Num boteco qualquer, uma criança mudou tudo com uma única pergunta

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PARTE 1: A Proposta

Acostumas-te aos olhares. É a primeira coisa que aprendes quando entras para um clube. Aprendes que, para o resto do mundo, já não és uma pessoa. És uma estatística. És uma ameaça. És a razão pela qual fecham as portas do carro quando paras no semáforo.

Estava sentado no Café do Zé, ali perto da EN-125 no Algarve, a tentar disfrutar de um café tão amargo que parecia borracha queimada e de uma fatia de bolo de bolacha que devia ter sido feito na semana passada. Eram cerca das duas da tarde de uma terça-feira. O sítio estava calmo—apenas o zumbido do frigorífico atrás do balcão e o murmúrio de dois camionistas no fundo da sala.

Eu ocupava espaço. Sei disso. Tenho um metro e noventa, cem quilos de barba e problemas, com um colete que grita “afasta-te” aos bons cidadãos. O capacete estava em cima da mesa, riscado e cheio de autocolantes de todos os bares de má fama entre Faro e Lisboa. Não estava à procura de confusão. Só queria cafeína.

Mas o ambiente mudou no segundo em que a campainha da porta tocou.

Não era a polícia. Não era um rival.

Era uma menina. Não devia ter mais de seis anos. Estava vestida com um vestido cor-de-rosa já meio gasto, com manchas de terra na bainha, e sapatilhas com a velcro a descolar. O cabelo era uma confusão de madeixas loiras, como se tivesse corrido contra o vento.

O café ficou em silêncio. Daqueles silêncios que até se ouve uma mosca a pensar. A empregada, uma senhora simpática chamada Amélia que me servia café sem olhar nos olhos, congelou a meio do gesto. Os camionistas pararam de mastigar.

A menina ficou parada na entrada, a olhar à volta. Os olhos eram grandes, azuis e cheios de medo. Mas havia mais qualquer coisa neles. Determinação.

Olhou para os camionistas e abanou a cabeça. Olhou para o homem de fato a comer uma salada no canto. Abanou a cabeça outra vez.

Depois, os olhos dela prenderam-se em mim.

Suspirei por dentro. Ótimo. Lá vem ela. Vai perguntar onde fica a casa de banho, e a mãe vai aparecer a gritar porque olhei para a filha dela.

Mas ela não perguntou pela casa de banho.

Começou a caminhar. Um pé à frente do outro, marchando direitinha pelo chão de mosaico. Estava a ir direita ao motard assustador no canto.

“Querida, não incomodes o senhor,” sussurrou a Amélia, a voz a tremer um pouco.

A menina ignorou-a. Chegou à minha mesa. Era tão pequena que o nariz mal passava da borda da mesa. Baixei devagar a chávena de café, a olhar para ela por cima dos óculos de sol. Não sorri. Não franzi a testa. Só esperei.

Ela enfiou a mãozinha no bolso e tirou um punhado de qualquer coisa. Atirou-a para cima da mesa, ao lado do bolo.

Era uma nota de cinco euros, duas moedas de cinquenta cêntimos e um cêntimo.

Olhou-me nos olhos, o queixo a tremer, a tentar tanto ser corajosa.

“És dos Satãs de Ferro?” perguntou. A voz era fina e estridente, mas alta o suficiente para todos ouvirem.

Recostei-me, o couro do colete a ranger. “Ando com um clube, pequenina. Porquê?”

“O meu pai diz que vocês são os maus da fita,” disse ela. “Diz que batem nas pessoas e que ninguém vos chateia.”

Senti um músculo na mandíbula a contrair-se. “O teu pai fala demais.”

“Ele diz que vocês são monstros,” continuou ela, com lágrimas a encherem aqueles olhos azuis. “Diz que toda a gente tem medo de vocês.”

Olhei à volta. Os camionistas estavam a observar. A Amélia agarrava a cafeteira como se fosse uma arma. Sim, toda a gente tinha medo.

“O que é que queres, miúda?” perguntei, a voz rouca. “Estou a comer.”

Ela empurrou o dinheiro amassado na minha direção.

“Quero contratar-te,” disse.

Eu pestanejei. “Contratar-me?”

“Cinco euros e um cêntimo,” apontou para o monte. “É tudo o que tenho. Chega?”

“Chega para quê?”

Ela respirou fundo, a tremer. “Para me levares a casa.”

Franzi a testa. “Onde é que moras?”

“A três quarteirões daqui.”

“Porque é que não vais sozinha? Ou chamas os teus pais?”

Ela olhou para as sapatilhas. “Não posso ir sozinha. Ele está lá.”

O ar no café pareceu ficar dez graus mais frio.

“Quem está lá?” perguntei, a voz baixa, só para ela ouvir.

“O homem mau,” sussurrou ela. “O meu padrasto. Ele está… a partir coisas outra vez. A minha mãe está a chorar. E ele disse que se eu voltasse para dentro, ia dar-me uma lição.”

O meu sangue gelou. Daquele gelo que queima.

“Ele trancou-te cá fora?”

“Não,” limpou o nariz. “Fugi. Mas esqueci-me do Urso. E a minha mãe precisa de mim. Tenho de voltar. Mas estou com medo. Preciso de um monstro.”

Olhou para mim, as lágrimas agora a correr.

“Preciso de um monstro para assustar o homem mau. Por favor. Dou-te todo o meu dinheiro.”

Olhei para os cinco euros. Olhei para o rosto assustado dela. Olhei para os olhares julgadores dos outros clientes, que não faziam ideia do que a menina estava a pedir.

Levantei-me.

A cadeira rangeu no chão. Fiquei pairando sobre ela. A Amélia suspirou atrás do balcão, a mão a tremer perto do telefone, provavelmente para ligar para o 112.

Estendi a mão—uma mão do tamanho de um presunto, tatuada nos nós dos dedos. Empurrei o dinheiro de volta para ela.

“Fica com o teu dinheiro, miúda,” resmunguei.

O rosto dela desfez-se. Parecia que o mundo tinha acabado. “Não chega?”

Peguei no capacete. Tirei os óculos de sol para ela ver os meus olhos.

“Não é pelo dinheiro,” disse. “Não se contrata um motard com dinheiro. Contrata-se com respeito. E tu mostraste mais coragem do que qualquer homem nesta sala.”

Saí do banco e olhei para ela.

“Vamos buscar o Urso.”

PARTE 2: A Caminhada

Deixei uma nota de vinte euros em cima da mesa pelo bolo que não acabei e caminhei para a porta. A menina, que descobri chamar-se Beatriz, correu para acompanhar o meu passo largo.

Ao sairmos do café, o calor do Algarve à tarde abraçou-nos. A minha mota, uma Harley-Davidson toda chique, brilhava ao sol.

“Vamos de mota?” perguntou, a olhar para a máquina com admiração.

“Hoje não,” disse. “Vamos a pé. Quero que ele nos veja chegar.”

Aquela caminhada foram os três quarteirões mais longos da minha vida. A Beatriz esticou a mão e agarrou a minha. A mãozinha dela desaparecia na minha palma. A luva de couro era áspera; a pele dela, macia. O contraste era ridículo. Um motard gigante de barba a dar a mãoA Beatriz sorriu, apertou a minha mão com força, e juntos caminhámos em direção à casa onde, naquela tarde, um monstro aprendeu que até os mais pequenos heróis podem trazer os maiores medos.

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