Na Véspera de Natal, No Seu Último Dia como Babá, a Filha Muda do Rico Sussurrou ‘Mãe’

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**Diário de Isabela Mendes**

Nunca imaginei que a véspera de Natal seria o último dia que passaria dentro da mansão dos Albuquerque.

Naquela manhã, o frio do inverno em Lisboa entrava silenciosamente pelas janelas altas enquanto eu amassava bolinhos de mel no formato de corações. Minhas mãos trabalhavam por hábito, quase sem pensar. Fazia esses mesmos biscoitos todos os Natais há quatro anos—porque eram os únicos que Sofia comia.

Lá fora, a cidade brilhava com luzes festivas. Dentro da mansão, os empregados movimentavam-se de um lado para o outro, preparando uma ceia luxuosa.

Mas, para mim, a casa parecia vazia.

Desolada.

Pesada.

Porque eu sabia algo que ninguém mais sabia.

Às 23h59, o meu tempo ali terminaria.

**A Carta Que Mudou Tudo**
A carta chegou três dias antes.

Papel fino, assinatura perfeita no final.

Gustavo Albuquerque.

Meu patrão.

Pai de Sofia.

A carta informava, em linguagem formal, que os meus serviços como ama da Sofia não seriam mais necessários. Meu contrato terminaria no dia 24 de dezembro, às 23h59.

Sem explicação.

Sem conversa.

Apenas um fim.

Li-a no corredor, encostada à parede, como se as palavras tivessem arrancado o ar dos meus pulmões.

Quatro anos.

Quatro anos de noites sem dormir.

Quatro anos ao lado de uma cama, segurando uma criança que tremia de pesadelos que nunca conseguia explicar.

Quatro anos aprendendo a amar sem ouvir uma única palavra em troca.

E acabava com uma assinatura.

Sofia ficara muda depois da noite em que a mãe morrera num acidente de carro. Os médicos chamaram de mudez traumática. Os terapeutas tentaram de tudo. Especialistas vieram e se foram. Nada funcionou.

Até eu chegar.

Não com pressão.

Não com medo.

Mas com paciência.

Com carinho.

Com amor.

Aos poucos, Sofia mudou.

Sorria mais.

Dormia.

Parou de se esconder.

Mas agora eu estava sendo apagada—silenciosamente—como se nunca tivesse importado.

**A Mulher Que Me Substituiu**
Naquela tarde, a porta abriu.

E Catarina Barros entrou.

Era bela de um jeito que exigia atenção—cabelo perfeito, postura impecável, saltos que ecoavam no mármore. Andava como se a casa já lhe pertencesse.

Mal olhou para Sofia.

Seus olhos fixaram-se em mim.

*Preciso que tires as tuas coisas do quarto de serviço,* disse, friamente. *Gustavo e eu decidimos que a casa precisa de… uma renovação.*

Renovação.

Como se quatro anos de dedicação pudessem ser apagados com um novo papel de parede.

Sofia congelou.

Suas mãozinhas apertaram a minha perna, os olhos cheios de medo.

Algo rachou dentro de mim—mas eu concordei.

Porque já sabia.

Isto era um adeus.

**Um Aviso do Passado**
Mais tarde, tive uma visita inesperada.

Dona Mariazinha.

A avó de Gustavo.

A senhora observava Sofia com olhos tristes.

*O Gustavo está a fugir,* sussurrou. *A fugir da dor. Da culpa.*

Engoli em seco.

*Ele está a destruir tudo o que construíste com aquela criança,* continuou. *Tu tens o que ele perdeu há anos—a coragem de sentir sem medo. E isso assusta-o.*

Olhei para Sofia, que desenhava círculos no chão com o dedo.

*Não posso ficar,* murmurei.

Dona Mariazinha apertou a minha mão.

*Eu sei.*

**A Primeira Palavra**
Naquela noite, fiz as malas.

Cada peça de roupa dobrada era uma traição.

Quando Sofia viu a mala, o pânilico prendeu-lhe o rosto.

A respiração acelerou.

As mãos tremeram.

Então, pela primeira vez em quatro anos, Sofia falou.

—Tu… mentiste.

Uma palavra.

Clara.

Partida.

Devastadora.

Caí de joelhos, lágrimas escorrendo.

Eu prometera que não ia embora.

E agora, ia.

**Véspera de Natal**
Enquanto a mansão se preparava para a festa, levei Sofia ao jardim pela última vez.

O frio cortava a pele.

Sofia ajoelhou-se na terra, escrevendo o meu nome repetidamente com o dedo.

Os lábios tremiam.

E então—mais baixo que o vento—sussurrou:

—Mãe.

A palavra partiu o silêncio.

Eu congelei.

De repente, todos os sacrifícios fizeram sentido.

Todas as noites sem dormir.

Todas as lágrimas engolidas.

Eu sempre fora a mãe dela.

**O Momento Que Mudou Tudo**
Quando voltámos, Catarina esperava.

Mas antes que falasse, Gustavo parou.

Olhou para a filha.

Realmente olhou.

Não como um problema.

Não como uma obrigação.

Mas como uma criança que finalmente encontrara a voz.

E essa voz escolhera-me a mim.

As mãos de Gustavo tremeram.

Avançou devagar.

E então, ajoelhou-se diante de todos.

—Eu errei, disse, voz rouca. —Tu não cuidaste dela. Salvaste-a.

Olhou para Sofia, lágrimas nos olhos.

—A minha filha não precisa de uma ama. PreE no ano seguinte, enquanto Sofia abraçava o seu irmãozinho recém-nascido, percebi que o amor, quando dado sem condições, sempre encontra o seu caminho de volta.

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