Diana Moraes ouviu-os antes de os ver. Noventa e sete motores a roncar em uníssono pela Rua do Comércio, em formação cerrada, a avançar diretos à sua pequena pastelaria. A pacata vila de Monte Verde parou. Grupos de motociclistas fechados não apareciam assim no interior português. Não desta maneira. Nem em noventa e sete.
As mãos de Diana tremiam enquanto fechava a caixa registadora. Vinte e um anos antes, alimentara um adolescente esfomeado, com um olho negro e uma jaqueta de cabedal que parecia roubada. Der-lhe-ia pão, não fizera perguntas e dissera-lhe que ele importava. Depois, ele desaparecera.
Agora, o motociclista da frente tirava o capacete. E quando Diana viu o seu rosto, todos aqueles anos desvaneceram-se em nada. O que ela fizera por um rapaz destroçado estava prestes a mudar tudo.
O ruído começou baixo, como um trovão distante a rolar pelas colinas da Beira Alta. Depois, cresceu, tornou-se mais alto, mais próximo, um som que não pertencia a Monte Verde numa manhã de terça-feira. Diana Moraes, aos 64 anos, reabastecia a vitrine de pastéis de nata quando Dona Palmira, a sua cliente mais antiga e maior fonte de fofocas da vila, entrou na pastelaria de olhos arregalados e rosto pálido.
— Diana, tens de ver isto.
A pasteleira limpou as mãos no avental, uma peça outrora branca e agora marcada por uma vida dedicada à farinha e ao açúcar, e seguiu a cliente até à janela. O que viu gelou-lhe o sangue.
Motas. Dezenas delas. Não, não dezenas. Contou três filas, cada uma a estender-se por toda a extensão da Rua do Comércio. Noventa e sete motas a avançar em direção à sua pastelaria em formação perfeita. O cromo brilhava sob o sol da manhã. Os pilotos, vestidos de cabedal, sentavam-se erectos nas suas selas. Cada um usava o mesmo emblema nas costas: uma caveira alada, a sorrir um sorriso eterno, com as palavras “Anjos da Estrada MC” arqueadas por cima.
Isto não acontecia em vilas como Monte Verde. População: 2.400 almas. Um semáforo, três igrejas, um coreto na praça principal. Um sítio onde todos se conheciam, onde a notícia do dia geralmente era quem ganhara o concurso de doces na festa do patrono.
As motas pararam em frente às “Tentações da Diana” e os motores calaram-se. O súbito silêncio que se instalou pareceu mais pesado e ameaçador do que o ruído. As mãos de Diana encontraram a borda do balcão de madeira e agarraram-na com força. A gaveta do caixa estava aberta; estava a meio da contagem das receitas do dia anterior.
Pela montra, observou o piloto da frente a desmontar. Alto, talvez um metro e noventa, rosto marcado pelo tempo, por volta dos 40. Uma cicatriz descia da sua têmpora esquerda até ao maxilar. Usava cabedal preto da cabeça aos pés, o seu colete coberto de emblemas que ela não entendia. Quando tirou o capacete, um cabelo escuro e comprido caiu sobre os seus ombros. Olhou directamente para a pastelaria, directamente para ela, e começou a caminhar em direção à porta. Atrás dele, outros 96 homens fizeram o mesmo.
A mente de Diana disparou. O que teria feito? A quem teria ofendido? Morava naquela vila há 43 anos, gerira a pastelaria há 25. Pagava os seus impostos, ia à missa aos domingos, ajudava os seus vizinhos. Não era o tipo de pessoa que atraía este tipo de atenção.
Mas depois, algo cintilou no fundo da sua memória. Um Inverno diferente, 21 anos atrás. Um rapaz com um olho negro e o estômago vazio. Uma jaqueta de cabedal roubada que parecia exactamente com as que aqueles homens usavam. Der-lhe-ia pão. Der-lhe-ia abrigo. Disse-lhe algo de que já não se lembrava bem, algo que o fizera chorar. Depois, ele desaparecera sem deixar rasto, e ela passara anos a interrogar-se se ele sobrevivera.
O piloto líder chegou à maçaneta da porta. O coração de Diana batia com força contra as costelas. Cada cliente na pastelaria calara-se. Dona Palmira agarrou a sua bolsa como se se preparasse para fugir. O velho Senhor Osvaldo, que lia o seu jornal no canto todas as manhãs de terça-feira nos últimos 30 anos, dobrou-o lentamente e pousou-o na mesa.
A porta abriu-se. O homem entrou. De perto, era ainda maior, mais largo. Mas os seus olhos… os seus olhos não eram duros. Eram perscrutadores, a olharem para ela como se estivesse a tentar resolver um quebra-cabeças. Tirou os óculos de sol. A sua voz era profunda, rouca, mas não hostil.
— Diana Moraes?
Ela anuiu. A sua garganta fechara-se. Nenhuma palavra saía.
Ele olhou em redor da pastelaria lentamente, absorvendo cada detalhe. Os pastéis de nata dourados a arrefecer em grelhas de aço. As fotografias na parede, fotos desbotadas da inauguração, do seu falecido marido Túlio, de pé, orgulhoso, em frente à fachada. O menu no quadro, escrito com a sua caligrafia cuidada. As cortinas axadrezadas vermelhas e brancas que ela própria costurara. O cheiro a fermento, açúcar e café que definia aquele lugar há um quarto de século.
— Lembra-se de ter alimentado um rapaz em 2003? — Os seus olhos voltaram ao rosto dela. — Dezassete anos, todo desfeito. Sem ter para onde ir.
A mão de Diana voou para o peito. A memória que cintilava tornou-se mais nítida, mais clara. O rapaz, a frente fria de Janeiro, a pancada na porta antes do amanhecer.
— Deu-lhe pão — continuou o homem, a sua voz a suavizar. — Deu-lhe um sítio para dormir. Disse-lhe algo que ele nunca esqueceu.
Atrás dele, mais homens entravam na pastelaria. Moviam-se silenciosamente, respeitosamente, mas encheram o pequeno espaço até mal haver lugar para respirar. Cabedal e jeans, e o cheiro a poeira da estrada. Tatuagens a cobrir braços, pescoços, mãos. Emblemas a declarar secções de cidades onde ela nunca estivera. Rostos que tinham visto a vida dura, anos difíceis, escolhas difíceis. Mas nenhum deles parecia ameaçador. Pareciam homens à espera de algo importante.
As mãos de Diana tremiam agora. Pressionou-as contra o balcão para parar o tremor.
— Eu lembro-me — sussurrou ela.
O rosto do homem mudou. Algo na sua expressão abriu-se.
— Bom — disse ele. — Porque aquele rapaz também nunca se esqueceu de si.
Vinte e um anos antes, Diana Moraes era uma mulher diferente. Mais nova, sim, 43 em vez de 64. Mas, mais do que isso, estava oca de luto, esfolada pela perda, mal se aguentando de pé com rotinas, responsabilidades e a teimosa recusa em desistir do sonho do seu falecido marido.
Túlio Moraes morrera em Novembro de 2002. Acidente de construção, o colapso de um andaime numa obra no Porto. Tinha 45 anos. Estavam casados há 22. Morrera instantaneamente, disseram os médicos. Não sofrera. Como se isso devesse tornar as coisas melhores.
A pastelaria fora ideia dele. Túlio trabalhara na construção civil toda a sua vida adulta, mas falava sempre em abrir um negóEla sorriu, sentindo o peso do luto finalmente a transformar-se em leveza, pronta para honrar o passado construindo futuros.