O Filho Autista que Não Falava até a Chegada da Nova Empregada

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Beatriz Almeida apertou o telemóvel contra o ouvido enquanto caminhava pelo Chiado, com a cidade a brilhar-lhe no rosto como se o luxo pudesse troçar dela. Sentia a garganta apertada, o coração a bater com raiva e vergonha.

—Mãe… já fui a todo o lado —sussurrou—. Ninguém contrata alguém sem visto de trabalho válido.

Do outro lado, a voz da mãe, vinda de Braga, trazia a preocupação de sempre e uma ternura que, às vezes, doía mais do que um murro.

—E não há mesmo outra hipótese, filha? Depois de tantos anos a estudar… vais acabar a limpar casas?

Beatriz parou em frente a um palacete de três andares, com janelas de vidro que refletiam um céu cinzento. O portão de ferro forjado parecia uma fronteira entre dois mundos: de um lado, o perfume das alfazemas e o silêncio; do outro, a carteira gasta com quinhentos euros e um currículo impresso como últimos salva-vidas.

—É temporário, mãe. Só até regularizar os meus documentos —mentiu com uma calma que não sentia—. Tenho de desligar… já cheguei.

Guardou o telemóvel, alisou o único fato preto que tinha e obrigou-se a respirar. “Sou Beatriz Almeida, empregada doméstica”, repetiu para si mesma, como se dizer muitas vezes apagasse o que realmente era. Não sou terapeuta ocupacional. Não tenho especialização. Não sei ler sinais. Não sei segurar a dor dos outros. Só preciso deste trabalho.

Apertou o intercomunicador.

—Sim? —respondeu uma voz masculina, seca, distante.

—Bom dia. Sou Beatriz Almeida. Venho para a entrevista do lugar de empregada doméstica.

Houve um silêncio longo, pesado, e depois o portão abriu-se devagar. Beatriz avançou por um jardim impecável: relva acabada de cortar, roseiras simétricas, uma fonte de mármore. Tudo tão perfeito que parecia falso, como se ali dentro ninguém se permitisse viver, apenas manter a aparência de vida.

Quando chegou à porta principal, esta abriu-se antes de bater. Diogo Santos estava à sua frente. Trinta e oito anos, fato cinzento impecável, a presença de quem está habituado a mandar… e, ainda assim, um cansaço nos olhos que não combinava com luxo algum.

—Menina Almeida —disse, sem sorrir—. Sou Diogo Santos. Entre.

O interior era branco, brilhante e frio. Mármore, escadas em caracol, candeeiros de cristal. Um museu caríssimo onde o ar parecia estagnado. Levou-a a um gabinete repleto de diplomas, prémios, fotografias com políticos e empresários. Beatriz sentou-se com as mãos cruzadas para esconder o tremor.

Diogo ficou de pé.

—Antes de começarmos, é preciso que entenda algo. Esta não é uma casa normal. O meu filho tem necessidades especiais. Muitas empregadas já desistiram. Não aguentam a situação.

Beatriz sentiu um aperto no peito. Autismo. A palavra encaixou-se na sua mente com a precisão de uma chave na fechadura.

—O Tomás tem oito anos —continuou ele, como se recitasse algo que já explicara demasiadas vezes—. Rotinas específicas. Os brinquedos têm de ficar exatamente no mesmo sítio. Come o mesmo todos os dias. Não fala com estranhos… aliás, quase não fala. Desde que a mãe dele morreu, há um ano e meio, ninguém conseguiu ajudar. Ninguém.

Beatriz engoliu em seco. Todos os seus instintos profissionais gritavam perguntas, mas mordeu a língua.

—O seu trabalho será simples: limpeza, refeições básicas. Manter as rotinas do Tomás exatamente como estão. Sem mudanças. Sem tentar “curá-lo” como outros fizeram. Está claro?

—Perfeitamente claro, senhor Santos.

