**14 de Outubro, 2023**
Quando o meu marido, Rodrigo, entrou na nossa mansão em Lisboa arrastando a amante atrás dele, soube que o dia que tanto temia tinha chegado.
Nem se deu ao trabalho de disfarçar o nojo na voz.
— Tu não mereces viver nesta casa! — gritou, apontando para mim com um dedo a tremer.
A amante, uma mulher mais nova com um sorriso presunçoso, agarrou-lhe o braço.
— Rodrigo, deixa de perder tempo. Diz-lhe para fazer as malas.
Todos os anos em que o apoiei — três hipotecas, dois negócios falhados, as noites sem dormir enquanto ele “perseguia os sonhos” — passaram-me pela cabeça num instante.
Não chorei.
Não implorei.
Apenas disse: — Dêem-me um momento. Há algo que quero mostrar-lhes.
Os sorrisos deles alargaram-se.
Pensaram que eu estava derrotada.
Pensaram que eu estava acabada.
Mas não faziam ideia do que eu vinha a preparar há meses.
Caminhei calmamente até ao meu escritório e voltei com um documento impecável na mão.
Uma simples folha de papel.
— Leiam isto — disse, colocando-a em cima da mesa.
Rodrigo revirou os olhos e agarrou-a.
Mas, assim que leu o primeiro parágrafo, o rosto dele perdeu toda a cor.
A amante aproximou-se para ver — e mal os olhos dela pousaram no texto, desmaiou no sofá, sufocando de horror.
A mãe, o pai e a irmã de Rodrigo — que tinham assistido à cena em silêncio — avançaram, confusos.
A minha voz manteve-se firme.
— É a escritura desta mansão. Assinada há três meses. E, de acordo com ela… — apontei para a linha em negrito no final — eu sou a única dona legal desta casa.
A irmã dele ficou de boca aberta.
A mãe tapou a cara com as mãos.
O pai murmurou: — Como… como é possível?
Olhei diretamente para o Rodrigo.
— Lembras-te quando me imploraste para cobrir as tuas dívidas? — disse, suave. — Precisavas do meu crédito, do meu dinheiro, da minha assinatura. Estavas desesperado. Por isso, concordaste em transferir todas as propriedades para o meu nome como garantia.
Os olhos dele arregalaram-se.
Ele tinha-se esquecido.
Mas eu não.
— E aqui — continuei, deslizando a segunda página — está o aviso de despejo legal. Para vocês os dois.
A amante soluçou. — Despejo? Mas… mas ele disse-me que… —
Rodrigo tentou falar, mas a voz quebrou. — Tu enganaste-me.
— Não — corrigi, serena. — Tu subestimaste-me.
A família dele ficou a olhar para mim em silêncio.
Eles sabiam como ele tinha sido cruel, quanto eu tinha suportado calada.
Mas desta vez… viram-me tomar as rédeas.
Aproximei-me da porta e abri-a.
— Disseste que eu não mereço viver nesta mansão? — fiz um gesto em direção ao portão. — Bom, tens meio razão.
Afastei-me.
— TU é que não mereces viver aqui.
Fora.
Desta vez, a amante desmaiou de vez.
A família dele ficou em choque — mas ninguém o defendeu.
E enquanto ele saía, cambaleante, com uma mala na mão, percebi uma coisa:
Eu não apenas ganhei.
Libertei-me.