Ana Sousa voltou para a casa antiga da avó em Coimbra, dois dias depois do funeral. Os quartos pareciam mais frios do que ela se lembrava, como se o ar soubesse que todo o calor daquela casa tinha desaparecido. Caminhou devagar pela sala de estar, os olhos percorrendo as fotografias de família nas paredes—casamentos, retratos desbotados, festas de aniversário que mal recordava.
A avó, Amélia Sousa, apertara-lhe a mão no hospital e sussurrara as últimas palavras:
*”Ana… olha atrás dos quadros.”*
Na altura, Ana pensou que era o delírio de uma moribunda. Mas o jeito como os olhos de Amélia a fixaram—firmes, urgentes—a assombrava agora.
Aproximou-se do primeiro quadro. As mãos tremiam ligeiramente ao levantá-lo do prego. Nada. Apenas a marca mais clara da pintura na parede. Verificou o seguinte. Novamente, nada. Mas continuou, impulsionada por algo que não sabia nomear—medo, esperança, ou talvez a necessidade de honrar a única pessoa que a protegera.
No oitavo quadro, os dedos tocaram algo colado atrás. Um envelope de papel pardo, selado.
Dentro havia documentos legais bem dobrados. A primeira folha fez-lhe perder o fôlego—uma escritura que transferia para Ana Sousa a propriedade de 4 hectares em Sintra. Datada de quando ela tinha catorze anos. Nunca a vira antes.
O coração batia rápido enquanto puxava um envelope azul menor, também fechado. Na frente, a letra da avó: *”Se algo me acontecer, isto é só para a Ana.”*
Abriu-o.
Dentro, havia um pen drive, uma carta de uma página e uma lista de nomes—incluindo o do pai, Pedro Sousa, a madrasta, Joana, e alguém que não ouvira há quase vinte anos: Sr. Almeida, o professor do secundário que fora despedido depois de “um incidente” com ela. Ana lembrava-se da fúria do pai, dos gritos, da polícia a aparecer—mas fora demasiado nova para entender.
A carta que segurava fez com que caísse no sofá, as pernas moles.
*”Ana, o incidente com o Sr. Almeida não foi o que te contaram. Tenho provas do que aconteceu realmente. Guarda este pen drive. E prepara-te—o teu pai fará tudo para enterrar a verdade.”*
Ana olhou para o pen drive enquanto o medo lhe apertava o peito.
Mal esticou a mão para o portátil, faróis apareceram à janela—o carro do pai.
Ele aproximava-se da casa.
O coração de Ana acelerou quando Pedro Sousa entrou com a chave que nunca devolvera. Olhou em redor, desconfiado.
*”O que estás aqui a fazer sozinha?”* perguntou, esquadrinhando a sala como se esperasse encontrar algo escondido.
Ana forçou a respiração a acalmar. *”Só a arrumar as coisas. A avó deixou muito para trás.”*
Os olhos dele pousaram no pen drive em cima da mesa antes que ela o escondesse. O maxilar apertou-se. *”Onde arranjaste isso?”*
*”Entre as coisas dela”*, respondeu, mantendo o tom neutro.
Ele aproximou-se, a voz baixa. *”Ana… há coisas que é melhor deixares estar.”*
Um nó gelado apertou-se no estômago. O aviso da avó tornou-se dolorosamente real.
Assim que ele subiu as escadas—fingindo *”ver o sótão”*—Ana agarrou no portátil, enfiou o pen drive no bolso e saiu pela porta das traseiras. Dirigiu-se a um café aberto toda a noite e abriu os ficheiros.
Havia gravações. Datas que reconheceu. Noites em que chorara até adormecer. Vídeos do pai a gritar com ela, mas a imagem mais chocante era do colégio—Pedro Sousa sozinho no corredor, a esconder uma garrafa de álcool na gaveta do Sr. Almeida. Outro ficheiro mostrava-o a ameaçar o professor.
A verdade abateu-se sobre ela: o pai incriminara um homem inocente para se proteger.
Mas de quê?
A resposta estava numa pasta: *”Para a Ana—quando tiveres idade.”*
Dentro havia fotografias—fotos dela criança com hematomas nos braços. Fotos tiradas às escondidas pela avó. Relatórios médicos que Amélia guardara. E um último documento: um depoimento do Sr. Almeida afirmando que tentara denunciar os maus-tratos, mas Pedro ameaçara arruinar-lhe a vida.
As mãos de Ana tremeram enquanto tapava a boca.
A avó reunira provas durante anos.
O telemóvel vibrou.
Uma mensagem de um número desconhecido: *”Soube que a Amélia faleceu. Está na hora de falarmos. — Almeida.”*
Ana congelou. Ele estava vivo. Ainda em Portugal.
Dirigiu-se ao endereço que ele dera—uma pequena casa perto da fronteira. A porta abriu-se antes de bater. O Sr. Almeida estava lá, mais velho, mas com um olhar gentil e cheio de compaixão.
*”A tua avó disse-me que um dia virias”*, murmurou.
Dentro da casa havia uma caixa. Grande. Cheia de mais documentos—cópias do que Amélia guardara, além de novos ficheiros que Almeida juntara.
Mas uma coisa fez Ana estremecer:
Uma foto de sua mãe, tirada na noite antes de *”cair das escadas.”*
E o homem atrás dela na foto—
era Pedro.
Ana olhou para a foto, a garganta apertada. A mãe, Maria Sousa, morrera quando ela tinha nove anos. O pai sempre insistira que fora um acidente—Maria era *”desastrada”*, dizia. Escorregara a carregar roupa.
Mas a imagem nas mãos trémulas de Ana contava outra história.
Maria estava na cozinha, os olhos cheios de medo. Atrás dela, Pedro agarrava-lhe o braço com tanta força que a pele ficara vermelha.
Almeida sentou-se ao lado dela. *”A tua avó nunca acreditou que a morte da tua mãe fosse acidental. Investigou durante anos. Mas todos os que trabalhavam com o teu pai—polícia, juízes—calaram-na.”*
*”Porquê?”* sussurrou Ana.
*”Porque o Pedro não era só o teu pai”*, Almeida disse. *”Tinha ligações. Amigos no Ministério Público. Alguém poderoso ajudou a abafar o caso.”*
Ana sentiu a sala a girar. *”Então ele matou-a?”*
Almeida não respondeu diretamente. Em vez disso, entregou-lhe um envelope: *”Autópsia—Versão Corrigida.”*
Dentro, havia uma carta de um médico legista reformado, admitindo ter sido pressionado a alterar o relatório.
Ana levantou-se de repente. *”Tenho de ir à polícia.”*
Almeida pousou-lhe a mão no ombro. *”Vais. Mas precisas de alguém que não seja influenciado. A Amélia planeou isto. Deixou o nome de uma jornalista em quem confiava.”*
Deu-lhe um cartão: Sofia Martins, Jornalista Investigativa, Diário de Notícias.
Ana contactou Sofia na manhã seguinte. Horas depois, Sofia chegou à casa de Almeida, gravou todos os detalhes, examinou tudo e fez cópias.
*”Isto não vai ficar em segredo”*, avisou. *”Se expusermos, vai derrubar mais do que o teu pai.”*
*”Não quero saber”*, sussurrou Ana. *”A minha mãe merece justiça.”*
Duas semanas depois, a história explodiu: *HOMEM DE COIMBRA LIGADO A ENCAna olhou para o horizonte, sentindo pela primeira vez que o silêncio que a aprisionara por anos finalmente se desfazia no vento quente de Sintra.