**Capítulo 1: A Chamada que Mudou Tudo**
O telemóvel descartável vibrou no meu peito como se fosse um ataque cardíaco. Estava deitado no chão, três dias numa missão de vigilância num lugar que não posso nomear, a uns trezentos quilómetros a sul da fronteira. O pó aqui sabe a cobre e gasolina velha. Eu não devia atender. O protocolo mandava silêncio absoluto, a não ser que estivéssemos sob fogo direto. Mas este não era o telemóvel por satélite. Era o descartável. O toque estava reservado para uma única coisa: “Emergência – Casa.”
Rastejei para as sombras dos destroços da casa segura, verificando o perímetro uma última vez antes de atender. As minhas mãos tremiam, não por medo do cartel que vigiávamos, mas pelo terror do que poderia estar a acontecer nos subúrbios de Lisboa.
“Inês?”, sussurrei, a voz rouca de desidratação. “Está tudo bem? Houve uma invasão? Preciso de ativar o protocolo?”
“É o Leo”, a voz da minha mulher quebrou. Ela chorava. Não era o choro de medo—já o tinha ouvido antes e sabia lidar com ele. Era diferente. Era raiva, exaustão, desespero. “Rodrigo, tens de vir para casa. Não aguento mais. A escola… vão expulsá-lo.”
O sangue gelou-me nas veias, congelando o suor no pescoço. “Expulsá-lo? Ele está no primeiro ano, Inês. Tem seis anos. O que é que ele poderia ter feito? Bateu em alguém? Levou uma faca?”
“Não”, ela soluçou, a voz presa na garganta. “Ele disse a verdade. E ninguém acreditou nele.”
Tudo começou duas semanas antes. Inês explicou-me entre lágrimas. O trabalho de casa era simples: “Desenha o que os teus pais fazem.” Uma tarefa comum para crianças. A maioria desenhou malas, estetoscópios, carros de bombeiros ou computadores.
O Leo desenhou um homem de farda preta a saltar de um helicóptero. Desenhou um crachá que vira na minha gaveta uma vez. Desenhou uma bandeira. Desenhou os óculos de visão noturna que lhe deixara experimentar antes de sair em missão.
Quando se levantou para apresentar o desenho, a professora Carmo—que se orgulhava de ser “realista” e sem tolerância para fantasias—interrompeu-o. Não elogiou o desenho. Não perguntou pelos detalhes. Perguntou-lhe por que é que desenhava personagens de videojogos em vez da família real.
O Leo, o meu corajoso e teimoso menino, olhou para ela e disse: “Esse é o meu pai. Ele é um Fantasma. Apanha os monstros para que não cheguem a tua casa.”
A turma riu-se. Um miúdo chamado Gonçalo, o tipo de valentão que aprende crueldade com os pais e atinge o auge no ensino básico, gritou que o pai do Leo devia estar na prisão e que por isso nunca aparecia para o buscar. Que por isso o Leo era sempre o último a ficar à espera no passeio.
**Capítulo 2: O Limite**
“Marcaram uma reunião hoje, Rodrigo”, continuou a Inês, a voz a tremer de indignação. “A professora Carmo, a diretora e a psicóloga escolar. Sentaram-me numa daquelas cadeiras de plástico que nos fazem sentir como crianças e disseram-me que o Leo mostrava ‘mecanismos de defesa delirantes’.”
FechO telemóvel caiu-me das mãos, e naquele momento percebi que, por mais missões que cumprisse, nenhuma era tão importante quanto ser o herói que o meu filho já acreditava que eu era.