O Palácio de Vidro e o Amor Perdido

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**Diário Pessoal**

A mão da menina era uma âncora quente. Beatriz, quatro anos, cabelos encaracolados e uma inocência brutal. Segurava-a sem pedir licença. Pedro, o homem da casa de vidro, o CEO que movia o mercado, tensionava-se com aquele contacto. Era uma faca de suavidade contra a sua armadura de três peças.

“Não me tens a mim,” disse, voz seca, tentando criar distância. “Só te estou a levar à escola desta vez.”

Beatriz ergueu os olhos grandes. Não havia lágrimas, apenas uma verdade simples que trespassava. “Por que me mentes, Pedro? Vais ficar comigo amanhã.”

Ele olhou para ela. Um milionário, dono da estratégia, desarmado por uma criança que só queria um companheiro de caminho.

“Vamos ver,” murmurou. A mentira era mais fácil que a promessa.

🔥 O Despertar
O estrondo não foi um trovão. Foi metal, vidro e um grito cortado.

Pedro largou o relatório financeiro. Correu. Não pensou na reunião de direção nem na imagem da empresa. Só no autocolante de borboleta no vidro traseiro do Fiat branco. Viu-o. Espalmado. Dobrado.

Chegou antes das sirenes. O ar cheirava a gasolina e pânico. Carolina Silva, a mãe de Beatriz, estava inconsciente, a cabeça a sangrar contra o airbag.

“Senhora, ouve-me?!” Gritou, a adrenalina a queimar-lhe a garganta. Forçou a porta, o metal a guinchar. Encontrou-a. Pulso fraco.

Carolina abriu os olhos. Só por um segundo. Sussurrou, débil, cortada. “Beatriz… Dona Martins.”

“Não se preocupe,” disse Pedro, segurando-lhe a mão. Era uma promessa que não poderia quebrar. “Eu trato disto.”

A sirene era um monstro azul e vermelho. As pessoas murmuravam, filmavam. Ele não se abalou. Viu-a subir para a ambulância, depois correu na direção oposta. Tinha um dever.

🥶 A Noite no Abismo
Pedro entrou na casa de vidro com Beatriz adormecida nos braços.

A menina chorara no hospital. Um choro pequeno, contido, que lhe partira algo no peito. Agora dormia, o seu corpinho de quatro anos encaixado perfeitamente contra ele, a respiração suave no seu pescoço.

Sentou-se no sofá de couro branco, na sala transparente, naquela fortaleza desenhada para repelir o mundo. Beatriz não a repelira. Suavizara-a.

Nunca carregara uma criança. Nunca permitira que alguém precisasse dele.

A Casa de Vidro, naquela noite, não foi uma prisão. Foi um refúgio.

Passou a noite assim. Acordado. Sentindo o pequeno peso. O peso de uma responsabilidade que não vinha com um contrato, mas que parecia mais vinculativa do que qualquer acordo de milhões.

Às seis da manhã, no hospital. Carolina acordou.

Viu-o. Ele dormia. A menina aconchegada no seu peito, o seu braço musculoso a envolvê-la com uma ternura inconsciente.

Carolina não viu o CEO milionário. Viu um homem que tinha renunciado à sua noite pela sua filha.

“Obrigada por cuidar dela.”

Pedro abriu os olhos. Alívio puro. “Não tem que me agradecer.”

“Sim, tenho.” Carolina olhou-o nos olhos. “Nem toda a gente faria o que você fez ontem à noite.”

Ele não conseguiu responder. Naquele momento, no hospital, com o sol da manhã a entrar, eram algo. Eram uma unidade. Improváveis. Partidos. Mas juntos.

🌪️ A Traição Transparente
Duas semanas. A nova rotina. Pedro levava Beatriz à escola. Um ritual. Um prazer silencioso.

Até terça-feira.

“CEO Milionário e a Sua Família Secreta.”

A foto no tablet mostrava-o a ele e a Beatriz, de mãos dadas, a caminhar. O título, uma adaga.

