Motociclistas Bloquearam a Ambulância do Meu Filho e o que Fizeram Ainda Me Persegue

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Os motociclistas bloquearam a ambulância que levava o meu filho à beira da morte, e eu gritei para que saíssem da frente até perceber o que realmente estavam a fazer.

Sete motos cercaram-nos na A1 enquanto o meu filho de catorze anos, João, agonizava na maca. Bati na janela, praguejei, rezei, implorei a Deus que os afastasse.

Então vi-os abrirem caminho à nossa frente, como uma formação militar.

Vinte minutos antes, o João devia estar no treino de futebol. Mas um condutor distraído passou um sinal vermelho a mais de oitenta quilômetros por hora e embateu contra o meu Fiat Punto pelo lado do passageiro. Exatamente onde ele estava sentado.

Não me lembro do choque. Lembro-me do silêncio que se seguiu. Aquele silêncio horrível antes de começarem os gritos.

“Mãe.” A voz do João estava molhada, cheia de líquido. “Mãe, não consigo respirar.”

Olhei para ele e vi o meu filho coberto de sangue. Vidros espalhados por todo o lado. A porta do passageiro amassada como uma lata de refrigerante. Os olhos dele, enormes e cheios de terror.

“Fica acordado, meu amor. Fica comigo. A ajuda já vem.”

Os paramédicos chegaram em seis minutos. Pareceram seis horas. Tiraram o João dos destroços e colocaram-no na ambulância. Um deles olhou para mim com uma expressão que nunca esquecerei. A expressão de quem não tinha certeza de que o meu filho sobreviveria até ao hospital.

“Senhora, pode vir connosco, mas tem de ficar fora do caminho.”

Entrei e encostei-me à parede. Observei-os a tratar dele. Compressões torácicas. Soros. Máscara de oxigénio. Tanto sangue. Mais sangue do que pensei que um corpo pudesse conter.

“Estamos a perdê-lo,” disse um paramédico. “A pressão está a cair. Temos de andar mais depressa.”

O motorista ligou as sirenes. Arrancámos em frente. Pela pequena janela traseira, via o trânsito à nossa frente. Hora de ponta. Carros por todo o lado. Ninguém a abrir caminho.

“Vamos, vamos,” murmurou o motorista. A frustração dele era palpável.

Foi então que vi as motos.

Primeiro, apareceu apenas uma. Uma Harley preta enorme que surgiu ao lado da ambulância. O motociclista era gigante. Colete de couro, barba longa, tatuagens a cobrir-lhe os braços. Olhou para a ambulância, depois para o trânsito, e acelerou à nossa frente.

Em segundos, havia mais. Duas, três, cinco, sete motos que surgiram como se tivessem saído do nada. Cercaram a ambulância como uma barreira protetora.

“Que raio?” disse o motorista.

Eu não entendia. A minha mente estava turva de terror. Tudo o que via era o meu filho a morrer e aqueles motociclistas a rodearem-nos, a atrasar-nos.

“Saiam da frente!” gritei. Bati na janela. “O meu filho está a morrer!”

Eles não saíram.

Avançaram.

O líder acelerou, posicionando-se à frente de um carro que não cedia passagem. O ruído da mota ecoou mais alto que as sirenes. O condutor assustou-se e encostou.

Outros dois motociclistas abriram caminho pelo lado esquerdo, forçando os carros a encostar. Mais dois fizeram o mesmo à direita. Os restantes ficaram atrás da ambulância, impedindo que alguém a ultrapassasse.

Não estavam a bloquear-nos.

Estavam a abrir-nos o caminho.

“Nossa Senhora,” murmurou o motorista. “Eles estão a limpar a estrada.”

Observei pela janela enquanto os motociclistas abriam uma passagem no trânsito como Moisés a dividir o Mar Vermelho. Carros que não se mexiam com as sirenes, encostavam perante sete motos rugindo e apontando para o lado.

A ambulância acelerou. Trinta, quarenta, cinquenta quilómetros por hora.

Atravessámos cruzamentos a todo o gás. As motos chegavam primeiro, travando o tráfego com os seus corpos e máquinas. Buzinas, insultos—eles ignoraram tudo.

“A pressão está a estabilizar,” disse um paramédico. “Acho que vamos conseguir.”

Entrámos na A1, e o trânsito piorou. Hora de ponta, filas intermináveis. Normalmente, este percurso demorava vinte minutos.

Os motociclistas não hesitaram.

O líder, o gigante de barba longa, aproximou-se do primeiro carro que bloqueava a via. Bateu na janela do condutor, apontou para a ambulância. O homem ficou pálido e encostou tão rápido que quase bateu no guardrail.

Um a um, os carros foram cedendo. Alguns imediatamente. Outros precisaram de ser convencidos.

“Três minutos,” anunciou o motorista. “Vamos conseguir.”

Os olhos do João abriram-se. Ele fitou-me, assustado, com dor. “Mãe?”

“Estou aqui, filho. Já chegamos. Vais ficar bem.”

“Não quero morrer.”

Agarrei-lhe a mão. Apertei com força. “Não vais morrer. Não permito.”

A ambulância parou em frente às urgências. As portas abriram-se. Médicos e enfermeiros cercaram o João. Levaram-no para dentro antes que eu pudesse segui-lo.

“Senhora, tem de esperar aqui.”

Desabei contra a parede. As minhas pernas já não me sustentavam.

Foi então que me lembrei deles.

Olhei para o estacionamento. Estavam lá. Todos os sete, parados perto da entrada. Não iam embora. Estavam junto às motos, observando as portas do hospital.

Aproximei-me, cambaleante.

O líder viu-me. Chegou-se à frente. De perto, era ainda mais intimidante. Dois metros de altura, braços grossos como troncos, a barba até ao peito.

“E o miúdo?” A voz era suave, muito mais suave do que esperava.

“Está lá dentro. Ainda não sei.” Tremia. “Porque fizeram isto? Como souberam?”

“Rádio,” respondeu outro, mais baixo, com um rabo-de-cavalo grisalho. “Estávamos a passar perto do acidente. Ouvimos o chamado. Trauma pediátrico, hemorragia interna, trânsito caótico. Sabíamos que a ambulância não chegaria a tempo.”

“Por isso garantimos que chegasse,” completou o líder.

Eram sete estranhos. Sete homens de aparência dura que arriscaram a vida—multas, acidentes—por um miúdo que não conheciam.

“Não vos conhecemos. Não conhecem o meu filho.”

O líder sorriu, triste. “Não precisamos de conhecê-lo, senhora. Ele é filho de alguém. Isso chega.”

“Perdi a minha filha há seis anos,” disse outro, mais velho, cicatrizes no rosto e lágrimas nos olhos. “Acidente de carro. A ambulância ficou presa no trânsito. Ela morreu a três quarteirões do hospital.” Limpou os olhos. “Juntei-me ao clube depois disso. Agora, sempre que ouvimos um chamado assim, vamos. Abrimos caminho. Para que nenhum pai passe pelo que eu passei.”

Não consegui responder. Mal respirava.

“Vá para junto do seu filho,” disse o líder. “Nós esperamos aqui até sabermos que ele está bem.”

“Não precisam de—”

“Vá.” A voz era firme, mas gentil.

Entrei.

As quatro horas seguintes foram as mais longas da minha vida. Cirurgia. Sala de espera. NotíE quando finalmente abraçei o meu filho, já seguro e a sorrir, soube que aqueles anjos de couro haviam não só salvo a sua vida, mas também semeado no seu coração a coragem de ser um herói para alguém um dia.

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