O Choro do Bebê ao Ver a Empregada — E Suas Primeiras Palavras Comoveram a Todos

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O salão inteiro segurou a respiração. Lustres de cristal derramavam uma luz dourada sobre vestidos caros, gravatas bem passadas e taças de espumante tilintando. Ao fundo, um piano tocava um fado suave, daqueles que ninguém presta muita atenção, mas que dão um ar de filme português à cena.

No meio disso tudo, estava o Duarte, um menino de 2 anos, descalço, com o macacão azul todo amarrotado e os cachos castanhos caindo sobre os olhos. Os olhinhos dele, grandes e escuros, estavam assustados com tanto barulho, com tanta gente falando alto palavras que ele não entendia. Ele não falava. Não desde que o mundo dele tinha desabado no asfalto molhado de uma qualquer avenida de Lisboa.

Mas, naquele momento, algo no ar mudou. A porta da cozinha abriu-se devagar, sem fazer ruído. Quase ninguém reparou, mas os olhos do Duarte repararam. Ele virou a cabeça como se tivesse sentido um cheiro conhecido no meio do perfume importado e do aroma da carne assada. Era ela, a Bárbara, com o cabelo preso num rabo-de-cavalo rápido, uniforme simples e tênis velho rangendo suavemente no chão de mármore.

Ela só estava a passar com uma bandeja de guardanapos, tentando ser invisível, como sempre. Mas, para o menino no meio da sala, era impossível ignorá-la. Duarte viu o rosto dela, e o barulho do salão desapareceu. O mundo encolheu até caber naquele espaço entre os dois, no brilho tímido dos olhos dela, no modo como as mãos tremiam um pouco, segurando a bandeja, sempre com medo de errar, de partir algo, de ser mandada embora como já acontecera noutros sítios.

O peito dele apertou. Algo que estava preso há meses, engasgado num canto escuro da garganta, subiu sem aviso, sem permissão. E, pela primeira vez em muito tempo, o pequeno Duarte abriu a boca.

“Mãe!”

A palavra saiu baixa, rouca, mas foi como se alguém tivesse deixado cair uma taça de cristal no chão. O piano falhou uma nota. As conversas pararam a meio. Taças ficaram suspensas no ar. Uma senhora levou a mão ao peito. Um empregado deixou cair um talher. Bárbara congelou. Nem sabia se tinha ouvido direito. O braço dela ficou rígido, a bandeja equilibrada no ar, guardanapos brancos a tremer como se também tivessem ouvido a palavra proibida.

“Ele não fala”, tinham-lhe dito. “Não chama ninguém, evita contacto desde o acidente.” Mas ele acabara de chamar, e chamara por ela.

Carolina, a noiva do viúvo, dono da casa, virou-se nos saltos altos. O vestido de seda verde-escuro abriu-se em volta do corpo como uma onda pesada. O sorriso perfeito escorregou-lhe do rosto por um segundo antes de voltar, reaprendido, duro. Os olhos dela foram do miúdo para a empregada, devagar, como uma lâmina.

Henrique Teixeira, o viúvo e milionário, também olhou, mas o olhar dele era diferente. Era o olhar de quem levou um soco no peito, de quem ouviu a palavra “mãe” e, por um segundo, se lembrou do cheiro do shampoo de alfazema, do riso de uma mulher que já não estava ali.

Duarte correu na direção da empregada. Bárbara quis recuar, quis desaparecer. Sabia que aquilo não podia ser bom, que nenhum homem rico gostava de ver o filho — especialmente um filho que não falava — a correr para abraçar alguém que não fosse a noiva perfeita ao seu lado. Mas, antes que ela conseguisse dar um passo atrás, o menino já se agarrava à sua perna, o rostinho enterrado na barra do avental.

“Mãe!” — repetiu, agora um pouco mais alto.

O silêncio ficou pesado. As pessoas trocaram olhares. Carolina apertou os dedos em volta da taça com tanta força que o vidro gemeu. Henrique deu um passo à frente. E ali, com o coração a bater tão forte que mal conseguia respirar, Bárbara percebeu uma coisa simples e assustadora: aquele momento ia mudar tudo.

Mas, para entender como aquele menino sem voz encontrou coragem para chamar uma empregada de mãe, precisamos recuar um pouco. Voltar para quando Bárbara ainda pensava que São Paulo era grande o suficiente para a esconder. E para quando a mansão Teixeira ainda era só uma fotografia num anúncio de emprego.

O ônibus balançava pela Marginal do Tejo, como se tivesse pressa de se livrar de toda a gente. Bárbara segurava firme na mochila pequena, como se dentro dela estivesse o último pedaço de chão que lhe restava. O vidro da janela estava embaçado. Do lado de fora, prédios, pontes, anúncios — tudo demasiado grande. Do lado de dentro, o cheiro misturado de desodorizante barato, suor e café requentado. Ela respirou fundo.

Alentejo ficava cada vez mais longe.

A casa com o quintal de terra batida, a voz do pai a chamar no portão, o riso das vizinhas — tudo se transformava em memória. No pulso, a pulseira de prata com as iniciais LD, presente do pai quando fez 15 anos, brilhava fracamente. Ela rodava o metal com o polegar, como se fosse um terço. “Se eu desaparecer neste mundo de prédios, talvez ele desista”, pensou.

“Talvez o Raul encontre outra para controlar.”

O nome dele pesou no estômago. Raul, o noivo que nunca foi escolhido, o homem de fato caro e olhos que sorriam para toda a gente — menos para ela quando estavam sozinhos. A mão pesada, as frases sussurradas ao ouvido como ameaça.

*Tu és minha, de mais ninguém.*

Não. Não mais.

O telemóvel vibrou. Uma notificação de um aplicativo de emprego. *Vaga doméstica interna. Estoril. Bom salário. Experiência necessária.*

Experiência ela tinha. Experiência com casas grandes, nem por isso. Mas o medo de voltar para casa era maior do que qualquer insegurança.

Quando o portão da mansão Teixeira se abriu pela primeira vez à sua frente, Bárbara sentiu o corpo inteiro encolher. Era tudo demasiado grande. O jardim impecável, o cheiro de relva cortada misturado com perfume de flor branca, a fachada de vidro e mármore a refletir o céu cinzento de Lisboa, como se a casa estivesse a engolir as nuvens. Ela respirou fundo. O ar parecia mais frio lá dentro, como se o ar condicionado também arrefecesse as pessoas.

Na cozinha, o cheiro melhorou. Café acabado de coar, alho a alourar na frigideira, o som de pratos a bater e uma rádio baixinha a passar um fado antigo. Ali, Bárbara reconheceu algo de casa.

“És a nova?”, perguntou a cozinheira, sorrindo sem mostrar todos os dentes.

“Sou. Chamo-me Bárbara.”

“Senhora nada. Chama-me Dona Rosa. Bem-vinda ao circo.”

Circo? Só percebeu o verdadeiro significado da palavra dias depois.

O primeiro encontro com o Duarte não foi bonito. Foi estranho.

Bárbara estava a apanhar brinquedos na sala de jogos quando sentiu um olhar. Virou-se devagar. No canto, meio escondido atrás do sofá, um menino a observava.

Parecia demasiado pequeno para uma casa tão grande. Pés descalços, camiseta com um desenho já desbotado, cabelE quando Duarte estendeu a mãozinha, segurando um brinquedo partido, e murmurou “fica?”, Bárbara soube que, afinal, havia um lugar no mundo onde valia a pena parar.

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