O mistério dos travesseiros que salvou o filho do milionário

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Leonor Mendes subiu a grandiosa escadaria da residência pela primeira vez, arrastando uma mala compacta e com o coração cheio de esperança cautelosa. Aos 26 anos, recém-formada em enfermagem pediátrica, tinha acabado de ser contratada como cuidadora pessoal do pequeno Rodrigo Ventura, de 4 anos, filho do empresário multimilionário Afonso Ventura, conhecido como “O Rei do Aço”.

A propriedade era deslumbrante: três andares de arquitetura neoclássica rodeados por jardins tão vastos e bem cuidados que pareciam um parque botânico, com uma piscina tão grande que poderia ser confundida com um lago. Mas o que mais impressionou Leonor foi o silêncio—pesado, quase sobrenatural. Uma casa daquele tamanho, com tantos recursos, devia transbordar vida, movimento, risos infantis. Em vez disso, havia apenas um silêncio denso, uma atmosfera carregada de uma tristeza antiga.

—Deve ser a nova cuidadora.

Uma voz firme e autoritária ecoou no hall de mármore. Era Artur Barros, o mordomo da família há quase vinte anos, um homem de cerca de 55 anos com postura militar impecável e um olhar severo que a escrutinou dos pés à cabeça.

—Sou o Artur. Espero que tenha lido e memorizado todas as instruções que enviamos.
—Sim, senhor, li várias vezes —respondeu Leonor, recordando o documento detalhado que recebera. As regras pareciam mais adequadas a uma unidade de isolamento do que a uma casa.

O menino, Rodrigo, supostamente estava gravemente doente, e qualquer esforço físico era estritamente proibido. Os medicamentos deviam ser administrados com precisão de segundos, não de minutos. Não podia receber visitas, nem sair da mansão em circunstância alguma. E havia uma regra estranha: limitar as interações verbais ao mínimo necessário para os seus cuidados.

—O pequeno Rodrigo está no seu quarto, terceiro andar, ala oeste —disse Artur, sem o menor traço de calor. —Siga as regras à risca. Qualquer desvio será comunicado ao Sr. Ventura e o seu contrato será terminado. Valorizamos discrição e obediência. Teremos uma relação profissional se compreender isso.

Leonor anuiu, sentindo um nó no estômago. Subiu a escada larga, com o coração a bater forte. Este era o seu primeiro trabalho importante desde que se formara. Tinha especializado-se em enfermagem pediátrica e cuidados intensivos por uma razão profundamente pessoal: perdera um irmão mais novo quando era adolescente, vítima de uma doença que os médicos demoraram demasiado a diagnosticar.

Naquele dia, jurara que nunca mais deixaria uma criança sofrer à sua frente sem fazer tudo o que estivesse ao seu alcance.

A porta do quarto de Rodrigo era de madeira maciça, mas decorada com autocolantes de super-heróis e foguetões, embora parecessem desbotados, como se lá estivessem há anos sem que ninguém se preocupasse em substituí-los. Bateu suavemente.

—Rodrigo, sou eu, vim cuidar de ti.

Silêncio.

Abriu a porta devagar e deparou-se com uma cena que lhe partiu o coração. No meio de um quarto enorme, digno de um hotel de luxo, havia uma cama king-size rodeada de equipamento médico que mais parecia um cubículo de hospital do que um quarto de criança.

E no centro daquela cama, quase perdido entre uma montanha de almofadas, estava uma criança. Era pequeno e magro, com um ar frágil que contrastava violentamente com os lençóis de algodão egípcio. Rodrigo tinha cabelo castanho desalinhado, olhos verdes enormes e uma palidez doentia. O ar no quarto cheirava a uma mistura de antissético e confinamento.

—Olá, Rodrigo. Sou a Leonor.

O menino olhou para ela com uma desconfiança que a surpreendeu. Não era a timidez habitual de uma criança—era a resignação de um adulto.

—Também vais embora?

A pergunta, tão simples e direta, estava carregada de tanta tristeza que Leonor teve de engolir em seco para conter as lágrimas.

—Porque haveria de ir embora?
—Todas as tias vão-se embora. O pai diz que é porque eu estou muito doente.

Leonor aproximou-se devagar, como quem se aproxima de um animal assustado, e sentou-se na borda da cama, mantendo alguma distância.

—Bem, eu sou bastante teimosa. Não saio assim tão fácil. E além disso, quero saber que doença tens.

Rodrigo, sem sair do seu ninho de almofadas, apontou para uma mesinha de aço inoxidável ao lado da cama.

—Muitas doenças. Tomo remédios o dia todo.

Leonor levantou-se e foi até à mesa. Congelou. Era como uma farmácia inteira. Contou pelo menos 20 frascos diferentes: antibióticos de largo espetro, anti-inflamatórios poderosos, doses altíssimas de vitaminas, todo o tipo de suplementos, xaropes para a tosse, gotas descongestionantes…

—Há quanto tempo estás doente? —perguntou, pegando num dos frascos.

Rodrigo tentou contar nos dedos, mas desistiu.

—Sempre. A mãe morreu quando eu nasci. O pai diz que foi porque eu fiquei doente na barriga dela.

Mais uma vez, pensou Leonor, uma criança a carregar uma culpa que não é sua.

—Não tens culpa de a tua mãe ter ido para o céu —disse Leonor com uma suavidade que contrastava com o frio do quarto. —Às vezes, os adultos estão demasiado tristes para explicar as coisas como deve ser.
—Conheces o meu pai?
—Ainda não. Mas tenho muita vontade de o conhecer.

Rodrigo encolheu-se entre as almofadas. Leonor reparou nelas. Havia pelo menos oito ou nove, enormes, todas imaculadamente brancas.

—Porque tantas almofadas? —perguntou com curiosidade profissional.
—O Dr. Alberto diz que eu preciso delas, que tenho de ficar deitado o tempo todo. As almofadas ajudam-me a respirar.

Leonor franziu a testa. Uma criança de quatro anos não devia ficar deitada o tempo todo, a menos que estivesse em estado crítico. Embora pálido, a respiração de Rodrigo em repouso parecia normal.

—Dói-te quando respiras?
—Às vezes, sobretudo à noite. E canso-me. E a andar… não consigo andar muito, fico cansado.

Leonor observou-o com olhos clínicos. Ele estava claramente enfraquecido, mas algo não batia certo. Tinha experiência na unidade pediátrica de um hospital. Conhecia fibrose quística, defeitos cardíacos congénitos graves e leucemias. Rodrigo não apresentava sinais claros de nenhuma patologia específica que ela conseguisse identificar.

—Rodrigo, quando foi a última vez que brincaste no jardim?

Os olhos do menino iluminaram-se por um instante, antes de se apagarem novamente.

—Jardim… não posso ir ao jardim. É perigoso. Perigoso. O Dr. Alberto diz que posso ficar ainda mais doente.

Leonor estava cada vez mais intrigada. Isolar uma criança assim não era protocolo médico padrão, nem mesmo em casos de imunodeficiência grave.

—E se lermos uma história? Tenho um livro na minha mala sobre um dragão que não queria soprar fogo.

Os olhos de Rodrigo arregalaram-se de surpresa.

—Posso? Não me faz mal?
—Claro que não, Rodrigo. Ler histórias cura o tédio, que é uma doença terrível.

Quando começou a ler, notou algo estranho: a criança parecia fascinada pela sua voz, como se não estivesse habituada a simples interações humanas.

Meia—Leonor sorriu ao ver Rodrigo finalmente livre e feliz, sabendo que a verdadeira cura sempre esteve no amor e na coragem de questionar o que parecia impossível.

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