**Capítulo 1: O Navio a Afundar**
O exaustor do *Pastelaria Real* rangia como um motor prestes a morrer, cuspindo um ar morno que nada fazia contra o inverno gélido de Braga lá fora. Eu estava atrás do balcão, as mãos vermelhas e gretadas de tanto lavar pratos, fixando a pilha de envelopes vermelhos ao lado da caixa registadora.
*Aviso Final. Vencido. Urgente.*
— Para de olhar para isso, Mafalda. Eles não se pagam sozinhos.
Eu sobressaltei-me ao ouvir a voz de Joana a atravessar a porta de vaivém da cozinha. Não usava avental—nunca usava. Em vez disso, trazia um vestido justo de estampado de onça e um casaco de pele falsa, um visual ridículo para uma tarde de terça-feira. O perfume dela—algo pesado e floral—sufocava o cheiro dos *pastéis de bacalhau* a fritar.
— Só estava a arrumar o correio—respondi baixinho, enrolando uma mecha solta atrás da orelha. — O fornecedor ligou outra vez. Sem mais entregas até pagarmos a conta pendente dos ovos e do leite.
Joana revirou os olhos, conferindo o reflexo no suporte de guardanapos. — Isso não importa, Mafalda. Nada disto importa depois de amanhã.
Um nó gelado apertou-me no estômago. — O que acontece amanhã?
— O investidor—disse, passando um novo batom vermelho. — A firma do senhor Almeida. Vão enviar um representante. Estou a vender o lugar.
— Não podes—sussurrei, as palavras a arranharem-me a garganta. — O pai fez-te prometer. No leito de morte, Joana. Prometeste que guardarias a pastelaria para mim até eu fazer vinte e um anos.
Joana fechou o compacto com um estalo. Os poucos clientes—os habituais, como o senhor Costa no canto—levantaram os olhos dos seus cafés.
— O teu pai vivia num mundo de fantasia—rosnou, inclinando-se sobre o balcão para que só eu sentisse o cheiro a vinho rançoso no seu hálito. — Deixou-me com uma montanha de dívidas médicas e um negócio que mal dá lucro. Eu sou a tutora legal. A executora. E estou farta de ter gordura nas unhas.
Bateu com uma unha pintada no balcão. — Assinamos os papéis amanhã. Levamos o dinheiro. Eu mudo-me para o Algarve. Tu? Tu resolves-te. És nova.
Agarrei o balcão para evitar que as mãos tremessem. Aquele lugar era tudo. Era o canto onde fazia os trabalhos de casa enquanto o pai cozinhava. Era a jukebox onde dançávamos fado quando a casa estava vazia. Era o único sítio onde ainda o sentia vivo.
— Não vou assinar—disse, a voz trémula mas firme. — O meu nome está na escritura também, Joana. O pai pôs-no no testamento. Precisas da minha assinatura.
Os olhos dela estreitaram-se. — Não me desafies, rapariga. Pensas que tens poder? Não tens nada. És uma empregada de dezanove anos com três euros na conta.
Antes que pudesse reagir, a campainha da porta tilintou violentamente. Uma rajada de vento, trazendo flocos de neve e o cheiro a escape, varreu a sala.
Todos se viraram.
Na entrada, estava uma figura que parecia uma tragédia. Um homem idoso, curvado, a tremer tanto que os ossos pareciam chocalhar. Usava um casaco remendado com fita-cinza e botas rasgadas nas pontas, mostrando meias de lã molhadas. A barba emaranhada de gelo, e o rosto cinzento de exaustão.
O silêncio na pastelaria era pesado.
— Ótimo—Joana gemeu alto, erguendo as mãos. — Era mesmo isto que faltava para impressionar os compradores. Um mendigo. Põe-no lá fora, Mafalda.
Olhei para o homem. Não era agressivo. Estava aterrorizado. Olhava para os cantos aquecidos com um anseio que me partia o coração.
— Ele está gelado, Joana—disse.
— Não me importa se é uma estátua de gelo—rosnou. — Isto não é um abrigo. Só clientes que pagam. Põe-no na rua.
Olhei novamente para o homem. Ele deu um passo hesitante, e as pernas falharam. Apoiou-se na ombreira da porta, a respiração entrecortada.
Tomei uma decisão.
— Não—disse.
Joana congelou. — Como é?
— Eu disse não. Saí de trás do balcão, ignorando o choque dela. Aproximei-me do velho. — Senhor? Entre, por favor.
**Capítulo 2: O Preço da Bondade**
O velho olhou para mim com olhos azuis e húmidos, demasiado vivos para alguém tão acabado.
— Eu… não tenho dinheiro, menina—sussurrou, a voz surpreendentemente clara, mas fraca. — Só preciso… de um momento fora do vento.
— Vai ter mais do que isso—disse suavemente, segurando o seu braço gelado. Sentia a magreza dele através dos trapos. — Venha sentar-se no fundo. É perto do aquecedor.
Guiemo-lo entre os clientes. O senhor Costa acenou-me com simpatia, mas a maioria desviou o olhar, incomodada com a invasão da pobreza no seu almoço.
Ele sentou-se e pareceu derreter no calor. As mãos, cobertas de sujidade e cicatrizes, tremiam enquanto as apoiava na mesa.
— Mafalda!—a voz de Joana era agora um guincho. Marchou até nós, os saltos a baterem agressivamente no chão de azulejos. — Estás surda? Disse-te para pôr este lixo fora do meu estabelecimento!
— É o meu turno, Joana—respondi, com uma firmeza que não sabia ter. — Estou a servir um cliente.
— Ele não é cliente! É um sem-abrigo!—Virou-se para o homem, enrolando o lábio no nojo. — Ouça! Saia antes que chame a polícia. Cheira a esgoto.
O homem não reagiu aos insultos. Apenas a observou, estudando o seu rosto com uma intensidade estranha. — Só estou com fome, senhora. Uma tigela de sopa é pedir muito?
— Sim, é!—Joana gritou.
— Eu pago—interrompi. Virei-me para o homem. — Não lhe ligue. Já volto.
Corri para a cozinha, o coração a bater contra as costelas. Peguei numa tigela limpa e enchi-a com a famosa *canja* do pai—espessa, cremosa, a fumegar. Trouxe também pão caseiro e um café preto.
Quando voltei, a tensão na sala era espessa o suficiente para sufocar. Joana estava em pé sobre a mesa, os braços cruzados, o pé a bater. O velho olhava em frente, digno apesar dos insultos.
Coloquei a comida à frente dele. — Aqui tem. Coma. Não tenha pressa.
O homem olhou para mim. Por um instante, desapareceu a fachada do mendigo exausto. Havia uma centelha de algo afiado—inteligência, poder, julgamento—nos seus olhos.
— Tens uma alma generosa, Mafalda—disse baixinho. — O teu pai criou-te bem.
Eu congelei. — Como sabe do meu pai?
— Mafalda!—Joana avançou. Agarrou na tigela de sopa antes que o homem levantasse a colher. — IJoana tentou agarrar a sopa, mas escorregou no chão molhado e caiu de cara no prato do senhor Costa, enquanto o velho sorria, tirando do bolso um cartão de visita com o nome *Arthur Almeida* e o logótipo discretíssimo de um império imobiliário.