A luz não foi um anúncio repentino, mas um derramar lento, um ouro líquido que se espalhou sobre as silhuetas escuras dos plátanos na borda leste do Parque das Amendoeiras. Era o tipo de manhã que parecia antiga e nova ao mesmo tempo, o ar fresco e limpo contra a pele, carregando o leve cheiro resinoso dos pinheiros e o perfume mais profundo da terra molhada. O orvalho agarrava-se a cada folha de grama, como milhões de pequenas lentes, cada uma refletindo uma imagem perfeita e invertida do amanhecer. A cidade, a apenas alguns quarteirões dali, ainda era um zumbido distante, um gigante adormecido prestes a despertar. Ali, dentro dos portões de ferro do parque, os únicos sons eram os que pertenciam ao lugar: o chilrear alegre e territorial dos pardais nos arbustos, o leve respingo da fonte central e o sussurro dos tênis de um corredor solitário no caminho de pedra.
Era uma manhã que não prometia nada além de seu próprio desenrolar tranquilo.
No coração dessa tranquilidade, em um banco desgastado por um cinza prateado, estava Artur Lopes. Ele vestia um casaco verde desbotado, daqueles que parecem carregar mais histórias do que os bolsos jamais poderiam conter, e um simples boné puxado sobre os olhos. Ao seu lado, uma pequena garrafa térmica de aço amassado repousava sobre as tábuas de madeira, sua presença um testemunho de rotina. Para um observador casual, ele parecia qualquer um dos milhares de avôs buscando um momento de paz antes do mundo acordar. Um homem satisfeito em observar os esquilos perseguirem-se em padrões frenéticos pelo tronco de um carvalho nodoso, um leve sorriso tocando seus lábios.
Mas havia uma quietude nele que era diferente. Não era a quietude da idade ou do cansaço, mas de disciplina. Sua coluna estava reta, não com a rigidez do orgulho, mas com o alinhamento de um corpo que há muito aprendera a se controlar, a esperar, a observar. Suas mãos, repousadas no colo, eram um mapa de uma vida vivida ao ar livre. Os nós dos dedos eram grossos, a pele um emaranhado de cicatrizes pálidas e manchas escuras de sol. Eram mãos que conheciam trabalho, propósito e o peso constante da responsabilidade.
Poucos notariam os detalhes quase invisíveis. No braço esquerdo do casaco, logo abaixo do ombro, havia um pedaço de tecido mais escuro onde um emblema certa vez fora costurado. Os fios haviam desaparecido, mas o sol deixara uma silhueta fantasmagórica, uma forma que décadas de chuva e luz não conseguiram apagar completamente. Quando ele levou a garrafa térmica aos lábios para um gole lento e contemplativo de café, a manga desgastada do casaco deslizou um pouco, revelando um pulso ainda forte, e um aperto firme e seguro. De vez em quando, sua mão direita mergulhava naO sol da manhã banhava o parque enquanto Artur e o pastor alemão trocavam um olhar que transcendia o tempo, um silêncio perfeito entre dois velhos soldados que, afinal, ainda se reconheciam.