O tribunal caiu em silêncio absoluto. Cada pessoa na sala lotada prendeu a respiração por um instante ao ver uma menina pequena de cinco anos, com cabelo castanho desalinhado, aproximar-se do estrado do juiz. Seus sapatos pequenos rangiam no chão encerado, e seu vestido surrado era grande demais para seu corpinho frágil. A Juíza Catarina Mendes estava em sua cadeira de rodas atrás da alta mesa de madeira, as mãos repousando nos apoios que haviam se tornado sua prisão nos últimos três anos.
Em vinte anos como juíza, ela já tinha visto muitas coisas estranhas, mas nunca uma criança tão pequena se aproximara dela durante um julgamento sério. A menina olhou para a juíza com olhos verdes brilhantes que pareciam cintilar com algo mágico. Tomou um fôlego e falou com uma voz tão clara que todos na última fila puderam ouvi-la perfeitamente.
“Senhora Juíza”, disse a criança, suas mãozinhas pressionadas contra o banco de madeira. “Se a senhora deixar o meu pai ir embora, eu prometo que farei as suas pernas voltarem a funcionar.” O tribunal explodiu em reações. Uns riram, outros murmuraram, alguns apontaram para a menina e sacudiram a cabeça. Mas a Juíza Catarina não riu. Fixou os olhos naquela criança, sentindo algo estranho no coração, algo que não sentia há anos.
Ah, agora deixem-me contar como esse momento incrível aconteceu.
Três semanas antes, Rodrigo Silva era um pedreiro trabalhador que amava sua filha Leonor mais do que tudo no mundo. Todas as manhãs, acordava às cinco, preparava o café para a filha e beijava sua testa antes de sair para o trabalho. A mulher de Rodrigo morrera quando Leonor tinha apenas dois anos, deixando-o para criar a menina sozinho.
Leonor não era como as outras crianças. Tinha asma grave, o que dificultava sua respiração, especialmente no inverno. Às vezes, acordava no meio da noite tossindo e sufocando. Rodrigo a segurava nos braços, cantando músicas suaves até que ela conseguisse respirar normalmente.
O remédio que mantinha Leonor saudável era caro. Rodrigo trabalhava o máximo que podia, mas o salário da construção civil não cobria todos os custos. Já havia vendido o carro, seu relógio e até sua aliança para pagar os tratamentos.
Numa manhã gelada, Leonor acordou com febre alta. Seu corpo pequeno ardia, e ela mal conseguia abrir os olhos. “Pai”, sussurrou, a voz fraca. “Não estou conseguindo respirar direito.” O coração de Rodrigo partiu-se ao ver a filha doente. Sabia que ela precisava do remédio na hora, mas ele já havia gasto seus últimos vinte euros em comida no dia anterior.
Ligou para o patrão, o senhor Almeida, implorando por um adiantamento. “Rodrigo, gostaria de ajudar, mas a política da empresa não permite”, respondeu o homem.
Ajoelhou-se ao lado da cama de Leonor, vendo sua filha lutar para respirar. Sabia que, sem o remédio, ela talvez não sobrevivesse àquela noite.
Naquela noite, depois que Leonor adormeceu inquieta, Rodrigo tomou a decisão mais difícil de sua vida. Vestiu o casaco velho, beijou a testa da filha e saiu.
A farmácia na Rua do Carmo estava cheia, mesmo às oito da noite. Famílias compravam remédios, idosos buscavam receitas, adolescentes compravam pastilhas para a tosse. Rodrigo ficou parado do lado de fora por dez minutos, as mãos trêmulas não de frio, mas de medo. Nunca roubara nada na vida. Era um homem bom, trabalhador. Mas ver a filha sofrer o levara ao limite.
Abanou o chapéu sobre os olhos e entrou. Encontrou o xarope e o inalador de que Leonor precisava. Juntos, custavam mais do que ele ganhava em dois dias. Olhou ao redor—o farmacêutico atendia uma senhora idosa, a caixa contava dinheiro. O coração batia tão forte que parecia que todos ouviam. Deslizou os remédios no bolso e caminhou calmamente para a porta.
