*Diário Pessoal*
Hoje devia ser o dia mais feliz da minha vida. Mas tudo mudou na porta da igreja.
Uma menina sem-teto me parou. “Não case com ela”, disse, com uma palavra que só a minha noiva e o advogado conheciam. A igreja parecia saída de um postal português – pedra antiga, sinos silenciosos, flores brancas alinhadas como se o mundo tivesse a obrigação de parecer perfeito. Lá fora, um tapete claro marcava o caminho para Eduardo Marques, o milionário que todos vinham observar, não celebrar.
Dava para ver nos telemóveis levantados, nos sussurros, na maneira como os convidados sorriam sem mover os olhos. Eduardo chegou com um fato escuro impecável, o nó da gravata perfeito, o relógio caro aparecendo apenas um pouco. Caminhava como quem está acostumado a que o espaço se abra à sua frente. Ao lado, dois seguranças discretos.
Atrás dele, uma carrinha com vidros fumados e um ramo de flores que custava mais que o aluguer de um mês de qualquer um dos que assistiam do passeio. O ar cheirava a incenso e perfume caro. E, no meio daquilo tudo, como uma mancha incómoda na cena perfeita, estava ela – uma menina magra, cabelo despenteado, um casaco demasiado grande e sapatos gastos.
Não devia ter mais de 11 ou 12 anos. As mãos sujas, o rosto marcado pelo sol e pela fome. Estava encostada à parede, perto da porta, quase invisível, até decidir não ser. Quando Eduardo estava a um passo de entrar, a menina lançou-se à frente com uma urgência que não pedia licença.
“Não case com ela”, gritou.
O tempo partiu-se. Os convidados viraram-se como um só corpo. Ouviu-se um “ai” abafado, murmúrios a crescerem, o clique nervoso de telemóveis a gravar. Os seguranças reagiram no automático, como se a menina fosse uma ameaça armada. “Afasta-te”, rosnou um, estendendo o braço. Eduardo ficou parado, não por compaixão, mas por choque.
Aquela frase não era um pedido. Era uma bomba.
“O quê?”, conseguiu dizer, olhando para a menina como se ela fosse algo fora do lugar. O segurança agarrou-a pelo braço para a afastar. Ela não chorou, não suplicou, apenas agarrou-se ao casaco de Eduardo com a outra mão, puxando-o com uma força desesperada. “Não”, disse, com os olhos fixos nele. “Se entrares, já não sais o mesmo.”
“Chega”, rosnou o segurança, apertando mais forte. Eduardo franziu o sobrolho. “Larga-a”, ordenou, seco. O segurança hesitou, surpreendido, e afrouxou um pouco. A menina aproveitou o momento. “Ouve-me”, disse, engolindo o medo. “Não cases com ela. É uma armadilha.”
Eduardo deu uma risada curta, incrédulo, mais por reflexo do que por crueldade. “Uma armadilha. Repetiu. O que é que tu sabes da minha vida?”
A menina apertou os lábios e olhou-o nos olhos sem baixar a cabeça. “Sei o que ouvi”, disse. “Sei o que eles disseram.”
Eduardo inclinou-se levemente, irritado. “Quem?”
Ela apontou com o queixo para o interior da igreja, onde uma melodia suave e o movimento de fotógrafos se destacavam. “Ela… e o advogado.”
Agora, Eduardo soltou um suspiro impaciente. O dia já estava cheio de pressão, de câmaras, de acordos disfarçados de amor. A última coisa de que precisava era de um escândalo. “Olha, miúda”, começou, com a voz de um homem que acha que pode resolver tudo com dinheiro. Meteu a mão no bolso, tirou um punhado de notas e estendeu-as sem delicadeza. “Toma, come qualquer coisa e vai-te embora.”
A menina nem sequer olhou para o dinheiro. “Não quero o teu dinheiro”, disse com uma firmeza que deixou muitos boquiabertos. “Quero que não entres.”
Os convidados murmuravam mais alto. Alguém sussurrou: “Quem a deixou entrar?” Outro: “Que vergonha.”
E então, como se a vida insistisse em humilhá-la mais, a porta da igreja abriu-se e apareceu a noiva – Carlota Almeida. Um vestido branco impecável, sorriso ensaiado, maquilhagem perfeita. Caminhava com calma, como se o caos lá fora não existisse. Ao seu lado, uma mulher mais velha ajustava-lhe o véu, e um homem com uma pasta de couro debaixo do braço, fato cinzento, expressão fria. O advogado.
Carlota olhou para a cena e sorriu, como se estivesse a assistir a uma peça de teatro de mau gosto. “Amor”, disse com uma voz doce para o público, “está tudo bem?”
Eduardo sentiu o ar pesado. A menina ficou tensa ao ver Carlota. Os seus dedos sujos agarraram-se outra vez ao casaco do milionário, como se aquela fosse a sua última oportunidade. “É ela”, sussurrou.
Carlota deu um passo delicado e olhou para a menina com uma falsa compaixão. “Pobrezinha”, disse. “Alguém pode ajudá-la? Não quero escândalos num dia tão importante.”
O segurança voltou a estender o braço. Eduardo levantou a mão. “Espera.”
Carlota olhou para ele, com uma sombra de irritação bem escondida. “Eduardo, não.”
A menina interrompeu com algo que não foi um grito, mas uma palavra-chave. “Cláusula espelho”, disse, tremendo.
Eduardo ficou gelado. Não pela frase em si, mas porque aquelas palavras não eram da rua, nem do parque, nem de conversas normais. “Cláusula espelho” era um termo que só ouvira uma vez, numa sala privada, quando o advogado lhe explicara um documento para “protegê-lo”.
Eduardo virou lentamente a cabeça para o homem da pasta. O advogado não mudou de expressão, mas os olhos endureceram. Carlota piscou. O sorriso tensou um milímetro. Eduardo sentiu um frio a percorrer-lhe as costas.
“Quem te disse isso?”, perguntou Eduardo, baixando a voz.
A menina engoliu em seco, olhando para Carlota como se visse um monstro de vestido branco. “Foi ela”, sussurrou. “Ela disse: ‘Assim que ele assinar, activamos a cláusula espelho e já não pode sair.'”
O murmúrio tornou-se ruído. Carlota avançou rápido, com voz doce, mas já com um fio de lâmina. “Que absurdo!”, disse, rindo-se. “Amor, é uma criança, está confusa. Deve ter ouvido qualquer coisa na televisão.”
O advogado limpou a garganta. “Sr. Marques, este não é o momento para distracções”, disse. “A imprensa está lá fora. O protocolo…”
Eduardo não olhou para os convidados. Olhou para a menina. E nos seus olhos sujos da rua, não viu extorsão – viu urgência real.
“Onde ouviste isso?”, perguntou baixo e sério.
A menina apontou para o lado da igreja. “Na sacristia”, disse. “Ontem. Eu… durmo por aqui. A porta estava entreaberta e eles estavam a falar.”
Carlota deu mais um passo. Agora, verdadeiramente irritada. “Ontem?”, repetiu. “O que fazia uma criança ali?”
A menina não recuou. “O mesmo que faço sempre”, respondeu. “Sobreviver.”
O segurança voltEduardo olhou para Carlota, depois para a menina, e num instante de clareza que lhe arrancou o véu da ilusão, puxou a aliança do dedo e disse, simplesmente: “Não vou casar.”, deixando cair o anel no chão com um tilintar que ecoou mais alto do que qualquer palavra.