“A imagem da empresa está em risco!” gritou Manuel Tavares na reunião de emergência.

“Distanciate publicamente. Diz que não tens relação com essas pessoas,” ordenaram-lhe. “Ou o conselho será forçado a reconsiderar a tua posição como CEO.”

A empresa ou a âncora quente na sua mão. A estratégia ou a menina que queria ser a melhor leitora do mundo.

Poder contra coração.

Naquela noite, Carolina encontrou a carta debaixo da porta.

“Pela vossa segurança e pela de Beatriz, acho melhor não nos vermos mais. Desejo-vos tudo de bom.”

Pedro.

Carolina sentiu o mundo a desabar sobre ela. Ele escolhera o império. Escolhera o medo da vulnerabilidade.

No dia seguinte, Beatriz perguntou. “Fiz algo de errado, mãe? Por que é que o Pedro não veio?”

“Não, minha querida.” Carolina forçou um sorriso. “Os adultos às vezes complicam as coisas.”

🏰 O Eco do Silêncio
Uma semana de silêncio. A Casa de Vidro era novamente um túmulo transparente.

Pedro olhou para a mochila de Beatriz. Rosa. Suja. Um coelhinho sem um olho cosido atrás. Tinha-a esquecido no seu carro. A âncora.

Dissera as palavras que o conselho queria. “Não tenho qualquer relação pessoal ou familiar com as pessoas mencionadas.”

Cinzas na boca.

Serviu-se café. Ouviu vozes. Olhou pela janela.

Beatriz.

Brincava sozinha no parque. Empurrava um carrinho. Construía castelos imaginários. A mesma solidão que ele conhecera. Isolada pela sua culpa.

Escondeu-se atrás da cortina, mas não rápido o suficiente.

Ela ergueu os olhos. Diretamente para a sua janela. Viu-o. O homem na sua gaiola de vidro.

Beatriz não gritou nem fugiu. Apenas levantou-se, apertou o pulso contra o peito e olhou para a casa com pena. Uma pena profunda, de criança que entende a tristeza.

Pedro sentiu-se a sufocar no ar da sua própria casa. Era demasiado silenciosa. Demasiado perfeita. Demasiado vazia.

☀️ A Rendição
A campainha. Não uma pancada. Um toque firme.

Pedro não se deu ao trabalho de olhar. Sabia.

Abriu a porta.

Não era Beatriz. Era Carolina. Sozinha. Rosto duro, olhos fixos.

“Trouxe-te o correio,” disse, com uma voz que era aço suave. Estendeu-lhe a carta de despedida de Pedro. Deixou-a cair na sua mão. “Isto não é o que um homem responsável faz, Pedro. Isto é cobardia.”

Ele não se mexeu. “Fiz o que tinha de fazer. Pela segurança de vocês. Os jornalistas…”

“Os jornalistas são um incómodo,” interrompeu Carolina, avançando um passo. A voz era baixa, mas cada palavra um golpe. “O silêncio, a solidão e a mentira… isso sim, é um perigo.”

Aproximou-se um pouco mais.

“A minha filha viu-te, Pedro. Viu-te escondido. E sabe que estás sozinho. Perguntou-me: ‘Mãe, o Pedro vai ficar sempre triste?’”

O ar na casa de vidro ficou pesado.

Carolina detinha o poder agora. “Ela não precisa do teu dinheiro, nem do teu apelido, nem da tua proteção. Precisa apenas que não lhe mintas. Precisa do seu companheiro de caminho.”

Apontou para a mochila na sala, o coelhinho coxo.

“Vim buscar isto. E vim dizer-te que já tive um homem que me desiludiu. Não vou permitir que desiludam a minha filha outra vez. SPedro olhou para a mochila, depois para Carolina, e com um suspiro que libertou anos de peso, disse: “Vamos buscá-la juntos, ela vai precisar da mochila amanhã na escola.”

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