O Bilionário Esgotado Voltou Para Casa e Não Acreditou no Que Viu

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O Dia em que a Casa Soou Diferente

Pedro Mendes entrou na longa entrada da sua propriedade nos arredores de Sintra, sentindo como se o dia tivesse sugado toda a sua energia. Uma reunião desastrosa em Lisboa, investidores ameaçando desistir, sócios duvidando do império logístico que ele construiu do zero—tudo pesava no seu peito.

Quando abriu a porta de casa, afrouxando a gravata, estava pronto para o vazio que o recebia todas as noites há oito meses. Sem música. Sem passos. Sem vozes. Apenas o eco do que um dia foi uma família.

Mas nesta noite, algo cortou o silêncio.

Risos.

Não aquelas risadas educadas ou o riso cansado que as pessoas usam para parecerem simpáticas, mas uma gargalhada alta, espontânea, daquelas que fazem perder o fôlego.

Risos de crianças.

Pedro parou no hall. A mala escorregou da sua mão e caiu no chão de mármore com um baque surdo.

Tiago, Rodrigo e Mateus não riam desde a noite em que a mãe deles não voltou para casa depois de um recado. Desde o acidente. Desde que o mundo deles virou de pernas para o ar e nunca mais foi o mesmo.

O coração acelerado, ele seguiu o som pelo corredor até à sala de jardim que a sua falecida esposa, Leonor, costumava encher com plantas e projetos de arte.

Quando chegou à porta, o ar faltou-lhe.

No tapete no centro da sala, uma jovem estava de quatro. Os três rapazes agarravam-se às suas costas, as bochechas coradas, os rostos iluminados pela alegria pura.

“Mais rápido, Dona Catarina! Mais rápido!”, gritou um deles.

“Segurem-se bem, cavaleiros, este cavalo já está cansado”, ela riu, sacudindo a cabeça como um pônei num parque de diversões.

Pedro segurou-se à ombreira da porta.

Durante meses, os filhos dele tinham sido sombras. Acordavam de pesadelos e ficavam a olhar pela janela em vez de brincar. Andavam pela casa como se pudessem partir algo com um simples tom de voz mais alto. Tinham parado de perguntar quando a mãe ia voltar, e isso doía mais do que tudo.

Mas ali estavam eles. Rindo tanto que mal se aguentavam em cima da “égua”. Agarrando-se a essa mulher que ele mal conhecia como se ela fosse o lugar mais seguro do mundo.

A mulher—a nova assistente familiar que a sogra dele tinha contratado—olhou para cima e viu-o.

O riso dela cortou-se. Os olhos se arregalaram. Ela congelou no meio do movimento.

Os rapazes deslizaram das suas costas e encostaram-se a ela. Tiago agarrou-lhe o braço como se temesse que Pedro a mandasse embora.

Por um longo momento, ninguém falou.

Pedro queria dizer mil coisas—obrigado, desculpa, quem é você, como é que fez isto?—mas a garganta recusou-se a cooperar.

Conseguiu apenas um aceno mínimo, virou-se antes que o brilho nos olhos se tornasse óbvio e seguiu pelo corredor como se tivesse chegado a mais uma noite comum.

Nada naquilo era comum. E, pela primeira vez em meses, o vazio que o envolvia começou a rachar.

A Mulher que Caminhou para a Dor

Pedro não dormiu naquela noite.

Sentado no escritório às escuras, as luzes da cidade a brilhar suavemente pela janela, ele revia a cena na sala de jardim. O riso dos rapazes. Os braços deles em volta dos ombros da nova assistente. A maneira como ela tinha jogado a cabeça para trás e rido com eles, como se não tivesse medo da tristeza deles.

Como é que ela conseguira?

Ele tinha tentado de tudo depois da morte de Leonor.

Comprou todos os livros que encontrou sobre como as crianças lidam com a perda. Contratou a Dra. Ana Lopes, uma terapeuta infantil famosa por ajudar famílias em momentos difíceis. Ela vinha a casa duas vezes por semana, fazendo perguntas suaves, jogando calmamente no chão, convidando os rapazes a falar.

