soava a aço temperado na forja do sofrimento.
— O cerco acabou. Preciso de encontrar a minha filha e o Tomás. Deixe-me ir.

— Sabes onde procurá-los, agora? O país é enorme.

— Soube que o comboio deles seguiu para a região de Viseu. Hei de procurar nos orfanatos. Pode demorar.

— E vais sozinha? A guerra ainda não terminou.

— Acha que, depois de tudo o que passei, posso ter medo de mais alguma coisa?

O Sr. Artur, chefe da secção, um homem de rosto cansado e bigode grisalho, suspirou profundamente.
— Pensas que é assim tão simples, deixar-te ir? Queres que anule a tua isenção?

— E se me considerar… desaparecida? Assim não haveria problemas. A Dona Felicidade, por exemplo, desapareceu há três meses e depois regressou. Um velho farmacêutico tratou dela, deu-lhe água quente, escondeu-a. Milhares de nós sobrevivemos como pudemos.

— Não, isso não posso fazer. Posso cobrir-te durante dois meses. Mas no início de abril — quero-te aqui de volta ao trabalho. Caso contrário… bem sabes.

— Obrigada — sussurrou a Helena e, movendo com dificuldade as pernas enfraquecidas, saiu da secção. A neve já não era uma inimiga, era apenas neve. Começava a busca. Já tinha feito perguntas, sabia o nome da estação onde os evacuados tinham chegado. Agora era preciso seguir.

Viseu recebeu-a com o lodo e o bulício da estação, tão estranhos após o silêncio sepulcral de Lisboa. Estava no cais, perdida e confusa, quando uma senhora idosa, com um colete acolchoado e um lenço na cabeça, se aproximou.

— Minha filha, estás à procura de alguém? — perguntou com suavidade, e nos seus olhos brilhava uma terna solicitude.

— Sim — exalou a Helena. — De duas crianças. Um rapaz e uma rapariga. Foram trazidos para cá após a evacuação. Preciso de um sítio para ficar, para fazer as diligências.

— Vem comigo, vivo sozinha. Não quero dinheiro. Ajudas-me só com a casa, as minhas mãos já não são o que eram, doem-me.

— Com todo o prazer! Muito obrigada.

Foi assim que a Helena encontrou abrigo temporário na casa da Dona Amélia, cuja bondade era uma ilha de salvação no mar de desorganização do pós-guerra.

Na tarde desse mesmo dia, ao regressar dos serviços, a Helena sentou-se à mesa da cozinha, onde já fumegava um bule e cheirava a pão de centeio fresco.

— Então, conta, como correu? — perguntou a Dona Amélia, servindo chá nas chávenas de faiança.

— Entreguei os pedidos em todos os orfanatos da região. Dei não só os nomes, mas também as marcas. A minha Inês tem uma cicatriz no antebraço esquerdo, em forma de lua — cortou-se num canto da mesa. Devia ter ficado. E enviei pedidos às escolas — ela já tem sete anos, devia estar a estudar. O Tomás tem cabelo ruivo, sardas e duas coroas no alto da cabeça, os caracóis estão sempre de pé — por um instante, um sorriso terno, quase esquecido, pairou nos lábios da Helena.

— É do pai, então, ruivo? E tu és morena.
— Não, não é meu filho, é do prédio ao lado.

— E mesmo assim preocupas-te tanto com ele?

— A minha Inês é muito apegada a ele, são como irmãos. E tenho pena do rapaz — o pai está na frente, não há notícias desde o início do cerco. A mãe dele faleceu em quarenta e um.

— E o teu marido?

— Caiu junto a Lisboa nos primeiros meses.

— Coitadinha… Os teus pais vivem?

— O pai mor — A mãe… não resistiu ao inverno passado.

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