Foi então que uma mão forte segurou seu ombro. “Com licença, senhor”, disse um segurança, com olhos bondosos, mas voz firme. “Preciso que esvazie os bolsos.”
O mundo de Rodrigo desabou. Pensou em fugir, mas sabia que só pioraria. Com lágrimas nos olhos, entregou os remédios. “Por favor”, sussurrou. “Minha filha está muito doente. Ela precisa disso ou pode morrer. Não tenho dinheiro, mas juro que pagarei depois.”
O segurança olhou para ele com pena, mas negou com a cabeça. “Sinto muito, senhor. Tenho que chamar a polícia.”
Em minutos, carros cercaram a farmácia. Rodrigo foi algemado e levado enquanto vizinhos assistiam. Tudo em que conseguia pensar era em Leonor, sozinha e doente, esperando o pai voltar com o remédio.
A notícia da prisão espalhou-se pela pequena vila. Dona Isabel, a vizinha idosa, encontrou Leonor chorando e levou-a ao hospital. Os médicos deram-lhe o remédio, mas disseram que a menina teria de ficar em um lar de acolhimento até que a situação do pai se resolvesse.
A Juíza Catarina Mendes foi designada para o caso. Era conhecida no distrito como justa, mas rígida, sem aceitar desculpas, mesmo as mais tristes. Há três anos, sofrera um acidente de carro que a deixara sem andar. Desde então, mergulhara no trabalho, tornando-se ainda mais inflexível com a lei.
No dia do julgamento, o tribunal estava cheio. Alguns apoiavam Rodrigo, sabendo que era um bom pai em apuros. Outros achavam que roubo era roubo, não importava o motivo.
Rodrigo sentava-se na mesa do réu, de terno emprestado, as mãos entrelaçadas, os olhos vermelhos de tanto chorar. Não via Leonor havia duas semanas, e Dona Isabel contara que a menina perguntava por ele todos os dias.
A Juíza Catarina rolou sua cadeira até o estrado. Lera o processo na noite anterior—um pai desesperado roubando remédios para a filha. O tipo de situação que tornava seu trabalho difícil e doloroso.
“Todos de pé para a honorável Juíza Catarina Mendes”, anunciou o oficial, ainda que todos vissem que a própria juíza não podia levantar-se.
O promotor, um jovem chamado Diogo Castro, levantou-se e apresentou o caso contra Rodrigo. Falou sobre como o roubo era crime, como as empresas precisavam ser protegidas. “Meritíssima, sentimos simpatia pela situação do Sr. Silva, mas não podemos deixar que a emoção sobreponha a justiça”, argumentou.
A defensora pública, Sara Rodrigues, fez o que pôde. Falou do histórico limpo de Rodrigo, do amor pela filha, da escolha impossível que enfrentara. Mas a Juíza já ouvira argumentos assim muitas vezes. A lei era clara.
Foi então que a porta do tribunal abriu-se com um rangido. Todos viraram-se e viram Dona Isabel entrando, segurando a mão de uma menina de cabelo castanho e olhos verdes—Leonor.
A menina olhou em volta, procurando o pai. Quando o viu, seu rosto iluminou-se. “Papai!”, chamou, correndo na direção dele.
O oficial moveu-se para impedi-la, mas a Juíza levantou a mão. “Deixe-a ir ao pai”, disse baixinho.
Leonor pulou nos braços de Rodrigo, que a abraçou forte, as lágrimas escorrendo. “Sinto muito, minha filha. Papai cometeu umRodrigo sorriu entre lágrimas, apertando Leonor contra o peito, enquanto a Juíza Catarina batia o martelo e declarava: “O verdadeiro milagre nunca foi eu voltar a andar, mas sim reconhecer que a justiça deve ser temperada com compaixão, e hoje, essa menina nos ensinou que o amor pode curar até as feridas mais profundas”.