Hoje, o meu diário ganha uma nova página, escrita com um coração mais leve. Tudo começou de forma inesperada. O filho do milionário cuspira em todas as amas. Em todas. Mas quando a Carolina Mendes, envergando o seu uniforme azul de limpeza, subiu as escadas, ele estendeu os braços, beijou-lhe a face e adormeceu como se tivesse encontrado, pela primeira vez, um verdadeiro colo. Ela só queria o dinheiro para os remédios da mãe, mas naquele instante, sem dar por isso, entrou num mundo onde a ternura era escândalo e amar um bebé podia custar a dignidade.
Os nossos percursos têm-se cruzado de forma inesperada. De onde nos observa hoje? Partilhe a sua história nos comentários. Não, não, não. O grito agudo do Miguel cortou o ar do luxuoso apartamento na Avenida da Liberdade. O menino, com apenas um ano e meio, estava vermelho de tanto chorar, as suas pequenas mãos fechadas a agitarem-se no ar como se lutasse contra o mundo inteiro.
O Eduardo Silva estava ali parado, com o fato de cinquenta mil euros, completamente manchado com o puré de pera que o filho cuspira. O milionário mais temido de Lisboa parecia um homem derrotado. As suas mãos tremiam ligeiramente enquanto observava o herdeiro que rejeitava tudo e todos. “Senhor Silva, não aguento mais”, gritou a Sofia, a ama contratada há apenas uma semana.
Era a oitava em dois meses. Este menino não é normal. Morde, arranha, cospe em mim. Despeço-me. A mulher de quarenta anos, com licenciatura em pedagogia e quinze anos de experiência, atirou o avental ao chão e saiu, batendo com a porta. O som dos seus saltos altos ecoou pelo corredor até desaparecer no elevador.
Eduardo olhou para o filho, que continuava a chorar desesperadamente no berço importado de Itália. O apartamento de quinhentos metros quadrados nunca lhe parecera tão vazio e frio. “Miguel, por favor, o pai está aqui.”, murmurou Eduardo, estendendo as mãos para pegar no menino. Mas Miguel afastou-se, atirando o corpo para trás e aumentando ainda mais o volume do choro. Era sempre assim.
Desde que a Beatriz morrera, há um ano, o menino não aceitava ninguém, nem o pai, nem as amas qualificadas, nem as enfermeiras particulares. Eduardo sentou-se na poltrona de pele ao lado do berço e passou as mãos pelo cabelo grisalho. Tinha cinquenta e dois anos e comandava um império financeiro que movia milhões. Podia comprar empresas inteiras com uma chamada, mas não conseguia acalmar o próprio filho.
“Meu Deus, Beatriz, o que é que eu faço?”, sussurrou, olhando para o retrato da esposa na mesinha de cabeceira. Ele não me aceita. Não aceita ninguém. Está a transformar-se numa criança revoltada e não sei como ajudar. O choro do Miguel diminuiu um pouco, como se tivesse ouvido o desespero na voz do pai. Eduardo aproveitou para se aproximar novamente.
“Sentes falta da mamã, não é, meu filho?” Eduardo tocou delicadamente na mãozinha do bebé. “Eu também sinto. Todos os santos dias sinto a sua falta.” Miguel olhou para o pai com os seus olhinhos verdes cheios de lágrimas. Por um momento, Eduardo pensou que finalmente tinha conseguido uma ligação, mas então o menino começou a chorar de novo, mais alto que antes.
“Senhor Silva.” A voz da governanta, a Dona Isabel, veio da porta. “Desculpe incomodar, mas a empresa de limpeza ligou. Houve um problema com a empregada do turno da manhã. Ela não pode vir hoje.” Eduardo suspirou. E agora? A casa está uma confusão por causa do problema com a ama. Eles vão mandar alguém do turno da noite para cobrir, uma rapariga chamada Carolina.
