O som do relógio era o único que ousava quebrar o silêncio naquela casa. Tic tac tic tac. Cada segundo parecia uma punhalada. O mármore frio refletia a luz fraca da manhã, e o ar, carregado de cheiro de remédios importados e flores murchas, pesava como algo que estava morrendo aos poucos.
João, um bebê de 1 ano e 7 meses, estava deitado no berço de madeira, imóvel. Os olhinhos abertos, fixos no teto branco. Não chorava, não se mexia, apenas olhava, como se já não quisesse mais viver. Diogo Alves estava de joelhos ao lado do berço, o corpo curvado de cansaço e culpa. Usava a mesma camisa há três dias. A barba crescia desalinhada. Ao redor, o quarto parecia uma enfermaria de luxo.
Potes de papinha orgânica, seringas com vitaminas caríssimas, mamadeiras de marca, tudo intocado. O pai ergueu a seringa e murmurou com voz embargada. “João, por favor, filho, só um pouquinho.” Nada. A luz do candeeiro tremia, refletida nos vidros de remédio que cercavam o berço.
A enfermeira Leonor observava em silêncio, o rosto cansado. “Senhor Diogo”, disse baixinho. “São 4 da manhã. O senhor precisa descansar.” Diogo virou o rosto devagar, olhos vermelhos e fundos. “Descansar.” A palavra saiu quase como um riso amargo. “Como se descansa vendo o próprio filho definhar?” Leonor baixou o olhar.
Já tinha visto dor em muitas casas ricas, mas nada como aquilo. Ali, o dinheiro virava desespero. Diogo voltou a olhar para o filho. O bebê respirava devagar, quase imperceptível. “Os médicos disseram que é emocional, não é?” Ele perguntou, sem tirar os olhos do menino. “Sim, senhor. O corpo está saudável. Mas parece que ele… desistiu.” Leonor falou quase em um sussurro.
As palavras pairaram no ar pesado, misturadas ao zumbido do humidificador. Diogo apoiou as mãos no chão e ficou ali, imóvel, até as lágrimas caírem em silêncio, como se não tivesse mais forças nem para chorar. Na parede, uma foto de família os observava. Ana sorrindo, João com seis meses no colo dela, e ele, o homem que achava que controlava tudo.
Diogo esticou a mão até o porta-retrato. O vidro estava empoeirado. “Foi culpa minha”, murmurou. “Eu insisti para ela ir à obra. Devia ter visto o perigo.” O quarto cheirava a solidão. Horas depois, com o dia claro, Leonor desceu as escadas em silêncio e chamou o médico.
Quando o Dr. Carvalho chegou, a casa ainda parecia um mausoléu. As janelas estavam abertas, mas o ar não entrava. Reuniram-se na biblioteca, entre livros alinhados e móveis que brilhavam demais. “Fale logo, doutor”, pediu Diogo, a voz rouca. O pediatra respirou fundo. “Seu filho não está doente no corpo, Diogo. Ele está desistindo.”
“Desistindo?” Diogo repetiu, incrédulo. “Quer dizer que ele não quer mais viver?” O silêncio caiu como um véu. “Nenhum remédio vai fazê-lo comer”, continuou o médico. “Ele precisa de uma razão. E essa razão tem de vir de si.” Diogo riu, um som seco e amargo. “De mim? Eu sou a causa disto.”
“É o que o senhor pensa, mas não é o que ele precisa ouvir.” O médico olhou-o fixamente. Diogo desviou o olhar e levantou-se, caminhando até à janela. Lá fora, o jardim estava cheio de folhas secas. A chuva da noite anterior ainda escorria pelos ramos. “Se eu tivesse ouvido a Ana naquele dia…”
Ela dissera que tinha um mau pressentimento, mas ele insistira. Queria mostrar-lhe o projeto. Fechou os olhos. A memória voltou, nítida e cortante. O barulho do metal, o grito, o silêncio depois da queda. “Diogo”, o médico falou suave. “Acidentes acontecem.” “Não quando a culpa é minha.” A voz dele ecoou pelas paredes. Por um momento, o pai rico parecia uma criança.
O Dr. Carvalho ajustou os óculos. “O senhor está preso na culpa, e enquanto não se perdoar, o seu filho vai continuar a refletir isso. Crianças sentem o que sentimos. Se o senhor não consegue olhar para ele sem dor, ele vai acreditar que olhar para si dói.” Diogo sentou-se devagar, o corpo sem forças. “E se eu não conseguir?”
“Então vai perder os dois. A esposa que já se foi e o filho que ainda está aqui.” O tempo parou. Quando o médico saiu, Diogo subiu para o quarto. O sol da tarde entrava suave pelas cortinas, riscando o chão de madeira com luz dourada. João ainda estava deitado, olhos fixos no teto.
Diogo aproximou-se, arrastando os pés. “Filho…”, a voz saiu como um sopro. “Eu estou aqui, tá? Não vou embora.” Sentou-se no chão ao lado do berço e ficou ali, olhando cada respiração curta. Estendeu a mão pelas grades, tocando levemente o cobertor. “O pai está aqui.”
Os olhos de João moveram-se, lentos, quase imperceptíveis, na direção da voz. O coração de Diogo falhou uma batida. Mas o menino voltou a olhar para o nada. Diogo encostou a cabeça no berço e ficou assim, imóvel. Lá fora, a chuva voltou a cair, fina e constante, como se o céu também não soubesse parar de chorar.
O quarto inteiro cheirava a tristeza antiga. Ele respirou fundo. “Fique perto mesmo assim.” A voz do médico ecoava. Diogo fechou os olhos, sentindo o frio do chão atravessar-lhe o corpo. E, pela primeira vez desde o acidente, não tentou controlar nada. Apenas ficou ali.
A seringa vazia rolou e parou junto ao pé da cama. O som do relógio voltou a marcar o tempo. Tic tac tic tac. Um raio de luz entrou pela fresta da cortina e iluminou um guardanapo esquecido ao lado do berço, manchado de azeite e uma lágrima seca.
Diogo olhou para aquele pedaço de pano e sentiu um frêmito. Não sabia ainda, mas aquela nesga de luz, aquele resto de um gesto humano, seria o primeiro sinal de que algo estava prestes a mudar.
(Continuação adaptada conforme a versão original.)