**Diário de um Homem**
Os corredores do vigésimo terceiro andar cheiravam a café recém-passado e a desinfetante de limão. Era uma mistura estranha: luxo e asseio, como se o prédio quisesse convencer a todos que, ali em cima, o mundo era mais limpo, mais correto, mais justo. João Almeida caminhou até o escritório sem olhar para ninguém, com o celular vibrando pela enésima vez no bolso e a cabeça cheia de números: investidores, prazos, o projeto de torres em Cascais, a voz de Ana pedindo “resultados” como se a vida fosse uma planilha.
Quando abriu a porta, tudo brilhava. O vidro sem digitais. O mármore como um espelho. Nem um grão de pó no rodapé, nem uma mancha na mesa de reuniões. Por um segundo, sentiu-se satisfeito, como quem olha uma cidade do alto e acha que, por vê-la, pode possuí-la.
Então a viu.
Beatriz estava ajoelhada perto da mesa, limpando com movimentos precisos, quase silenciosos. Magra, jovem, com o cabelo preso e as mãos vermelhas, rachadas por produtos baratos. Assustou-se ao vê-lo, como se a presença de um chefe fosse um relâmpago.
—Desculpe, senhor Almeida —disse, levantando-se rápido demais—. Termino em cinco minutos.
João, que raramente improvisava uma frase fora do roteiro profissional, soltou uma que não vinha da cabeça, mas de algum lugar incómodo no peito.
—Sem problemas. Leva o teu tempo.
Beatriz acenou sem olhá-lo e continuou a limpar. Ele sentou-se, tentou ligar o computador, mas o olhar voltava para ela: o cuidado com que movia cada objeto, como se tudo ali fosse frágil; o modo como evitava fazer barulho, como se pedisse desculpa por existir.
Quando terminou, empurrou o carrinho em direção à porta.
—Pronto, senhor. Bom dia.
—Espera —disse João, e meteu a mão na carteira. Contou notas sem pensar: vinte euros—. Toma. Pelo trabalho bem feito.
Beatriz ficou parada. Olhou para o dinheiro, depois para o rosto dele. Não havia ambição nos seus olhos. Nem gratidão exagerada. Só cansaço… e algo duro, como uma fronteira.
—Obrigada, senhor Almeida —respondeu com voz suave—, mas não posso aceitar.
—É uma gorjeta —insistiu ele, desconfortável—. Toda a gente aceita gorjetas.
—Eu só aceito o meu salário combinado. O que ganho está bom. Não preciso de mais.
Disse “não preciso de mais” como se aquela frase fosse um muro que tivesse construído com sangue. Depois foi-se embora, sem drama, sem desculpas, deixando o dinheiro na mão dele como se lhe tivesse oferecido algo sujo.
Naquela manhã, João não conseguiu concentrar-se. A rejeição seguiu-o como uma sombra. Quem recusa dinheiro extra? Que tipo de orgulho era aquele? Durante duas semanas, tentou repetir o gesto: uma gorjeta, chocolates, um aumento. Beatriz recusou tudo com a mesma dignidade firme, como se cada oferta escondesse uma armadilha.
E numa tarde chuvosa, quando a viu sair do prédio com o olhar no chão e uma mochila gasta, algo dentro dele partiu-se. Não foi compaixão romântica, não ainda. Foi vergonha. Foi a intuição brutal de que passara trinta e quatro anos sem olhar de verdade para ninguém que não estivesse ao seu nível.
Sem pensar, desceu as escadas em vez de tomar o elevador. Saiu para a rua com o casaco aberto e a chuva fina desenhando pontinhos frios no rosto. Disse a si mesmo que só caminharia um pouco, por curiosidade, para acalmar a cabeça… mas quando Beatriz não virou para o ponto de autocarro e continuou, ele seguiu na sombra das montras, e uma ideia perigosa cresceu-lhe na garganta: “Preciso saber”. E no fim daquela frase, como se o destino ouvisse, sentiu que algo estava prestes a explodir.
Beatriz caminhava depressa. A trinta metros, João mantinha a distância, como se perseguisse um segredo. As luzes de Lisboa refletiam-se no pavimento molhado. Ela passou uma paragem. Depois outra. E mais outra. Até que se formou nele uma certeza incómoda:
“Ela está a andar para poupar no passe.”
Ao seu lado ia uma menina, de mão dada, que não devia ter mais de seis anos. Custava-lhe acompanhar o ritmo; quase corria. O vestido cinzento tinha a bainha gasta. Na mão, segurava um copo de papel.
Caminharam quarenta minutos. Os prédios modernos ficaram para trás. A cidade mudou de pele: ruas mais estreitas, paredes com grafites, passeios partidos. Cacém. João ouvira aquele nome como quem ouve uma notícia distante, uma palavra que não entra no prédio.
Beatriz parou em frente a um bloco degradado. A menina soltou-lhe a mão e correu para a entrada, como se o cansaço não existisse quando se tratava de chegar “a casa”.
—Mãe! —gritou a pequena, erguendo o copo.
João escondeu-se atrás de um carro estacionado, com o coração a bater-lhe nas costelas. Viu as moedas dentro do copo, poucas, tristes, tilintando como chuva metálica. Viu o rosto de Beatriz desfazer-se por um segundo, apenas um piscar de dor… e depois um sorriso forçado, corajoso, falso.
—Que boa ajudante tu és, meu amor —disse Beatriz, agachando-se—. Dá para… para ovos amanhã?
A pergunta foi feita pela menina, como se perguntasse o tempo. Como se “ovos amanhã” fosse a medida de segurança de uma infância.
Beatriz segurou-lhe o rosto com ambas as mãos.
—Amanhã, coração. Prometo.
Entraram num pequeno mercearia. João, do outro lado da rua, espreitou pelo vidro. Beatriz derramou as moedas no balcão. O dono contou-as com paciência, como quem conta segundos antes de uma má notícia. Ela apontou algo; ele negou com a cabeça. Ela apontou outra coisa. No final, saíram com um saco de papel: pão seco e uma garrafa de leite.
Era tudo.
Não entraram no prédio. Sentaram-se sob o toldo da mercearia, na beira da calçada, com a chuva a ficar mais forte. Beatriz partiu o pão e deu à menina a metade maior. A pequena bebeu leite direto da garrafa. Beatriz limpou-lhe a boca com o dorso da mão, com uma ternura que abriu o peito de João como uma faca.
—Amanhã podemos comprar manteiga? —perguntou a menina.
—Amanhã vemos, meu céu.
João sentiu náuseas, não pela pobreza em si, mas pela distância absurda entre aquele pão molhado na rua e o seu almoço de escritório, por tão fácil que era não ver.
Esperou que entrassem no prédio. Depois atravessou. Subiu as escadas com cuidado; o corrimão estava solto e as paredes cheiravam a humidade e lixo. No quarto andar, no fim do corredor, uma luz fraca filtrava-se por baixo da porta. Uma cortina improvisada deixava uma fresta.
Olhou.
Dentro havia um quarto quase vazio: tinta descascada, um colchão no chão com um lençolE naquele momento, enquanto a chuva lavava as ruas de Lisboa, João percebeu que a verdadeira riqueza não estava nos números de sua conta, mas na coragem de quem, mesmo sem nada, nunca perdeu a dignidade.