Mariano piscou várias vezes, achando que estava vendo coisas. A garotinha, magrinha, descalça, com um vestido surrado, segurava a mão da bebê com uma delicadeza que a pequena, depois de três meses sem mexer as pernas, levantou da cadeira pela primeira vez. O parque ficou em silêncio, o pai ficou parado como estátua.
A criança tremia, mas ficou de pé. E enquanto Mariano chorava sem entender nada, a desconhecida sorriu e sussurrou: “Eu disse que ela ia conseguir.” O que ele não sabia é que aquele encontro no Parque da Gulbenkian ia mudar sua vida para sempre.
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Nós damos voz a lembranças esquecidas, sabedoria que nunca teve espaço. Vou contar esta história desde o início. Mariano Rodrigues era daqueles tipos que todo mundo olha e pensa: “Esse homem tem tudo.” Bilionário, dono de uma das maiores empresas de tecnologia de Portugal, casado com Beatriz, uma neurologista brilhante.
Mas se olhassem nos olhos dele naquela manhã de setembro, veriam só desespero. Nos braços, segurava Lara, sua filha de 4 anos, cujo sorriso iluminava qualquer sala. Mas Lara não mexia as perninhas há três meses. Uma condição rara tirou-lhe a capacidade de andar, de correr, de ser criança.
“Papá, porque é que vamos outra vez ao hospital?”, perguntou Lara com aquela voz que partia o coração de Mariano em mil pedaços. “Só uma consultazinha, amor. Depois comemos gelado, tá bom?” Mentira. Sabia que não ia haver gelado. Ia haver mais exames, mais médicos a abanar a cabeça, mais olhares de pena. Beatriz já tinha ido a 23 especialistas.
23 vezes ouviram a mesma coisa: “Lamento, mas é irreversível.”
Enquanto empurrava a cadeira de rodas de Lara pelo Parque Eduardo VII, Mariano sentiu as lágrimas queimarem. Como é que um homem que construiu um império do zero, que nunca aceitou um “não” como resposta, podia render-se ao destino?
Foi então que ela apareceu.
Uma menina pequena, descalça, roupa puída, cabelo emaranhado, devia ter uns 7 ou 8 anos. Aproximou-se devagar, olhando fixamente para Lara.
“Senhor, posso dizer uma coisa?”
Mariano já ia mandá-la embora. Lisboa está cheia de crianças a pedir, mas havia algo no olhar dela que o fez parar. Uma seriedade estranha. “O que é, miúda?”
“A sua bebê, ela não mexe as perninhas, pois não?” O coração de Mariano gelou. “Como é que sabes?”
“Eu sei coisas. A minha avó ensinou-me antes de ir para o céu. Ela era benzedeira lá nos lados de Évora.”
A menina agachou-se à frente de Lara. “Posso ver a tua mãozinha?” Lara, sempre curiosa, estendeu a mão. A menina tocou-lhe nos dedinhos, nos pulsos, passou a mão pelos bracinhos e fechou os olhos.
“A energia dela está toda presa aqui.” Apontou para a base da coluna de Lara. “É como um rio seco, mas dá para fazê-lo correr de novo.”
Mariano sentiu um misto de esperança e descrença. “Tu és médica? Fisioterapeuta?”
A menina riu, mas era um riso triste. “Não, senhor, eu nem sei ler direito. Mas a minha avó curava gente. Ensinou-me desde pequenina. Dizia que os antigos sabiam coisas que os médicos esqueceram.”
“Como te chamas?”
“Matilde, senhor. Matilde Lopes.”
Algo naquele momento mudou tudo. Talvez fosse o desespero. Talvez fosse a fé que Mariano nem sabia que ainda tinha. Olhou para Lara, que sorria para Matilde como não sorria há meses.
“Matilde, aceitas tentar ajudar a minha filha?”
Beatriz achou que o marido tinha enlouquecido de vez.
