A insónia tinha a forma de uma roda.
Afonso Silvestre passara dois anos a escutar, na escuridão do seu quarto em Cascais, o mesmo som: o ligeiro ranger do aro da cadeira quando a Leonor se movia no corredor para ir à casa de banho ou quando a Mafalda a acomodava com cuidado para que as pernas não lhe adormecessem.
Cada noite, Afonso ficava a olhar para o teto, contando os “se calhar” como quem conta ovelhas: se calhar tivéssemos ido mais cedo ao hospital… se calhar tivesse sido outra inflamação… se calhar o médico não tivesse dito “irreversível” com a tranquilidade de quem não vive nesta casa.
Naquela manhã de terça-feira, obrigou-se a funcionar. Fato impecável, olheiras disfarçadas com café, e a Leonor com o seu vestido amarelo —aquele de que mais gostava porque “parece o sol”— já pronta na cadeira, com o laço torto e o olhar apagado.
—Pronta para mais um médico, minha princesa? —perguntou Afonso, tentando que a voz soasse firme.
Leonor olhou para ele sem drama, sem choro, como se aos cinco anos já tivesse aprendido a palavra “resignação” sem que ninguém lha tivesse ensinado.
—Se quiseres, pai.
Foi isso que o partiu por dentro.
Saíram para o carro e, justo quando Afonso ia a ligar o motor, viu um miúdo parado em frente ao portão. Teria oito, talvez nove anos. Pele morena do Alentejo, cabelo encaracolado e olhos muito negros. Usava uma camisola vermelha desbotada, que lhe ficava grande, e uns ténis gastos com os atacadores amarrados em nós desajeitados.
O miúdo não pedia esmola. Não fazia a pantomina da tristeza.
Olhava para a cadeira de rodas como se estivesse a ver algo que lhe doía… e que ao mesmo tempo compreendia.
Afonso pensou em acelerar. Qualquer coisa para evitar mais “esperanças” que depois se transformam em ruínas. Mas o miúdo aproximou-se da janela com passo decidido.
—Senhor… dá-me um minutinho?
Afonso baixou o vidro, mais por curiosidade que por paciência.
—O que queres? Tenho pressa.
O miúdo apontou para os pés da Leonor, que mal se viam por baixo do vestido.
—Eu posso lavar-lhe os pés… e ela vai voltar a andar.
A gargalhada escapou-se a Afonso, forte, seca. Era absurdo. Era cruel, até, vir oferecer milagres onde já tinham deixado mais de vinte mil euros e toda a fé do mundo.
—Olha, miúdo… não sei que burla é esta, mas—
—Não é burla, senhor —interrompeu o miúdo, sem perder a calma—. A minha avó ensinou-me. Chama-se dona Remédios. Ela curava gente por lá, em Santa Eulália. Eu sei fazer massagens com ervas. Se não resultar, o senhor manda-me embora. Mas se resultar… —e aí o miúdo fitou-o, sem pestanejar— a princesa vai correr.
Afonso sentiu, pela primeira vez em meses, uma pontada de algo que não era dor. Era aquela mistura perigosa de esperança e desespero, como quando se está prestes a apostar a única coisa que resta.
Leonor, que estivera calada, inclinou-se para a frente.
—Pai… quem é ele?
O miúdo sorriu, e o sorriso mudou-lhe a cara. De repente já não parecia um miúdo de rua, mas sim um miúdo… miúdo.
—Olá, princesa. Chamo-me Tiago. Tiago Santos.
Afonso franziu a testa.
—E como sabes o nome dela?
Tiago encolheu os ombros, como se fosse a coisa mais normal do mundo.
—Ora… toda a gente sabe. A senhora da mercearia contou que a filha do senhor Silvestre já não anda. Disse que o senhor anda muito triste.
O peito de Afonso apertou-se. Não queria que a sua dor se tivesse transformado em mexerico, mas a dor, em Portugal, viaja mais depressa que um táxi.
Leonor levantou a mão, como a pedir licença.
—Tu podes mesmo ajudar-me?
Tiago ajoelhou para ficar à sua altura.
—Posso tentar. Mas tu também tens de querer. A minha avó dizia que as pernas são teimosas… mas o coração é mais teimoso.
Afonso engoliu em seco. Olhou para a filha. Olhou para o miúdo. E tomou uma decisão que não parecia de empresário, mas sim de pai.
—Está bem. Mas fazemo-lo como deve ser. Com a minha esposa presente. E se algo não me agradar, acaba-se.
Tiago hesitou um segundo, como se não acreditasse que o portão se ia abrir para ele.
—Eu sou pobre, senhor… não quero incomodar.
—Se realmente podes ajudar a minha filha —disse Afonso, e surpreendeu-se a si próprio com a firmeza— nunca mais serás um incómodo nesta casa.
O portão abriu-se. O carro entrou devagar. Tiago olhava para os jardins como se fossem um museu: a relva perfeita, a piscina a brilhar, as buganvílias a trepar por uma parede branca. Um mundo alheio.
Na sala, Mafalda recebeu-os com uma revista de decoração nas mãos e o olhar partido de quem já não acredita em nada.
—Afonso… o que é isto?
—Chama-se Tiago. Diz que pode ajudar a Leonor.
Mafalda soltou uma gargalhada amarga, aquela risada de “já não me dói porque já me doeu tudo”.
—Vais acreditar num miúdo da rua?
Tiago avançou com educação, sacando dos seus calções um pequeno caderno, de capa gasta.
—Senhora… percebo a sua desconfiança. Mas aqui tenho as receitas da minha avó. Se quiser ver.
Mafalda abriu o caderno. Desenhos de plantas, nomes estranhos, instruções sobre pontos nos pés e nos tornozelos. Havia algo… demasiado pormenorizado para ser invenção.
—Onde está a tua avó?
A cara de Tiago entristeceu de repente.
—Ela partiu há três meses. Adoeceu. Antes de ir, fez-me prometer que ia continuar a ajudar. Disse que senão, o conhecimento morreria comigo.
Mafalda sentiu um puxão no coração. Um miúdo sozinho. Um miúdo com um caderno por herança.
—Vamos tentar —disse ela por fim, respirando fundo—. Mas com condições. Aqui, no quarto da Leonor. Eu presente. E ao primeiro sinal estranho, para-se.
Tiago anuiu, aliviado.
—Sim, senhora.
Nesse mesmo dia, com uma bacia, água morna, alecrim e hortelã do jardim, começou.
Tiago preparou uma infusão forte e verteu-a na água. O quarto encheu-se de cheiro a campo. Leonor fechou os olhos e suspirou quando os pés tocaram na água.
—Cheira bem… como quando chove.
Tiago massageou com cuidado, pressionando pontos exatos, sem pressa. Mafalda segurou a mão da filha, a tremer. Afonso observava de pé, com os punhos cerrados, pronto a gritar “alto!” por qualquer coisa.
—Sentes alguma coisa, princesa? —perguntou Tiago.
—Como… comichão por dentro.
Mafalda ficou gelada. Afonso deu um passo.
—Tens a certeza?
Leonor anuiu.
—Sim. Sente-se estranho… mas bonito.
Não era um milagre. Não era uma cena de filme. Era algo pequeno, quase invisível. Mas para eles, depois de dois anos de nada, era como ver umaEra como ver uma centelha num quarto sem luz, e Afonso sentiu, pela primeira vez em anos, o peso da noite a levantar-se.