**Diário Pessoal**
A primeira coisa que as pessoas notavam sobre a Leonor não era a cadeira de rodas.
Era o seu sorriso.
Radiante, teimoso, deslocado para uma menina de nove anos que não dera um único passo desde os seis.
Ela estava sentada perto da calçada, num pequeno jardim no centro de Lisboa, o sol da tarde desenhando sombras compridas no asfalto.
As pernas descansavam imóveis sob um cobertor cor-de-rosa, enquanto as mãos—pequenas e inquietas—agarravam os apoios da cadeira.
Observava as crianças a correrem, os ténis a baterem no chão, risadas que surgiam e desapareciam como pássaros.
Ao lado dela, estava o pai, Diogo Silva.
Diogo não sorria.
Estava de braços cruzados, o maxilar tenso, os olhos a percorrer a multidão como fazem os homens que aprenderam que o mundo não dá avisos antes de nos magoar.
Tinha trinta e seis anos, ombros largos, vestido com cuidado—o tipo de homem que parecia ter a vida sob controle, mesmo quando tudo dentro dele se sustentava por nervos e noites sem dormir.
Era a rotina deles.
Todos os domingos à tarde.
No mesmo lugar.
No mesmo jardim.
A Leonor gostava de observar as pessoas. O Diogo gostava de fingir que estava bem.
Já lá estavam há quinze minutos quando ela reparou no rapaz.
Primeiro, estava do outro lado da rua, meio escondido perto de um banco de autocarro. Devia ter dez, talvez onze anos. As roupas pendiam-lhe no corpo magro—largas, velhas, rasgadas.
Os joelhos das calças estavam abertos, o tecido escuro de sujidade. Os sapatos não combinavam, e um deles estava preso com fita isoladora.
Não estava a pedir.
Apenas… a observar.
Leonor inclinou-se um pouco na cadeira. “Pai,” sussurrou.
Diogo seguiu o olhar dela e sentiu os ombros enrijecerem.
O rapaz hesitou, depois atravessou a rua devagar. Cada passo era cauteloso, como se tivesse aprendido que movimentos bruscos assustam os adultos. Quando se aproximou, Diogo viu-lhe o rosto com clareza—maçãs do rosto salientes, olhos cansados, pele marcada pelo pó e pelo sol.
Um miúdo pedinte, pensou Diogo.
Ótimo.
O rapaz parou a poucos passos.
De perto, a Leonor notou algo estranho. Ele não olhava para as suas pernas. A maioria das pessoas fazia isso. Alguns tentavam disfarçar, o que era pior. Este rapaz não fazia nenhum dos dois.
Estava a olhar para o seu rosto.
“Olá,” disse Leonor, baixinho, antes que o pai falasse.
O rapaz engoliu em seco. “Olá.”
Diogo posicionou-se entre os dois. “Não temos dinheiro,” disse, firme. “Segue o teu caminho.”
O rapaz abanou a cabeça. “Não estou a pedir dinheiro.”
Isso soou como alarme na cabeça de Diogo.
“Então o que queres?” perguntou ele, com aspereza.
O rapaz olhou para a Leonor. A voz baixou ainda mais, como se temesse que alguém o ouvisse. “Eu só… acho que posso ajudá-la.”
Diogo soltou uma risada seca. “Ajudá-la como?”
O rapaz deu mais um passo.
Foi então que Diogo o empurrou.
Não com força suficiente para o derrubar, mas o suficiente para deixar a mensagem clara. O rapaz recuou, segurando-se antes de cair.
“Disse para te afastares da minha filha,” rosnou Diogo. “Não tens o direito de brincar com ela.”
Pessoas viraram-se a olhar. Uma mulher abrandou o passo. Um homem parou de apertar os atacadores. As mãos da Leonor apertaram os apoios da cadeira.
“Pai, por favor—” começou ela.
O rapaz endireitou-se, limpando a poeira da manga. Não parecia zangado. Se alguma coisa, parecia triste.
“Posso fazê-la andar outra vez,” disse.
As palavras caíram como um prato partido.
Para a Leonor, o barulho da rua desapareceu. Por um segundo, só ouviu o próprio coração.
Diogo encarou o rapaz, estupefacto. Depois, o rosto endureceu.
“O que é que disseste?”
O rapaz não levantou a voz. “Disse que posso fazê-la andar outra vez.”
Os olhos da Leonor encheram-se de lágrimas instantaneamente. Não soluços—apenas lágrimas silenciosas, as que surgem quando a esperança dói mais que a tristeza.
Diogo sentiu algo partir-lhe no peito.
Abaixou-se até ficar à altura do rapaz, a voz a tremer de raiva contida. “Médicos não conseguiram,” disse. “Especialistas. Cirurgiões. Fisioterapeutas. Milhões de euros. E tu achas que consegues?”
O rapaz anuiu uma vez.
“Sim.”
Aquela palavra empurrou Diogo para além do limite.
“Não sabes nada sobre ela,” disse ele, cortante. “Não sabes pelo que passou. Não tens o direito de vir aqui e mexer com a cabeça dela.”
O rapaz apertou o maxilar, mas não recuou. “Sei o suficiente.”
“Ah, sim?” Diogo revirou os olhos. “Qual é o diagnóstico dela?”
O rapaz hesitou.
Leonor olhou para ele através das lágrimas. “Disseram que a minha medula estava danificada,” sussurrou. “Lesão incompleta.”
Os olhos do rapaz suavizaram-se. “Por isso ainda sentes às vezes,” disse, com delicadeza. “Nos pés. Como alfinetadas.”
Leonor congelou.
A respiração falhou-lhe. “Como é que sabes isso?”
Diogo sentiu um arrepio subir-lhe pela espinha.
O rapaz mudou o peso de um pé para o outro. “Porque não se partiu,” disse. “Apenas ficou em silêncio.”
“Chega,” Diogo interrompeu, levantando-se. “Vamos embora.”
Agarrou nos punhos da cadeira de rodas e virou-a bruscamente.
“Pai,” choramingou Leonor. “Por favor—”
Diogo não parou.
Atrás deles, o rapaz chamou, a voz agora trémula. “Esperem! Não quero dinheiro. Não quero nada. Apenas cinco minutos.”
Diogo ignorou-o, empurrando a cadeira mais depressa.
“Não entendem,” disse o rapaz, mais alto desta vez. “Já vi isto antes.”
Diogo parou.
Lentamente, virou-se.
“Viste o quê?” exigiu.
O rapaz respirou fundo, como quem se prepara para um salto. “Crianças que não podiam andar,” disse. “Pessoas a quem disseram que estava acabado.”
“E?” Diogo desafiou.
“E não estava.”
A multidão à volta crescera ligeiramente. Não o suficiente para chamar atenção, mas o suficiente para Diogo sentir olhares sobre ele. Julgamento. Curiosidade.
Leonor olhou para o pai, o rosto molhado. “Pai,” sussurrou. “E se ele estiver a dizer a verdade?”
O coração de Diogo apertou-se.
Ajoelhou-se ao lado dela, a voz a falhar. “Querida,” disse, baixinho, “já ouvimos isto antes.”
Ela anuiu. “Eu sei.”
Ele enxugou uma lágrima. “E dói sempre mais quando não é real.”
Atrás deles, o rapaz disse, suave: “É real.”
Diogo levantou-se de novo, a raiva e oDiogo respirou fundo, as mãos a tremer, e olhou para a Leonor, que enxugou as próprias lágrimas com os nós dos dedos, segurando ainda a fotografia desgastada do rapaz, enquanto o futuro — incerto, frágil, possível — esperava por eles no silêncio que se seguiu.