O milionário voltou para casa mais cedo naquela tarde porque a reunião em Zurique tinha sido cancelada sem aviso. Pela primeira vez, não ligou a avisar. Nenhum assistente. Nenhum motorista à espera. Apenas ele, a pasta de documentos e o pensamento silencioso de que poderia surpreender a família.
Talvez seja isto que os pais normais fazem, pensou. Simplesmente… chegam a casa.
A casa parecia demasiado silenciosa quando ele entrou.
Não era paz—era vazio.
A luz do sol entrava pelas janelas altas, refletindo nos pisos de mármore que custaram mais do que o seu primeiro apartamento. Algures por perto, a água corria. Seguiu o som até à cozinha.
Foi quando as pernas quase cederam.
Na pia estava Ana, a empregada doméstica, a lavar a louça. Isso, por si só, não o teria abalado.
O que o destruiu foi a menina sentada nos seus ombros.
A sua filha.
Descalça. A rir tanto que mal conseguia respirar. As mãozinhas estavam enroladas no cabelo de Ana enquanto gritava de alegria, saltando cada vez que Ana se mexia. Ana também ria—suave, calorosa, completamente descontraída—esfregando um prato com uma mão enquanto segurava a perna da menina com a outra, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Por um instante, ele não conseguiu mover-se.
Porque nunca tinha visto a filha tão feliz.
Não com ele.
Não com a mãe.
Não com todos os brinquedos, explicadoras e encontros planeados que o dinheiro podia comprar.
O coração acelerou.
Por que está a minha criança com a empregada?
Onde está a minha mulher?
Por que isto parece que estou a invadir algo verdadeiro?
Ana sussurrou algo divertido. “Cuidado, princesinha. Vais deixar-me tonta.”
A menina riu-se e encostou a cara à cabeça de Ana.
Foi quando a visão dele ficou turva.
Ele limpou a garganta.
Ana virou-se, surpreendida. A filha viu-o imediatamente.
“Papá!” gritou.
Ele esperou que ela estendesse os braços para ele.
Não estendeu.
Em vez disso, olhou primeiro para Ana—como se pedisse permissão.
Algo dentro dele partiu-se.
Momentos depois, a mulher apareceu à porta. O rosto dela perdeu a cor quando o viu.
“Chegas-te cedo,” disse baixinho.
“Sim,” respondeu. “Por acaso.”
Ninguém falou.
O silêncio pesava mais do que qualquer negociação tensa que ele já enfrentara.
Finalmente, fez a pergunta que o queimava por dentro.
“Há quanto tempo?”
A mulher curvou os ombros. “Há algum tempo.”
“Há algum tempo desde quando?” insistiu.
Ela engoliu. “Desde que já não consegui mais.”
Ele olhou para Ana, que baixou imediatamente o olhar. “Senhor, desculpe. Eu nunca quis—”
“Isto não é sobre ti,” disse, com voz trémula. “É sobre mim.”
Voltou-se para a mulher. “Onde estavas esta tarde?”
Ela hesitou, depois sussurrou: “Na cama. Não conseguia levantar-me. Alguns dias nem consigo respirar direito. Os médicos dizem que é depressão pós-parto.”
As palavras caíram suavemente—mas destruíram-no.
Porque, de repente, tudo fazia sentido.
Os sorrisos distantes.
Os momentos perdidos.
A maneira como a filha às vezes chorava quando ele a pegava, mas acalmava-se imediatamente nos braços de Ana.
Ana falou novamente, a voz a tremer. “Ela chora quando acorda das sestas. Chama pela mãe… mas quando ninguém vem, eu fico com ela.”
Chama pela mãe.
O peito apertou-se.
Ajoelhou-se e estendeu os braços. “Querida, vem para o papá.”
A filha hesitou.
Só um segundo.
Depois, Ana levantou-a com cuidado e colocou-a nos braços dele.
A menina abraçou-o—mas o corpo estava rígido. Inseguro.
Naquela noite, não voltou ao escritório. Não abriu o portátil nem respondeu a nenhum e-mail. Sentou-se no chão do quarto da filha enquanto ela dormia, observando os dedinhos a apertarem-se em nada,