Eles gostavam dela, mas não se abriam. As respostas eram curtas. Os olhos distantes.

Ele reorganizou a agenda, limpou os fins de semana, reduziu as viagens. Tentou “passeios especiais”, brinquedos novos, rotinas diferentes—qualquer coisa que os trouxesse de volta ao mundo.

Nada funcionara.

Aos poucos, os filhos dele tinham encolhido de maneiras que nada tinham a ver com a altura.

E então, um mês antes, a sua sogra, Isabel, ligou no meio de uma reunião tensa. A terceira ama tinha pedido demissão. A casa, ela disse, estava “pesada demais”.

“Encontrei alguém diferente desta vez”, Isabel insistira. “Não só uma ama. Uma assistente familiar. Alguém que trabalhou em creches, que sabe lidar com crianças como as tuas. O nome dela é Catarina Almeida. Vou mandar o currículo.”

Pedro mal ouvira. Murmurou, “Tudo bem, contrata”, e voltou a falar de horários e contratos.

Agora, aquele nome não saía da sua cabeça.

Ele pegou no telemóvel e finalmente abriu o ficheiro que Isabel lhe enviara.

Catarina Almeida. Vinte e oito anos. Anos de experiência em cuidados infantis. Referências de um centro comunitário em Coimbra. Nenhum diploma pomposo. Apenas uma frase escrita à mão no final do currículo:

“Sei o que é perder alguém que amamos e ainda assim ter de cuidar dos outros. Não tenho medo de dias tristes.”

Pedro ficou a olhar para aquela frase até as letras ficarem desfocadas.

A maioria das pessoas afastara-se depois do funeral de Leonor. Não sabiam o que dizer, então não diziam nada. Os convites pararam. As chamadas rarearam. As mensagens tornaram-se breves e cuidadosas.

Esta mulher lera sobre a sua família e caminhara direto para a dor.

Pequeno-Almoço e um Novo Tipo de Esperança

Na manhã seguinte, Pedro desceu as escadas mais cedo do que o costume. Disse a si mesmo que era por causa de uma chamada importante, mas no fundo sabia que não era verdade.

Ele queria ver se a noite anterior tinha sido real.

A luz suave enchia a cozinha. Catarina estava ao fogão, vestindo uma camisola simples e jeans, mexendo ovos e passando fatias de pão para a torradeira. Movia-se com uma tranquilidade prática, como se tivesse feito aquilo mil vezes, mas sem parecer que a cozinha era dela. Ela simplesmente encaixava-se ali.

Os rapazes entraram, com o cabelo despenteado e o pijama meio torto.

“Bom dia”, disse Catarina, com uma voz quente.

“Dona Catarina, podemos brincar de cavalo outra vez hoje?”, Rodrigo perguntou antes mesmo de chegar à mesa.

Ela riu suavemente e olhou para a porta onde Pedro estava parado. O sorriso desvaneceu-se quando o viu.

“Bom dia, Sr. Mendes”, disse, mais formal agora.

“Pedro”, ele corrigiu. A voz saiu mais áspera do que pretendia. “Só Pedro.”

Ela acenou rapidamente e voltou-se para o fogão.

“Podemos, Dona Catarina?”, Tiago puxou-lhe suavemente a manga. “Podemos brincar como ontem?”

Catarina hesitou. Os olhos pousaram em Pedro, à espera da resposta dele.

Ele sabia que podia dizer não. Podia lembrá-los de que ela estava ali para manter as coisas funcionando, não para se arrastar no chão.

Mas ouviu a própria voz dizer: “Depois do pequeno-almoço.”

Três cabeças viraram-se para ele, surpresasE quando os meninos deram mais uma gargalhada, abraçando Catarina como se ela fosse parte da família que tinham perdido, Pedro percebeu que o coração, mesmo partido, ainda era capaz de amar de novo.

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