O dia em que uma criança transformou a vida de um milionário para sempre

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Estou na sala de emergência de um hospital em Lisboa, verificando o relógio, respondendo a e-mails e reclamando baixinho sobre o tempo que a enfermeira está demorando para limpar um pequeno corte no meu braço.

Foi então que ouvi.

Uma vozinha trêmula, mas suficientemente alta para cortar todo o barulho.

“Por favor, salvem a minha mãe. Eu prometo que pago quando crescer.”

As conversas ao meu redor desapareceram. Uma menininha segurava o casaco branco de um médico com as duas mãos, agarrada a ele como se fosse a única coisa impedindo o mundo dela de desmoronar.

Ela não devia ter mais de quatro anos. Cabelo castanho preso num rabo-de-cavalo desalinhado. Olhos verdes tão vermelhos de chorar que doía olhar para ela. Uma mão no médico, a outra apertando um ursinho de pelúcia marrom e gasto contra o peito.

“Querida, estamos fazendo tudo o que podemos,” o médico disse com gentileza. “Tens de ser corajosa pela tua mãe agora, está bem?”

Ela acenou, mas os dedinhos não soltaram o casaco. Uma enfermeira veio levá-la para uma cadeira de plástico perto da parede. O médico correu em direção às portas duplas que levavam à cirurgia.

Disse a mim mesmo que não era da minha conta.

Olhei para o telemóvel outra vez. Tenho uma empresa. Havia uma reunião de diretoria no Saldanha. A minha assistente já tinha adiado uma vez. Estava de fato impecável, com um pequeno penso no braço, não era o tipo de pessoa que passa a manhã inteira nas urgências.

Mas então ouvi-a novamente.

“Sr. Urso, a mamã vai ficar bem, não é? Ela só está a dormir. Ela sempre acorda…”

Algo no meu peito apertou.

Antes que percebesse, guardei o telemóvel e aproximei-me.

“Olá,” disse suavemente. “O teu urso tem um nome fixe.”

Ela olhou para mim como se eu pudesse tirá-lo dela.

“O Sr. Urso não gosta de estranhos,” disse, completamente séria.

“Justo,” respondi, sentando-me a alguns lugares de distância para não a assustar. “Chamo-me João. Qual é o teu nome?”

Ela hesitou, como se estivesse a decidir se eu era perigoso.

“Beatriz,” sussurrou finalmente. “Beatriz Silva.”

Há cinco anos que não ouvia aquele sobrenome.

Silva.

O meu coração falhou. Lisboa é grande. Coincidências acontecem. Foi o que me disse.

“É um nome bonito,” consegui responder. “Onde está o teu pai, Beatriz?”

A pergunta escapou-me antes que pudesse pará-la.

Ela nem pestanejou.

“Eu não tenho pai,” disse com calma, como se estivesse a dizer que não tinha uma bicicleta. “É só eu e a mamã.”

Antes que pudesse responder, o corredor agitou-se. Enfermeiras passaram a correr, empurrando uma maca para a sala de operações. As portas abriram-se por meio segundo.

E eu vi-a.

Cabelo ruivo, mais curto do que me lembrava, mas inconfundível. Um perfil pálido que costumava traçar com a mão. A mulher na maca estava machucada, imóvel, rodeada de fios e máscaras.

Sofia.

O meu peito ficou gelado.

As portas fecharam-se, e por um momento só ouvia o meu coração a martelar nos ouvidos.

“Conheces a minha mamã?” A voz de Beatriz trouxe-me de volta.

Virei-me para ela. Desta vez, olhei mesmo.

Os mesmos olhos verdes profundos que vejo no espelho todas as manhãs. As mesmas sobrancelhas. O mesmo queixinho teimoso que se recusa a ceder.

“Quantos anos tens?” perguntei, sabendo que não estava preparado para a resposta.

“Quatro,” disse orgulhosa. “Tive um bolo com confeitos. A mamã fez-o ela mesma.”

Quatro.

Exatamente o número de anos desde que Sofia Silva desapareceu da minha vida sem uma palavra.

“O carro rodou,” continuou Beatriz, as palavras a saírem entre fungadelas. “Estava a chover muito. A mamã estava triste. Ela conduzia depressa. Depois houve um barulho grande e uma árvore e… ela não acordou.”

Tocou no pequeno penso no seu próprio braço.

“O homem da ambulância disse que eu fui muito corajosa,” acrescentou. “Mas eu não tenho dinheiro para lhe pagar. Parti o meu mealheiro na semana passada só para comprar gelado.”

Senti algo dentro de mim partir-se ao meio.

Respirei fundo.

“Beatriz,” disse baixinho, “a tua mãe é forte. Os médicos aqui são muito bons. Eles vão ajudá-la. Não tens de te preocupar com dinheiro. Isso não é o teu trabalho.”

“Mas a mamã diz que tudo custa dinheiro,” sussurrou. “Às vezes ela chora quando pensa que estou a dormir. Quando fico doente, ela preocupa-se com os comprimidos.”

Cada palavra foi como um murro.

A Sofia que eu conheci tinha sonhos maiores do que qualquer auditório. De alguma forma, aquela rapariga transformou-se numa mulher sentada à noite num pequeno apartamento em Algés, tentando não chorar onde a filha pudesse ouvir.

Uma enfermeira aproximou-se de nós.

“É familiar da criança?” perguntou, observando-me com cuidado.

Abri a boca e não saiu nada.

O que é que eu era? Um ex-namorado de outra vida? Um estranho de fato caro que por acaso estava no sítio certo à hora certa? Um homem que podia ter uma filha de quem nunca soube?

Beatriz respondeu por mim.

“Ele conhece a minha mamã,” disse. “Eles eram amigos antes.”

A enfermeira concordou lentamente.

“A mãe dela está em cirurgia,” explicou. “É grave. Os serviços sociais virão ficar com a menina enquanto esperamos por novidades. Se não for família, terá de se afastar quando chegarem.”

Família.

Olhei para Beatriz, agarrada àquele ursinho como um escudo, balançando as pernas nervosamente na beira da cadeira.

Ela tinha o cabelo da Sofia.

Ela tinha os meus olhos.

E algures para além daquelas portas de cuidados intensivos, a mulher que procurei durante anos lutava pela vida.

“Senhor,” repetiu a enfermeira, “é família?”

Senti todas as partes da minha vida antiga—a minha agenda, as minhas reuniões, a minha distância cuidadosa—penduradas por um fio, à espera da resposta que estava prestes a sair da minha boca.

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