“Ela já trabalha aqui há alguns meses, mas sempre de madrugada, então o senhor nunca a viu.” Tanto faz. Eduardo respondeu exausto. “Só peça-lhe que não faça barulho. Se por milagre o Miguel conseguir dormir, não quero que nada o acorde.” A Dona Isabel saiu e Eduardo voltou a sua atenção para o filho. O menino estava a ficar rouco de tanto chorar, mas não parava.
Era como se toda a dor que sentia por ter perdido a mãe saísse sob a forma de grito. “O pai não sabe que fazer, Miguel.” Eduardo admitiu, sentindo os próprios olhos marejarem. “Tentei de tudo. As melhores amas, os melhores médicos, os melhores brinquedos, mas nada resulta. Não queres nada do que eu ofereço.” Eduardo pegou no telemóvel e marcou o número da sua assistente.
“Sofia, preciso que cancele todas as reuniões da próxima semana. Vou ficar em casa até resolver esta situação com o meu filho.” “Mas, senhor, tem reunião com os investidores alemães.” “Cancela tudo”, gritou Eduardo, perdendo a paciência. “O meu filho é mais importante que qualquer negócio.” Ele desligou o telefone e voltou para perto do berço.
Miguel estava a começar a cansar-se, mas ainda choramingava baixinho. Eduardo tentou mais uma vez pegar no menino ao colo, mas Miguel encolheu-se e começou a chorar de novo. “Está bem, meu filho. O pai vai ficar aqui ao teu lado até te acalmares.” Eduardo disse, sentando-se no chão ao lado do berço. “Não vou sair daqui, prometo.” E ali ficou o homem mais poderoso de Lisboa, sentado no chão de mármore da cobertura, a ouvir o choro inconsolável do filho e a sentir-se o pai mais fracassado do mundo.
Carolina Mendes estava no elevador de serviço, a subir para o último andar do edifício mais luxuoso da Avenida da Liberdade. Segurava firmemente o carrinho de limpeza e tentava não pensar em como estava cansada. Dormira apenas três horas depois de passar a madrugada no hospital com a mãe. “Dalila, minha filha, precisa de descansar um pouco”, dissera a enfermeira mais cedo. “A sua mãe está estável. Vá para casa.” Mas Carolina não tinha casa para onde ir. Tinha trabalho para fazer. Sempre tinha trabalho para fazer. Era assim desde que descobriram a doença rara da mãe, há seis meses. Cada cêntimo extra que conseguia ia para os medicamentos experimentais que o plano de saúde não cobria. O elevador parou no último andar e Carolina saiu com o seu carrinho.
Conhecia bem aquele corredor de serviço. Trabalhava ali há quatro meses, sempre de madrugada, quando os moradores estavam a dormir. Era um emprego silencioso e solitário, exatamente como ela gostava. Mas hoje algo estava diferente. Havia muito barulho vindo do apartamento do Senhor Silva, gritos de criança e vozes adultas alteradas.
Carolina estava a guardar os produtos de limpeza no armário quando ouviu passos apressados pelo corredor principal. Uma mulher bem vestida, de saltos altos, passou a correr em direção ao elevador social. “Eu avisei que não ia resultar.” A mulher falava ao telefone, claramente irritada. “Aquela criança é impossível. Nenhuma ama consegue aguentar. O menino é um caso perdido.” A mulher entrou no elevador e desapareceu. Carolina ficou ali parada, a pensar no que tinha ouvido. Sabia que o Sr. Silva era viúvo e tinha um filho pequeno. A Dona Isabel, a governanta, já tinha comentado as dificuldades que ele enfrentava para cuidar da criança sozinho. O choro do bebé continuava a vir do apartamento.
Era um som que partia o coração, desesperado e inconsolável. Carolina conhecia bem este tipo de choro. Era o som que ela própria fazia em criança, depois de o pai ter partido e a deixado a ela e à mãe sozinE, para surpresa de todos, naquele silêncio que se seguiu, o pequeno Miguel estendeu os braços não para a nova ama, mas para Carolina, e pela primeira vez em meses, adormeceu profundamente, em paz.