O grito escapou-se antes que Matilde Sousa percebesse o que via. As suas mãos enterraram-se na terra solta, demasiado fofa, como se alguém tivesse escavado ali há instantes. O regador de metal escorregou-lhe dos dedos e caiu nas pedras do jardim com um estrondo que cortou a quietude da manhã. Ajoelhou-se, os dedos a revolver a terra sob os pés de roseira.
E então tocou em algo frio, liso, humano. Uma mão pequena. O mundo parou, o seu coração, não. Batia com força contra as costelas, cada pancada um grito silencioso, enquanto escavava, as unhas a partir-se, as palmas a arranhar-se em pedras escondidas, até avistar o tecido azul do pijama. O pijama dos dinossauros que ela própria tinha vestido no menino na noite anterior.
Tomás. O nome saiu-lhe rouco, desfeito. Matilde enfiou os braços por debaixo do corpo da criança e puxou com demasiada força, com demasiado desespero. Ele debateu-se no ar, o peito comprimido sacudindo-se violentamente, e depois soltou um som: “Um guincho agudo, abafado, vivo.” “Desculpa, meu amor. Desculpa.” Ela soluçou, apertando-o contra o peito, enquanto ele se mexia debilmente, a boca cheia de terra.
Os dedinhos dele agarraram a gola do seu uniforme como se fosse a única coisa real no mundo. Eu não quis magoar-te. Por favor, meu Deus, por favor, deixa-o respirar. Ela cambaleou para trás com ele nos braços, terra a escorrer pelas pernas. O choro dele era rouco, estrangulado, o som de alguém que se tinha esquecido de como se grita.
Socorro! O grito de Matilde rasgou a calma da propriedade. Alguém que me ajude! Uma porta bateu. Passos pesados ecoaram pelo pátio. Ricardo Carvalho, um dos homens mais ricos de Lisboa, sempre tão polido, tão controlado, vinha a correr na sua direção e o seu rosto estava irreconhecível.
Não era medo, não era choque, era uma fúria cega, animal. O que é que fez? Rugiu. Matilde tentou falar, a voz a tremer incontrolavelmente. Senhor, eu encontrei-o enterrado. Eu salvei-o. Ricardo avançou e arrancou-lhe Tomás dos braços com tanta força que o menino gritou de dor. Enterrou o meu filho vivo. Não, não, senhor, por favor.
Matilde estendeu as mãos, o pânico a inundar-lhe cada nervo. Eu salvei-o. Ouvi-o a chorar. E a mão de Ricardo cortou o ar e atingiu-lhe o rosto com tanta força que a sua cabeça rodou. A dor explodiu na mandíbula antes que tivesse tempo de reagir. Ela cambaleou, mas ele já a empurrava novamente. Um empurrão no peito que a atirou para trás, direitinha aos roseirais.
Os espinhos rasgaram-lhe os braços, as pernas, as costas. O uniforme abriu-se em tiras, enquanto ela caía entre os ramos retorcidos, com a respiração presa na garganta. Sangue escorria pelo seu antebraço. Tentou levantar-se, as mãos a tremer contra o chão. “Senhor Carvalho, eu nunca faria tal coisa.” “Cale-se.” Rosnou ele, a voz a quebrar de dor e raiva. “Confiei-lhe os meus filhos.”
A voz de Beatriz pairou na varanda, suave, preocupada, perfeitamente ensaiada. Ela surgiu com um roupão de seda branco imaculado, o cabelo loiro a cair em ondas perfeitas, os olhos arregalados num choque calculado. Correu para o marido, pousando uma mão trémula no seu ombro. Meu Deus, Matilde, como é que pudeste? O Tomás é só um bebé. Não fui eu.
Matilde sussurrou, desesperada. Eu ouvi-o a chorar. Eu cavei. Eu salvei-o. Beatriz levou a mão à boca, os olhos brilhando com lágrimas que pareciam saídas de um romance. E espera que acreditemos nisso? Estava sozinha com ele. Anda a comportar-se de forma estranha há semanas. É verdade. Uma das empregadas gritou da porta. Eu ouvi-a a falar sozinha hoje de manhã.
Sempre achei que havia ali qualquer coisa de errado. Outra voz juntou-se. É obcecada por estas crianças. Monstro, assassina. Tirem-na daqui. Matilde sentiu o chão a fugir-lhe debaixo dos pés. Não era o sangue nos braços, não era a dor na face, era o olhar de todos, como se ela fosse algo que precisava de ser varrido. E Beatriz, ali parada com um sorriso invisível nos olhos, sabia exatamente o que estava a fazer.
Ricardo virou costas e subiu as escadas com Tomás ao colo. O menino ainda tossia terra, o corpinho a tremer. Matilde ficou ali, de joelhos entre os espinhos, sangue a escorrer dos cortes nos braços, com sabor a ferro na boca, onde a bofetada lhe tinha partido o lábio. Quis gritar a verdade até ficar rouca, mas as palavras morriam antes de nascer, sufocadas pelo peso de todos aqueles olhares acusadores.
Ninguém a ajudou a levantar-se. As horas seguintes arrastaram-se como caco de vidro. Matilde sentou-se nos degraus de mármore frio da entrada de serviço, enquanto dois agentes da PSP faziam as mesmas perguntas vezes sem conta, vozes monótonas, esferográficas a riscar blocos. Onde estava antes de encontrar o menino? No jardim.
Eu ouvi-o a chorar debaixo da terra. O agente mais velho trocou um olhar com o colega. “E a senhora espera que acreditemos nisso?” Ela repetiu a história como uma reza partida, mas eles não estavam a ouvir, estavam a anotar, a catalogar, a decidir. Lá dentro, a voz de Beatriz flutuava pelo corredor como um perfume caro, doce, controlado, letal.
Agente, a Matilde sempre foi instável. Fala sozinha, fica a olhar para as fotografias das crianças à noite. Eu… eu tinha medo que pudesse magoar alguém. Matilde cravou as unhas nas palmas das mãos para não gritar. Quando os agentes finalmente se foram embora, subiu para o seu quarto, um cubículo nas traseiras da casa, onde a janela dava para a garagem e o ar nunca circulava bem.
Lavou o sangue dos braços no lava-loiça rachado, a observar a água avermelhada a desaparecer pelo cano. As mãos tremiam tanto que teve de se agarrar à bacia. Foi então que ouviu um ruído ligeiro, passinhos. Matilde virou-se. Carolina estava parada à porta, os olhos castanhos arregalados, assustados. Apertava o ursinho de peluche contra o peito, como um escudo. Dona Matilde.
Matilde forçou um sorriso suave, enxugando as mãos no avental rasgado. Olá, minha querida. Carolina torceu a orelha do urso entre os dedos. O papá disse que magoaste o Tomás. O peito de Matilde apertou. Meu amor, isso não é verdade. A menina hesitou, depois sussurrou baixinho, quase envergonhada. A Beatriz disse-me para não falar contigo.
Ela disse que o fantasma da mamã está zangado porque dás azar. Matilde gelou. Fantasma da mamã. Carolina parecia demasiado séria para uma criança de 6 anos. Ela disse que o espírito da mamã vê tudo. Um arrepio percorreu a espinha de Matilde. Ajoelhou-se, ficando à altura da menina. Querida, os fantasmas não culpam as pessoas e eu não dou azar.
CarDepois, puxou a menina para um abraço apertado, sentindo o peso do medo a levantar-se dos seus ombros, substituído pela certeza silenciosa de que, finalmente, estavam todos a salvo.