Ele voltou para surpreender os seus pais… mas o que encontrou destruiu tudo o que sabia sobre a sua família.
O carro de Leonardo Silva cortou o nevoeiro gelado de Montebranco, uma cidade europeia de postais perfeitos e um frio que corta a pele. Regressara três dias antes do planeado. O contrato fora fechado depressa, e na sua cabeça só existia uma imagem: o seu pai a rir-se com aquele “isso é que é, meu filho” orgulhoso, e a sua mãe a servir-lhe café como se com isso pudesse curar-lhe o cansaço.
A dona Rogério e dona Carminha ele trouxera-os do Brasil quando a sua empresa descolou. “Agora é a vez de vocês viverem tranquilos”, prometera-lhe, convencido de que o luxo podia pagar a dívida do amor. Naquela mansão com aquecimento, jardins impecáveis e vidros enormes, os seus pais finalmente teriam o que nunca tiveram: descanso.
Só que, ao chegar, algo não batia certo.
As luzes da sala de estar estavam apagadas. Apenas um par de janelas do segundo andar brilhavam como olhos cansados. Leonardo franziu a testa. Eram oito da noite, cedo de mais para estarem todos a dormir.
Apertou o comando do portão. Abriu-se lentamente. Estacionou na garagem quente. Desceu com a mala na mão… e então viu.
Duas figuras humanas estavam sentadas na neve, abraçadas uma à outra nos degraus de uma entrada lateral. Por um segundo pensou que eram sem-abrigo à procura de refúgio. Mas o seu coração parou quando a lâmpada exterior iluminou um rosto conhecido.
— Não… não pode ser! — sussurrou.
Eram os seus pais.
Dona Rogério tremia com uma camisola fina e umas calças de pijama, os lábios roxos. Dona Carminha trazia um vestido de algodão, sem casaco, com o cabelo colado à testa pela humidade. Estavam ali fora como se os tivessem posto na rua sem lhes dar tempo para nada.
Leonardo largou a mala e correu. Escorregou um pouco, ajoelhou-se frente a eles e abraçou-os aos dois ao mesmo tempo, como se os pudesse aquecer com o seu corpo.
— Pai! Mãe! O que estão aqui a fazer? Quem… quem é que vos deixou aqui fora?
Dona Rogério levantou a cara. As lágrimas tinham-lhe congelado nas faces.
— Meu filho… voltaste… — a sua voz era um fio —. A tua mulher disse que já não podíamos ficar lá dentro.
A Leonardo ferveram-lhe o sangue.
— Mariana? — nomeou-a com incredulidade. A sua mulher, elegante, sorridente, a mesma que nos jantares cumprimentava os seus pais com beijos formais —. O que estás a dizer, mãe?
Dona Carminha apertou o peito e soltou um choro baixinho.
— Ela disse que tinhas falado durante a viagem… que estavas cansado… que já não querias que nós estivéssemos aqui… que atrapalhávamos.
A palavra ‘atrapalhávamos’ partiu-lhe a alma a Leonardo.
— Isso é mentira! Eu nunca diria isso!
Tentou abrir a porta da frente. Não cedeu. Bateu. Carregou na campainha. Nada. Procurou a sua chave. Não entrava.
A fechadura… tinha sido mudada.
Levantou a vista para a janela do quarto principal. Uma silhueta desenhou-se por trás do cortinado. Mariana estava lá, a observar a cena como quem vê um filme alheio.
— Mariana! — gritou Leonardo —. Abre-me já!
Ligou para o telemóvel. Ouviu o toque… lá dentro de casa. Ela não atendeu.
A neve começou a cair com mais força. Dona Rogério tossia secamente. Dona Carminha já não conseguia parar de tremer.
Leonardo não pensou. Correu para a parte de trás, onde se lembrava de uma janelinha da cave que por vezes ficava frouxa. Meteu as mãos, entorpecidas, forçou a moldura… e entrou.
Lá dentro a casa estava quente e perfumada, como uma troça.
Subiu as escadas e bateu à porta do quarto.
— Abre! Agora!
Do outro lado, Mariana falou com uma calma que dava medo.
— Voltaste cedo demais, Leo.
— Os meus pais estão lá fora na neve! Que tipo de pessoa faz isso?
— Eles estão bem. Não é como se fosse para sempre.
Essa frase gelou-lhe o coração mais que o inverno.
— Eles podiam ter morrido!
A porta abriu-se um palmo, com a corrente posta. Mariana apareceu impecável: maquilhagem perfeita, roupão de seda, olhar frio.
— Precisas de perceber uma coisa — disse —. Os teus pais não podem viver aqui para sempre.
— São os meus pais.
— E eu não assinei um contrato para ser cuidadora de idosos — cuspiu, sem pestanejar —. Se queres fazer de filho perfeito, faz… mas não na minha casa.
Leonardo sentiu um murro no estômago.
— A tua casa? Esta casa fui eu que a comprei.
Mariana sorriu, torto.
— Já veremos.
Leonardo desceu sem dizer mais. Abriu por dentro a porta da frente e tirou os seus pais do frio como quem resgata um tesouro de um incêndio. Sentou-os no sofá, levou-lhes cobertores, preparou-lhes chá. Ficou a vigiá-los a noite toda, a ouvir a sua respiração, sentindo-se culpado por não ter visto os sinais.
Às seis da manhã ouviu passos. Mariana desceu com uma mala como se fosse um dia normal.
— Precisamos de falar — disse Leonardo, bloqueando-lhe a passagem.
— Não tenho nada para falar — respondeu ela —. Já escolheste.
— Escolhi salvar os meus pais.
— Pois então, liga quando decidires o que te importa mais: ou eles ou eu.
E foi-se embora, deixando a porta fechar-se com um estrondo que pareceu um tiro.
Dona Rogério, já acordado, sentou-se com esforço.
— Filho… isto… isto não foi a primeira vez — confessou, com vergonha.
Leonardo olhou-o fixamente.
— Como assim não foi?
— Há semanas que ela nos dizia que gastávamos muito, que tu estavas cansado… e que uma “ajudante” vinha ver-nos.
— Ajudante? Que ajudante?
Dona Carminha mordeu o lábio.
— Uma rapariga… chama-se Rosa. A Mariana disse que tu a contrataste.
Leonardo sentiu que algo encaixava… mas como um puzzle sinistro.
Aquele dia era terça-feira. Se a Rosa vinha “todas as terças”, apareceria em breve.
Leonardo não só esperou pela Rosa. Também reviu o seu escritório. Abriu gavetas. Encontrou papéis fora do lugar. Uma pasta azul, escondida atrás das escrituras. Abriu-a… e ficou sem ar.
Formulários de uma residência privada: “Anos Dourados”. Nomes dos seus pais já preenchidos. Assinaturas da Mariana como responsável legal. Diagnósticos impressos: “deterioração cognitiva”, “risco”, “agressividade”.
Tudo falso.
E no fundo… uma cópia de uma certidão de óbito com o seu nome.
Leonardo agarrou-se à secretária para não cair.
Não era ódio improvisado. Era um plano.
Quando a campainha tocou, o seu coração já batia como um tambor.
Abriu a porta com um sorriso duro.
A Rosa entrou com uma pasta debaixo do braço, trinta e tal anos, cabelo castanho, sotaque estrangeiro.
— Bom dia. Sou a Rosa, a assistente que cuida dos seus pais. A Mariana não está?
— Saiu cedo — mentiu Leonardo —. Passe.
A Rosa olhou em volta como quem inspeciona terreno.
—Os seus pais… anoche pareciam confusos, não é? A esta idade acontece. Tenho aqui relatórios…