O Disparo que Revelou um AnjoE no silêncio que se seguiu ao caos, ele ajoelhou-se ao seu lado, não como um chefão, mas como um homem que finalmente encontrara sua redenção.

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O tiro não era para ela. A bala, calibrada para o crânio de um menino de seis anos – o herdeiro do mais temido império do crime de Lisboa. Mas o destino tem maneiras estranhas de intervir.

Quando o disparo ecoou, Sofia Valente não pensou em física ou em consequências. Não pensou que o homem ao lado da criança era Rodrigo Silveira – um homem que podia acabar com uma vida num simples aceno de cabeça. Ela viu apenas uma criança em perigo. E agiu.

Enquanto o seu sangue manchava a calçada de calçada portuguesa, ela não imaginava que acabara de iniciar uma guerra que iria incendiar a cidade e derreter o gelo à volta do coração do diabo.

Era uma terça-feira comum no “Garfinho Dourado”. As porcelanas tilintavam, os chefs gritavam ordens, e Sofia sentia os pés a latejar dentro dos sapatos baratos. A renda da sua casa em Alfama estava atrasada há três dias.

Na mesa 12, no canto mais reservado, o ar era diferente. Lá estava Rodrigo Silveira. Os jornais chamavam-lhe um magnata dos transportes; as ruas, “o Chefe”. Era assustadoramente atraente, mas a frieza que dele emanava fazia as pessoas perderem o apetite.

Naquela noite, porém, o monstro estava de “serviço de pai”. À sua frente, os seus gémeos de seis anos, João e Miguel, com fatos miniatura.
“Comam os vegetais”, ordenou Rodrigo com uma voz profunda e autoritária, que soava estranhamente tensa. “Odeio árvores verdes”, resmungou João. “Quero croquetes.”
Sofia aproximou-se para encher as águas. “Olhem”, sussurrou, baixinho, “se a cozinha cortar o frango em pedacinhos e servir o molho de tomate à parte, ficam uns croquetes muito finos.”
Rodrigo ergueu o olhar, fixando os olhos nela. “A sério?”
Sofia sorriu para os meninos. “E as árvores verdes dão superpoderes. Foi assim que o Hulk ficou tão forte. Muito brócolis.” Os olhos de Miguel arregalaram-se. “A sério?”
Quando a conta chegou, Rodrigo deixou uma gorjeta de 500 euros. Sofia conteve a respiração. Era o valor da sua renda. Correu até à porta para agradecer.
Lá fora, o manobrista trouxe o SUV blindado. Rodrigo guiava os meninos pelo passeio, de costas para a rua. Foi então que Sofia viu: do outro lado da rua, a janela de um sedã cinzento abriu-se. Um silenciador brilhou sob a luz do candeeiro.
“Para baixo!”, gritou Sofia. Não pensou. Correu, atirou-se e derrubou os dois meninos contra o chão, protegendo os corpos deles com o seu.
Pum, pum, pum.
Sofia sentiu um impacto no ombro direito, como se tivesse sido atingida por uma marreta. O mundo explodiu em caos. Rodrigo sacou da arma e disparou contra o carro em fuga, mas ele desapareceu no trânsito.
Rodrigo virou-se. Sofia estava imóvel em cima dos seus filhos. A sua blusa branca estava a ficar vermelha. “Meninos, magoaram-se?”, perguntou ele, puxando as crianças trémulas de debaixo dela. Estavam cobertos de sangue, mas não era o deles.
Ele pegou-a ao colo e entrou no segundo SUV. “Hospital de Santa Maria. Liguem ao Doutor Tavares. Se ela morrer, eu deito aquele hospital abaixo.”

Ao acordar, Rodrigo estava ao lado da sua cama. “Tens um buraco no ombro”, disse ele quando ela se preocupou com o turno. “Não vais voltar para aquele restaurante. Agora fazes parte da família. E a família não se preocupa com rendas.”
Semanas depois, Sofia estava na mansão dos Silveira na Comporta. Numa noite, Rodrigo confessou: “Matei-o, Sofia. O meu primo. Ele queria os miúdos.”
“Protegeste a tua família”, disse ela, olhando nos olhos dele. “Isso não te torna um monstro, torna-te um pai.”
A paz, porém, foi breve. Numa noite de temporal, a energia caiu. As sirenes dispararam. Inimigos de leste invadiram a casa. Sofia correu, trancou as crianças no quarto de pânico por fora e ficou no corredor.
Ela não se escondeu. Ativou o sistema de combate a incêndios, inundando o corredor com gás para neutralizar os invasores. Do alto da varanda, viu Rodrigo encurralado. Um invasor gigantesco avançava sobre ele. Sofia ergueu uma pesada estátua de mármore e deixou-a cair sobre a cabeça do agressor.
Três dias depois, Rodrigo ajoelhou-se diante dela na varanda. “Sofia Valente, não te posso prometer uma vida normal. Mas prometo que ninguém te voltará a magoar. Aceitas casar comigo?”

Cinco anos depois, um vídeo caseiro mostrava um churrasco no jardim. João e Miguel, agora com onze anos, filmavam. Sofia ria com uma menina ao colo, enquanto Rodrigo cuidava da grelhada.
“A vida não é sobre encontrar alguém perfeito”, disse Sofia para a câmara. “Mas sim alguém que lute por ti quando o mundo estiver a arder.”
Sofia não salvara apenas duas crianças. Salvára uma linhagem e redimira um homem que se julgava perdido. De empregada de mesa, tornara-se a rainha do submundo – armada com a única força mais poderosa que uma bala: o amor.

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