Ela desceu as escadas tão depressa que quase falhou o último degrau, depois saltou direto para o relvado descalça, gritando como se tivesse visto o diabo. Todos pensaram que ela estava maluca—uma louca varrida, a rir e a chorar ao mesmo tempo, sem qualquer vergonha ou controle. As vizinhas pararam de varrer as varandas, os velhos na esplanada do café ergueram as sobrancelhas, e até o gato do senhor Albuquerque fugiu para debaixo do carro. Mas ela nem ligou, só esticou os braços para o céu e rodopiou na relva molhada, como se fosse a única pessoa no mundo a compreender a beleza daquele instante.
E foi ali, entre o espanto dos outros e a sua própria loucura, que ela se lembrou do que era sentir-se viva.
Anos depois, quando contavam a história na mercearia, ainda diziam: “Foi naquele dia que a Adelaide perdeu a cabeça de vez.” Mas ela sabia—ali, finalmente, a tinha encontrado.