Na Noite em que Ele me Bateu pela Última Vez, Não Fugi — Preparei a Mesa para Três

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Na noite em que o meu marido me bateu pela última vez, não gritei, não fiz as malas às pressas, nem revidei. Fiquei em silêncio. Um silêncio profundo, talvez até assustador. Caminhei pelo corredor da nossa casinha num subúrbio de Lisboa, fechei a porta do quarto com cuidado, como se tentasse não acordar uma criança, e deitei-me na minha cama, ainda vestida.

Ao meu lado, o candeeiro da mesinha de cabeceira projetava um círculo suave de luz sobre uma foto de casamento emoldurada, os meus óculos de leitura e um livro da biblioteca com dias de atraso. A casa estava calma. O aquecimento central acionou-se com o seu gemido habitual, espalhando ar quente como se nada tivesse acontecido. Lá fora, um cão ladrou e uma porta de carro bateu. Sons normais, numa noite que mudou tudo.

A minha face latejava onde a mão dele atingira. Não era a primeira vez, nem sequer a pior. Esse era o detalhe mais assustador. Tornara-se algo que “às vezes acontecia” em nossa casa, como uma torneira que pinga ou uma porta que emperra no verão. Um empurrão ali, um puxão acolá, uma bofetada quando o temperamento dele ultrapassava o juízo, e as desculpas mal conseguiam acompanhar.

No início, essas desculpas soavam como promessas. *”Nunca mais vai acontecer.” “Perdi a cabeça.” “Sabes que te amo.”* Com o tempo, viraram justificativas. *”Tu provocas-me.” “Sabes o stress que eu tenho.” “Qualquer homem ficaria irritado.”*

Naquela noite, ele não se desculpou logo. Ficámos na cozinha, com a luz fluorescente a zumbir e a pia cheia de loiça. A discussão começara por uma conta atrasada, como sempre, e transformou-se num rol dos meus defeitos: *”Desleixada, emocional demais, muito apegada à família, pouco parceira, respondes quando devias ouvir.”*

A mão dele voou antes mesmo que ele parecesse perceber. A minha cabeça virou-se de lado. Os meus olhos encheram-se de lágrimas, não só da dor física, mas de algo mais profundo, como uma barreira a rachar dentro de mim. Por um instante, os dois congelámos. O rosto dele ficou vazio, depois culpado, depois defensivo.

*”Tu provocas-me.”*

Não respondi. Não perguntei porquê, ou como ele podia, ou o que eu fiz para merecer. Só olhei para o mármore da bancada, para um resto de molho de tomate perto do fogão, e algo dentro de mim, que andava a dobrar-se há anos, finalmente parou de se mexer.

Virei-me, passei por ele e fui para a cama.

Ele apareceu minutos depois, resmungando palavras que flutuavam no ar sem chegarem a lugar nenhum: *”Exageras…”, “Estou cansado…”, “Semana difícil…”, “O teu tom de voz.”* O colchão afundou sob o peso dele. Deitou-se de costas para mim e, em meia hora, o ronco pesado começou.

Fiquei acordada, a olhar para o relógio digital no cómoda, vendo os números vermelhos saltarem das 23:47 para as 00:03 e depois para as 1:18. Às 1:34, estiquei o braço por cima dele, com cuidado para não o acordar, e peguei no telemóvel que estava a carregar na mesinha dele.

A minha mão tremia enquanto abria as mensagens. Desci até ao contacto que nunca apaguei, mesmo quando o Daniel se queixava de que o meu irmão era *”intrometido demais.”*

**João Santos.**

O meu irmão mais velho. Aquele que me levava à escola no inverno, com a mão dele a envolver a minha dentro da luva. O que ajudou a carregar as minhas caixas para esta mesma casa quando a comprámos, a brincar que *”vinha cá tão vezes que até podia ter chave própria.”* O que, no meu casamento, puxou o Daniel de lado e disse algo que eu achara engraçado na altura: *”Se alguma vez lhe pões a mão em cima, eu vou saber. E depois falamos.”*

Durante anos, garanti que ele nunca tivesse de cumprir essa promessa.

Agora, o meu polegar pairou sobre o nome dele, e percebi que, ao calar-me, estivera a proteger a pessoa errada.

Escrevi devagar, apaguei duas vezes antes de enviar:

*Podes vir cá amanhã de manhã? Por favor, não ligues antes. Apenas aparece. Preciso de ti.*

O status mudou de *”entregue”* para *”lido.”* Ele estava acordado. Um segundo depois, a resposta chegou:

*Estarei aí às 7h. Não te preocupes com mais nada esta noite.*

Deitei o telemóvel em cima da mesa e virei-me de costas. As lágrimas escorriam para o cabelo, molhando a almofada em silêncio. Olhei para as fissuras no teto e pensei em como grande parte da minha vida era assim—pequenas rachaduras que ignorei porque o telhado ainda não tinha caído.

A certa altura, o corpo pediu descanso e levou-me com ele.

Quando acordei, o quarto estava cinzento com a luz da manhã. Virei a cabeça devagar. O Daniel ainda dormia ao meu lado, a boca entreaberta, o hálito azedo da cerveja da noite passada. A raiva que costumava arder no meu peito não estava lá. Havia outra coisa—calma, fria, como pisar chão firme depois de anos a andar sobre gelo.

Saí da cama, vesti umas calças de fato de treino e um casaco acinzentado, e desci o corredor de meias grossas. A casa estava quieta, daquele jeito peculiar que acontece antes de uma tempestade… ou de uma decisão.

Na cozinha, acendi a luz e parei um momento, só a ouvir o zumbido do frigorífico, o sopro discreto do aquecimento e o tique-taque do relógio em cima do fogão. Este era o meu território, o lugar onde cozinhei incontáveis refeições para um homem que alternava entre elogiar a minha comida e criticar o meu tempo, o tempero, a suposta bagunça que eu deixava.

Naquela manhã, fiz o pequeno-almoço como se estivesse a receber um convidado—porque estava.

Peguei no saco de farinha, nos ovos, no leite. Bati a massa na taça azul que a minha mãe me dera quando me mudei. Juntei baunilha e uma pitada de canela, como o Daniel gostava. Aqueci a chapa, ouvi o chiado da massa e vi as bolhas a formarem-se em cada panqueca.

Fritei bacon até ficar crocante, enchendo a casa com aquele cheiro salgado tão familiar. Descasquei laranjas, lavei morangos e arrumei-os num círculo num prato. Fiz café como ele preferia—forte, com um fio de leite e exatamente uma colher de açúcar.

Parecia quase antinatural preparar um pequeno-almoço tão caprichado para um homem que me magoara menos de doze horas antes. Mas, com cada movimento—partir os ovos, virar as panquecas, dobrar os guardanapos—a minha mente acalmava.

Aquela refeição não era um pedido de paz. Era um ponto final numa frase longa e distorcida.

Às 6:52, os faróis de um carro iluminaram brevemente a janela da frente. Enxuguei as mãos num pano e fui até à porta, espreitando pelo vidro lateral. A velha carrinha doE quando o João entrou na cozinha, de pé diante da mesa posta com três lugares, os olhos do Daniel congelaram no instante em que percebeu que o silêncio daquela manhã não era rendição, mas sim o começo do fim.

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