O Sussurro que Podia Muda TudoO sussurro do meu instinto calou-se no momento exato em que ignorei seu aviso.

6 min de leitura

Acordei no escuro, com uma dor que martelava dentro da minha cabeça e a sensação nítida de que a minha vida dependia de uma decisão alheia.
A voz do meu marido cortou a névoa dos meus sentidos, calma demais, perigosamente serena.

— Boa noite, agente. Foi um incidente na estrada secundária.

Um batimento.
Depois, a verdade, afiada como um pensamento impossível de ignorar:

— Ela já não é problema. Amanhã, tudo ficará em meu nome.

O sussurro de uma mulher tremeu perto de mim.

— E se ela ainda estiver viva?

Ele pareceu quase divertido.

— Não está. Eu verifiquei.

O medo inundou-me o peito, mas contive-me. Prendi a respiração e fiquei imóvel, à escuta, à espera do momento exato em que tomariam a próxima decisão.

A primeira coisa que notei foi a areia entre os dentes e um sabor metálico na boca. A minha face estava pressionada contra a gravilha fria. Algures acima de mim, um motor ficara ao ralenti, firme, paciente, como se o tempo não importasse.

Não abri os olhos. Deixei que os círios repousassem sobre a pele e concentrei-me em não me mexer. A dor na cabeça vinha em ondas lentas e profundas, e quando tentei engolir, uma pontada aguda percorreu-me o pescoço.

Então, ouvi o João.

— Boa noite, agente. Um pequeno incidente na estrada municipal — disse com aquela voz entrecortada que ele sempre usava com empregados de mesa, vendedores ou funcionários do banco.

Um segundo depois, baixou o tom.

— Já não é problema. Amanhã tudo estará resolvido.

Uma mulher soltou uma risadinha suave. Não era da polícia. Demasiado casual. Demasiado perto.

— E se ainda estiver a respirar? — perguntou ela.

— Não está — respondeu o João. — Eu verifiquei.

O estômago contraiu-se com força. Obliguei-me a ficar quieta, prendendo a respiração como quando era criança e brincava às escondidas, como quando mergulhamos e temos medo que alguém nos veja.

A gravilha moveu-se perto da minha orelha. Um sapato roçou a minha face. Lutei contra o impulso de me encolher.

— Meu Deus… — sussurrou a mulher, quase com admiração. — Conseguiste, realmente.

O João exalou.

— Tinha de ser discreto. Se ela reagisse, iria falar.

A voz dela tornou-se prática.

— O agente vai fazer perguntas. Precisas de uma versão clara.

— Já a temos — disse o João. — Ela insistiu em conduzir. Apareceu um veado. Ela deu uma guinada. A carrinha capotou. Trágico.

Imaginei a nossa carrinha, aquela que comprámos na primavera passada, depois de ele me ter convencido de que era “um bom investimento”. A mesma que ele insistiu em segurar em meu nome, porque era “mais simples”.

Uma radiofonia crepitou ao longe. Então, sim, havia um agente por perto, ou pelo mesmo a caminho. O meu coração batia com força, a suplicar que me mexesse, que falasse, que fizesse algo.

Mas o João conhecia os meus sinais. Sabia como eu encolhia os ombros quando entrava em pânico, como me custava fingir calma.

Uma mão tocou no meu pulso.

Quis afastá-la, mas não o fiz. Deixei que o braço ficasse completamente mole.

Os dedos do João pressionaram o interior do meu pulso, à procura. Depois, murmurou, satisfeito.

— Vês? Nada.

A mulher disse:

— Então vamos, antes que passe mais alguém.

E de repente, tão perto que senti a colónia do João e o hálito a tabaco dela, ouvi o clique metálico de algo a abrir — como o fecho de uma mala —, seguido pelo roçar de plástico na gravilha.

O som parou ao meu lado.

Mantive os olhos fechados, mas a minha mente reconstruiu a cena: um toldo. Algo para me cobrir. O João sempre odiou desarrumação.

— Tens a certeza que não queres deixá-la aqui? — perguntou ela. — Já parece um acidente.

— Não — a voz do João ficou tensa. — Os incidentes são investigados. As pessoas… são procuradas. Ela tem de desaparecer por um tempo. Só até se resolverem as papeladas.

A minha garganta secou. Desaparecer.

Uma porta bateu algures na estrada. Uma voz masculina ecoou entre as árvores.

— Está tudo bem aí?

O João recuperou o tom num instante.

— Sim, agente! Por aqui!

Passos a aproximarem-se. Soube que era um agente local pela forma como as botas analisavam o terreno.

— Senhora? — perguntou. — Ouve-me?

Relaxei o corpo. Separei os lábios ligeiramente, como se estivesse inconsciente. Não respirei. A ardência no peito foi intensa, mas aguentei.

O João interpôs-se; ouvi-o no ranger da gravilha.

— Ela… partiu, agente. Fiz o que pude. Verifiquei o estado dela.

O agente suspirou.

— Lamento. Esta estrada é complicada de noite. Vou chamar apoio e o reboque. Senhor, o que aconteceu?

O João repetiu a história do veado com a fluidez de algo ensaiado. Enquanto falava, a mulher aproximou-se novamente dos meus pés.

— O toldo está pronto — murmurou, como se estivesse a organizar algo trivial.

O agente pediu documentos. O João afastou-se uns passos. Isso criou espaço.

A mulher agachou-se junto a mim.

— Estás a fazer muito bem — sussurrou, referindo-se ao plano. — Isto vai resultar.

A sua mão deslizou por debaixo do meu ombro para calcular o meu peso.

Foi então que soube que não podia continuar à espera.

Deixei que o meu peito se elevasse ligeiramente e tossi, suave, débil, como um reflexo.

A mulher ficou imóvel.

Tossi de novo e abri os olhos. A dor foi intensa, mas consegui focar. O rosto dela estava a centímetros do meu. Não era autoridade. Apenas alguém que tinha ajudado o meu marido a tentar silenciar-me.

— Não… não, não — murmurou.

A minha boca formou uma única palavra:

— Ajuda.

A voz do agente cortou a noite.

— O que foi isso?

Ela endireitou-se demasiado rápido.

— Ela… ela apenas…

Levantei a mão, a tremer, e apontei.

— Ele… foi ele.

As botas do agente rangeram ao correr.

— Senhora, fique comigo! Senhor, para trás! Mãos à vista!

O João protestou.

— Ela está confusa! Bateu com a cabeça!

O agente ajoelhou-se ao meu lado e tocou-me no pescoço com cuidado. A sua expressão mudou.

— Tem pulso. Central, preciso de assistência médica imediata. Possível agressão prévia.

Pensei que já estava a salvo. Enganei-me.

Parte 2 …

Vi o olhar da mulher desviar-se para as árvores.
Os passos do João recuaram.

Então, de forma repentina, o João lançou-se sobre o agente e a noite encheu-se de vozes alteradas.

Tudo aconteceu ao mesmo tempo.

O agente conseguiu afastá-lo, mas o João tinha a vantagem da surpresa e do desespero. Forcejaram, as botmas o agente, mais rápido do que parecia, já tinha a algema no pulso do João antes que este pudesse dar dois passos.

Leave a Comment