—O salário é de mil e quinhentos euros. Domingo livre. Se aceitar, começa amanhã.

Mil e quinhentos. Era pouco, sim. Mas era um canto. Era mandar algum dinheiro à mãe. Era sobreviver.

—Aceito.

Nesse momento, um estrondo ecoou do segundo andar e um grito agudo atravessou a casa como uma sirene. Diogo fechou os olhos como se alguém lhe cravasse uma faca no ouvido.

—Tomás…

Subiu a correr. Beatriz seguiu-o sem pensar. No corredor do segundo andar, uma mulher mais velha, de cabelo grisalho, esperava à porta fechada com um rosto exausto.

—Senhor, uma das empregadas mexeu nos carrões ao aspirar —explicou—. Já vai em vinte minutos assim.

Do outro lado, batidas contra a porta e um choro que não era só choro: era um mundo a desabar.

Diogo bateu com suavidade.

—Tomás, sou o pai. Está tudo bem. Vamos arrumar os carrões…

Os gritos intensificaram. Beatriz observou. Não eram precisas palavras. Não precisava de explicação. Era uma tempestade sensorial, uma mudança mínima que se tornara um desastre porque o corpo não sabia como voltar a sentir-se seguro.

Sem pedir licença, sentou-se no chão, encostou as costas à porta e começou a cantarolar uma melodia suave, rítmica, constante. Como uma corda que se atira a alguém a afogar-se.

—O que está a fazer? —sussurrou Diogo, confuso.

Beatriz levantou um dedo, pedindo silêncio, e continuou. Incluiu uma respiração audível, lenta e profunda, como se o próprio ar pudesse ensinar calma.

As batidas diminuíram. O grito tornou-se um soluço. O soluço tornou-se silêncio.

Passaram minutos. Depois, a porta abriu-se devagar e um menino espreitou. Tomás tinha o cabelo castanho como o pai, olhos grandes e bonitos, mas evitava olhar diretamente. Segurava um carrinho vermelho com ambas as mãos como se fosse a sua última certeza. Os olhos pousaram brevemente nos sapatos de Beatriz… e esconderam-se de novo.

Diogo olhou para ela como se não soubesse se agradecer ou temer.

—Como fez isso?

Beatriz sentiu o peso da sua própria mentira desde o primeiro instante.

—O meu irmão mais novo era… parecido —improvisou—. Aprendi que, às vezes, o silêncio acompanhado ajuda mais que as palavras.

Diogo não respondeu. Apenas disse:

—Começa amanhã às sete. A Conceição explica-lhe tudo.

Beatriz desceu as escadas com uma mistura de alívio e medo. Tinha ultrapassado uma linha invisível. Usara o que sabia. Mentira. E, no entanto, quando recordou aquele olhar e aquele grito, soube que não tivera escolha. Prometeu a si mesma que seria só por uns meses… sem imaginar que aquela melodia, tão simples, acabara de abrir uma porta que já não conseguiria fechar.

Os dias seguintes tornaram-se rotina. Beatriz chegava às sete, preparava o pequeno-almoço exatamente como lhe ensinaram: torradas cortadas em quadrados perfeitos, sumo sem polpa, banana em rodelas iguais. A casa continuava fria, sim, mas já não a intimidava tanto. Assustava-a mais o silêncio do Tomás do que os candeeiros de cristal.

—Bom dia, Tomás —dizia todas as manhãs, sem exigir resposta.

Aprendeu a mexer devagar, a não invadir, a deixar espaço. E, sem querer, começou a semear pequenas coisas: um cantarolar ao dobrar mantas, movimentos rítmicos ao limpar o vidro, texturas novas na comida com mudanças mínimas. Não era “terapia”, dizE, quando o Tomás finalmente lhe entregou o carrinho vermelho e disse “Beatriz, fica”, ela soube que algumas portas, uma vez abertas, nunca mais se fecham.

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