O Casaco do Meu Pai e o Segredo que Calou a Todos

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Capítulo 1: A Armadura dos Fantasmas

O casaco cheirava a sabão velho, óleo de armas e ao fundo de um armário que não era aberto há anos. Era um cheiro complexo — uma mistura de metal afiado e conforto poeirento que batia no fundo do meu nariz toda vez que eu enterrava o rosto no colarinho. Para todos os outros na Escola Básica do Vale do Tejo, aquilo era um monstro. Uma tenda verde-oliva suja que me engolia inteira. Para mim, era a única coisa segurando meus moléculas juntas.

Eu tinha dez anos e estava me afogando.

Todas as manhãs, a rotina era a mesma. Minha mãe ficava na cozinha, encarando uma torrada que não comia, os olhos marcados por círculos escuros que pareciam hematomas na luz dura da manhã. Eu me vestia em silêncio, calçando os jeans e os tênis, e depois ia até o cabide. Puxava aquele tecido pesado sobre os ombros. As mangas eram tão compridas que cobriam meus dedos, panos inúteis que dificultavam segurar um lápis. A barra chegava perto dos meus tornozelos. Eu não caminhava; eu arrastava os pés. Parecia uma criança brincando de se vestir com restos de guerra. Mas eu não ligava. Quando o fechava, o mundo ficava mais quieto. Seguro.

As gozações começavam assim que eu descia do autocarro amarelo.

“Olha só,” anunciou Catarina Mendes, a voz tão aguda que poderia estilhaçar vidros. Ela estava encostada nos armários, cercada pelo seu grupo de clones com casacos de vento combinando. “A mendiga voltou. Encontrou isso no lixo atrás da Cáritas, Ana? Ou desenterrou?”

Eu mantinha a cabeça baixa, olhando para os azulejos riscados. Pé esquerdo, pé direito. Só chegar à sala. Não reagir. Não chorar.

“É ofensivo, na verdade,” entrou Rodrigo Silva. Ele era o tipo de criança que decorava regras só para dedurar os outros. Ficou na minha frente, bloqueando o caminho para a Sala 4B. Cruzou os braços, inflando o peito. “Meu pai diz que usar equipamento militar sem ter servido é ‘valor roubado’. É ilegal, Ana. Tu és literalmente uma criminosa.”

“Não… não é ilegal,” murmurei, a voz presa no colarinho de lã. “É do meu pai.”

Rodrigo riu, um som cortante que chamou a atenção dos mais velhos passando. “Ah, claro. Teu pai? Aquele que nunca aparece em nada? Ele provavelmente comprou isso num quartel para parecer fixe. Falso. Como tu.”

Eles não sabiam. Nenhum deles sabia. Não sabiam da batida na porta três meses atrás. Não sabiam dos dois homens de uniforme na nossa varanda, os rostos máscaras de dor profissional. Não sabiam da bandeira dobrada na lareira ou de como minha mãe ficava na cozinha no escuro, olhando para o nada, esquecendo de acender as luzes quando o sol se punha.

Apertei as mangas do casaco com mais força. Dentro, contra o forro, ainda podia sentir o cheiro dele. Um traço de pastilha de menta e chuva. Se respirasse fundo, ele estava caminhando comigo para a escola. Se fechasse os olhos, ele segurava minha mão, a palma áspera quente contra a minha.

“Deixa-a em paz, Rodrigo,” uma voz calma disse do lado. Era a Sofia, uma colega da aula de artes, mas ela não se aproximou. Só parecia desconfortável.

“Estou só protegendo as tropas,” Rodrigo zombou, puxando a manga do meu casaco. “Tira isso, Ana. Pareces ridícula.”

Eu me afastei, o tecido rangendo. “Não.”

“Lixo,” Catarina sussurrou quando passei por eles. “Puro lixo.”

Usei todos os dias. No calor do início de setembro, suava através da camiseta, gotas escorrendo pelas costas, mas não tirava. Era minha armadura. Sem ele, eu era só uma menina sem pai e sem voz. Com ele, era a filha do Sargento Marques. Mesmo que ninguém mais acreditasse.

Capítulo 2: A Chegada do General

Depois veio a Assembleia do Dia do Veterano.

O ginásio era uma caixa úmida de barulho. Os bancos de metal gemiam sob o peso de quinhentas crianças irrequietas. O ar cheirava a cera, restos de almoço e ansiedade adolescente. Eu sentava lá no alto, num canto, tentando me tornar invisível contra a parede de tijolos pintada. Catarina e suas amigas estavam duas filas abaixo, atirando pipocas na minha cabeça quando os professores não olhavam.

“Ei, soldada,” Catarina assobiou, virando-se para trás. “Vais descer e fazer continência? Talvez te deem uma medalha de ‘Melhor Fantasia’.”

As risadas se espalharam pelo grupo como um contágio. Meu rosto queimou. Puxei o colarinho pra cima, escondendo os olhos. Só queria desaparecer. Queria que o chão se abrisse e engolisse a mim e o casaco. Passei o dedo sobre o bordado do bolso. Segura firme, disse a mim mesma. O pai quereria que fosses corajosa.

“Silêncio! Todos, silêncio!” a voz do Diretor Santos ecoou no sistema de som, cortando o alvoroço. “Hoje, temos um convidado muito especial. Um herói que serviu o nosso país durante trinta anos. Por favor, recebam… o General Marco Dantas.”

As portas duplas se abriram com um baque dramático.

A sala não ficou em silêncio—ficou sem ar. Até os inquietos pararam.

O General Dantas entrou. Ele era assustador. Um homem gigante, quatro estrelas brilhando nos ombros sob a luz fria. O uniforme tão bem passado que podias cortar-te nas dobras. Não caminhava—marchava, ocupando o espaço entre a porta e o pódio com passos que exigiam respeito. Uma cicatriz corria pela linha do maxilar, o cabelo grisalho rente ao crânio, e os olhos pareciam ter visto o fim do mundo e sobrevivido.

Subiu ao microfone. Ajustou-o sem olhar. Varreu os alunos com o olhar. Não sorriu.

“A liberdade,” começou, a voz grave ecoando no meu peito, “não é de graça. É paga com sangue, suor e cadeiras vazias nas mesas de jantar desta nação.”

Era hipnotizante. Até o Rodrigo parou de mexer nos cadarços. O General falou de honra, sacrifício, dos irmãos perdidos em lugares que nem encontrávamos no mapa. Falou de dever.

E então, aconteceu.

Ele varria a plateia, o olhar varrendo os bancos como um farol. Falava de coragem diante do medo.

“Defendemos aqueles que não podem defender-se…” disse, e parou.

No meio da frase.

Congelou.

O silêncio se esticou, pesado. O Diretor parecia nervoso. Os professores trocaram olhares confusos. O General esquecera o discurso? Estava doente?

Mas o General Dantas não olhava para as anotações. Não olhava para o Diretor. Olhava para cima.

Lá no alto.

Diretamente para o canto dos bancos.

Diretamente para mim.

O rosto, antes de pedra, perdeu a cor. A boca se abriu, depois fechou. Franzius os olhos, como se não acreditasse no que via. Era o olhar de um homem vendo um fantasma.

Afastou-se do pódio, ignorando o microfone. O feedback guinchou, mas ele não pestanejou. Contornou a mesa coE, enquanto o General continuava a contar a história do meu pai, eu finalmente entendi que o verdadeiro valor não estava no casaco, mas na coragem que ele me ensinou a carregar dentro de mim.

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