“Pensas que és o chefe agora?” gritou o Capitão Murray, com risadas a ecoar pelas paredes do refeitório.
Os garfos pararam no ar. Todos os homens à mesa viraram-se para a única mulher de pé à frente dele — a Capitão-de-Mar-e-Guerra Inês Baptista.
Ela não vacilou. Nem pestanejou. Apenas cruzou os braços, fitou-o nos olhos e disse zero.
A sala fervilhava de tensão. Alguns sorriam. Uns riam-se, nervosos. Outros recostaram-se, curiosos para ver até onde isto ia.
Murray — um veterano das Operações Especiais com dezasseis anos de serviço e corpo de um touro — inchou o peito como um gorila. Toda a gente sabia que o ego dele era tão grande como a boca, mas ninguém esperava que a desafiasse assim, em público.
Inês acabara de chegar para almoçar tarde. Nem sequer pegara no garfo quando ele decidiu testá-la. Há semanas que a base murmurava sobre uma “oficial meteórica” vinda do Estado-Maior. Ninguém esperava que fosse tão jovem — ou mulher.
Ela pousou a bandeja e falou, calma:
“Não penso que sou a chefe. Sou.”
A gargalhada de Murray fez tremer os vidros.
“Ouviste, rapazes? Ela é! Então, és daqueles que passou a vida atrás de uma secretária em Lisboa e achas que isso significa alguma coisa aqui?”
As risadas espalharam-se como tiros. Mas Inês não levantou a voz.
Apenas tirou o distintivo de velcro do braço e levantou-o para todos verem.
Estrela de Prata. Duas Folhas de Carvalho. Insígnia das Operações Especiais.
E, por cima delas — um símbolo que nenhum ali esperava.
“Comando Operacional Especial Conjunto,” disse, a voz cortando o barulho como uma faca. “Foi a quem prestei contas no mês passado. Foi quem me promoveu. Efectivo desde sexta-feira.”
Deu um passo à frente.
“Não sou só a vossa nova segunda-comandante. Supero todos em patente nesta sala.”
O sorriso de Murray vacilou.
“É mentira.”
“Confirma no boletim,” disse Inês, apontando para o quadro de deveres atrás dele. “Assinado e selado hoje de manhã. Podes chamar-me ‘minha comandante’… ou calar-te e ouvir. Mas da próxima vez que eu entrar, vais fazer continência.”
O silêncio engoliu o refeitório.
Até que — um operacional no fundo levantou-se. Firme, em sentido.
Outro seguiu. E outro.
Um a um, a sala inteira de homens endurecidos pôs-se em posição, vergonha e respeito misturados em cada rosto.
Até Murray se levantou, o maxilar tenso, o orgulho rachado enquanto a mão subia à testa.
Inês não devolveu a continência. Apenas manteve o olhar, até o braço dele cair — e depois virou-se.
O que não sabiam era porquê ela fora escolhida para o posto.
Seis anos antes, em Timor, Inês Baptista era médica de combate.
A sua equipa caiu numa emboscada numa operação nocturna.
O comandante levou um tiro na garganta; três homens caíram em segundos.
Rastejando entre estilhaços e fumo, Inês arrastou um homem para cobertura, fez um torniquete noutro — e abriu a garganta do seu comandante sob fogo para lhe salvar a vida.
Ganhou a primeira Estrela de Prata naquela noite.
Quando chegou a evacuação, recusou-se a entrar.
“Ainda há uma pulsação que não verifiquei,” dissera.
Aquele momento redefiniu a carreira dela.
As Operações Especiais aceleraram-a pela Escola de Guerra e treino de elite.
Anos depois, tornou-se a mulher mais jovem em comando no COEC.
Mas nunca se gabou. Nunca contou a história.
Deixou que as acções falassem — e o refeitório ouE, no dia seguinte, quando Inês entrou no pátio de treinos, até os mais velhos da tropa ficaram em sentido — não por obrigação, mas porque finalmente entenderam que respeito não se exige, conquista-se.