“Mariano, pelo amor de Deus, uma menina da rua que diz fazer benzimentos? Estás a brincar?”
Estavam na sala da mansão deles em Cascais. Lara dormia no quarto ao lado, Matilde sentada timidamente no sofá mais caro que já vira na vida.
“Beatriz, ouve o que ela tem a dizer. Se não fizer sentido, mando-a embora já.”
Beatriz cruzou os braços, naquela postura de médica cética que Mariano conhecia bem.
“Fala, menina.”
Matilde levantou-se, nervosa.
“Doutora, a minha avó dizia que o corpo da gente é como uma orquestra. Quando um instrumento pára, os outros ficam perdidos. A Larinha, o problema dela não está só nas perninhas, está no cérebro, esquecido de mandar as ordens.”
Beatriz arqueou a sobrancelha. A menina estava a descrever plasticidade neural em linguagem simples.
“E como vais fazer o cérebro dela lembrar?”
“Com cheiros fortes, toques diferentes, sons que ela nunca ouviu. Temos de acordar o cérebro dela de um jeito que os remédios não conseguem.”
Beatriz ficou em silêncio. Como neurologista, sabia que estimulação sensorial era usada em reabilitação, mas os médicos disseram que o caso de Lara estava além disso.
“Uma tentativa”, acabou por dizer. “Mas supervisionada. Se eu vir qualquer sinal de piora, acabamos já.”
Matilde sorriu, e naquele sorriso sem dentes havia mais sabedoria do que numa biblioteca inteira.
A primeira sessão foi estranha. Matilde espalhou alecrim pelo quarto de Lara, acendeu um incenso de alfazema, trouxe chocalhos pequenos que faziam um som suave e começou a massajar os pezinhos de Lara com um óleo que ela mesma preparara, cheirando a terra molhada e flores do campo.
“Larinha, fecha os olhinhos. Pensa numa coisa boa. Gelado de morango. Consegues sentir o gosto?”
Lara riu. “Consigo.”
“Agora imagina que estás a correr atrás do carrinho do gelado, as tuas perninhas fortes, a correr, a correr…”
Enquanto falava, Matilde pressionava pontos nos pés, nas pernas, nas coxas. Beatriz observava. Aqueles pontos eram parecidos com os da acupressão. A menina estava a fazer terapia integrada sem nem saber o nome.
Quinze minutos depois, aconteceu. O dedinho do pé direito de Lara mexeu. Quase imperceptível, mas todos viram. Mariano engasgou. Beatriz arregalou os olhos. Matilde sorriu como se já soubesse.
“Pronto, o riozinho começou a correr.”
Nas semanas seguintes, as sessões viraram rotina. Matilde ia todos os dias à mansão, e Mariano insistiu que ficasse num quarto de hóspedes, mas ela, com medo de estragar tudo, preferia voltar para o centro de acolhimento.
A evolução de Lara era assustadora. Na segunda semana, já mexia todos os dedinhos. Na terceira, flexionava o joelho. Na quarta, Beatriz mediu a atividade elétrica nos músculos parados e murmurou: “Isto não devia ser possível.”
Matilde alternava técnicas. Um dia punha fado de Amália a tocar enquanto massajava. Outro, fazia Lara sentir texturas – algodão, lixa, gelo. Contava histórias da sua avó Joaquina, que curava gente em Évora com sabedoria passada de geração em geração.
“A avó Joaquina dizia que a gente cura com as mãos, mas também com o coração. Temos de acreditar, senão não funciona.”
Mariano começou a acreditar quando, no fim do segundo mês, Lara o chamou.
“Papá! Olha!”
Subiu as escadas a correr. Lara estava sentada na cama,Mexendo as perninhas para cima e para baixo, rindo como se nunca tivesse deixado de andar, e naquele momento, sob o olhar emocionado da família e do céu de Lisboa, Mariano percebeu que os verdadeiros milagres não vêm de grandes fortunas, mas das pequenas mãos que a vida coloca no nosso caminho.