Gritos na noite revelam o segredo sombrio do patrão

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A Maria trabalhava na Mansão Dourada há quase seis meses. Seis meses acariciando o mogno polido e o mármore frio, sentindo o peso de uma fortuna que nunca seria sua.

Vivia num pequeno apartamento do outro lado da cidade, lutando para pagar os estudos da irmã na universidade. Aquele emprego era a sua salvação e, às vezes, o seu tormento silencioso.

O Senhor Montenegro, um viúvo de hábitos peculiares, era conhecido em Lisboa pela sua fortuna imensa, acumulada em impérios imobiliários e projetos tecnológicos mal-sucedidos. A sua mansão era um santuário para o passado: tetos ornamentados, tapeçarias francesas desbotadas e um cheiro permanente de cera e naftalina no ar.

Naquela tarde, Maria recebeu uma tarefa extra, com um pagamento que precisava urgentemente. O administrador da propriedade, o severo advogado Diogo Fialho, ordenou-lhe que limpasse a ala leste da mansão, uma secção fechada há anos.

“Ninguém entra ali, Maria”, avisou Diogo com a voz áspera, ajustando os óculos de aro dourado. “São documentos e memórias pessoais do Senhor Montenegro. Apenas limpe o pó. Não toque em nada.”

A ala leste era um labirinto de sombras. Pesadas cortinas de veludo bloqueavam a luz do sol, deixando os quartos escuros e sem ventilação. Cada passo de Maria ecoava no chão de madeira, quebrando um silêncio que parecia ter décadas.

No centro da sala de armazenamento, havia uma pilha de objetos cobertos por lençóis brancos, como fantasmas imóveis.

Maria trabalhou em silêncio por quase uma hora, movendo-se com cuidado.

Até que viu.

Não era um fantasma, mas algo sólido e inegável.

Um baú enorme, de madeira escura e reforçado com placas de ferro. Era gigantesco, quase do tamanho de um pequeno caixão.

Enquanto limpava o pó do metal frio, congelou.

Um som.

No início, tão fraco que quase ignorou. Talvez fossem os canos velhos. A casa a assentarse.

Depois, ouviu de novo.

Toc. Toc. Toc.

Rítmico. Deliberado.

Demasiado artificial para ser o vento.

O pânico invadiu-a. Estaria um animal preso lá dentro? Um rato enorme?

Ajoelhou-se e encostou o ouvido ao baú. O cheiro de mofo encheu-lhe as narinas.

Os batimentos cessaram.

Mas, em vez disso, ouviu algo pior.

Um som fraco, quase um gemido. Um pequeno choro, abafado pela madeira grossa.

“Olá?”, sussurrou Maria, com o sangue gelado. “Há alguém aí?”

Nada. Apenas o silêncio opressivo da mansão.

Mas ela sabia. Algo vivo estava lá dentro.

O baú estava trancado com uma fechadura enferrujada. Parecia impossível abri-lo sem ferramentas.

Quando estava prestes a levantar-se e fugir, o seu olhar caiu sobre uma pequena mesa auxiliar, cheia de livros amarelados sobre leis de propriedade e testamentos antigos.

E lá, capturando um raio de luz que se filtrava por uma fenda na cortina, estava uma chave.

Pequena. Brilhante. Como se tivesse sido ali colocada naquele momento.

A dúvida assaltou-a. Se o advogado Diogo descobrisse que tinha aberto o baú, perderia o emprego. Perderia o dinheiro de que a irmã dependia.

Mas o som que ouvira era humano.

As mãos tremiam enquanto inseriu a chave na fechadura. O mecanismo cedeu com um *clique* seco, que ecoou pela sala como um tiro.

Inspirou fundo, fechou os olhos por um instante, murmurou uma desculpa silenciosa a qualquer deus que a pudesse estar a ouvir, e levantou a tampa alguns centímetros.

A escuridão encontrou a luz.

O que viu foi um monstro.

Três pares de olhos.

Três rostos pequenos, pálidos e esqueléticos fixaram nela, cobertos de pó, cheios de terror e desespero.

Eram crianças.

Três gémeos, pelo aspeto idêntico. Encolhidos sob um cobertor sujo, agarrados uns aos outros por calor.

Um deles, um rapaz de cabelo castanho, levantou lentamente uma mão trémula.

“Por favor… estamos com fome”, sussurrou, quase sem voz.

O horror atingiu Maria como um relâmpago.

O Senhor Montenegro, o milionário, tinha-os trancado ali.

Porquê?

Que tipo de homem faria isso?

Abriu o baú completamente, deixando entrar a luz. As crianças eram pequenas para a idade (deviam ter cinco ou seis anos), mas a debilidade fazia-as parecer ainda mais jovens.

“Quem são vocês?”, perguntou Maria em voz baixa, ajoelhando-se ao lado do baú. “Porque estão aqui?”

A criança, de olhos arregalados e a tremer de medo, respondeu: “Somos o Tiago, a Carolina e o Duarte. O pai disse que era um jogo… mas já jogamos há muito tempo.”

O pai.

O Senhor Montenegro.

Antes que Maria pudesse perguntar mais, o som de sapatos de couro polido ecoou no corredor principal.

O advogado Diogo Fialho estava a voltar.

Os passos aproximavam-se. A voz seca e autoritária de Diogo chamava por ela do vestíbulo.

“Maria! Já terminou na ala leste? Precisa de assinar o recibo das horas extra!”

O pânico dominou-a. Se o advogado a encontrasse ali, com os gémeos à vista, não só perderia o emprego, como seria arrastada para um pesadelo legal.

Virou-se rapidamente para as crianças.

“Oiçam-me”, sussurrou, urgente. “O meu nome é Maria. Não vos vou magoar. Mas têm de ficar em silêncio absoluto. Perceberam? Nem um som.”

Os três olharam-na, os olhos cheios de medo.

Maria fechou a tampa do baú com cuidado, sem a encaixar totalmente. Depois, endireitou o uniforme, pegou no balde e saiu, fechando a porta sem fazer ruído.

No corredor principal, Diogo esperava junto à escadaria, de braços cruzados, impecável no seu fato de três peças.

“Demorou demasiado”, rosnou. “A ala leste não é tão grande.”

O olhar era afiado, suspeitoso.

“Desculpe, senhor advogado”, respondeu Maria, tentando manter a compostura enquanto o coração batia descontrolado. “Havia muito pó, principalmente nas molduras do teto.”

Diogo estudou-a, os olhos pousando no ligeiro tremor das suas mãos.

“Está bem. Assine aqui e vá-se embora. E lembre-se: o que acontece nesta mansão, fica nesta mansão. O Senhor Montenegro valoriza muito a sua privacidade.”

Maria rabiscou a assinatura, mal conseguindo concentrar-se.

Quando Diogo lhe entregou o dinheiro, um pensamento gelou-a: porque estava ele a proteger tanto a ala leste? E porque era a chave do baú nova, se a fechadura estava enferrujada?

“Senhor Fialho…”, disse com cuidado, tentando parecer despreocupada. “O Senhor Montenegro tem netos? Vi umas fotografias antigas no corredor.”

Diogo ficou tenso. Pela primeira vez, a máscara de frieza rachou.

“O Senhor Montenegro”, disse geladamente, “é um homem solitário. Não tem descendentes diretos. As fotografias que viu são de parentes distantes. Agora, vá.”

A resposta foi demasiado agressiva.

Maria saiu da mansão, mas os seus pensamentos estavam nas três carMaria voltou naquela mesma noite, decidida a salvar as crianças e a enfrentar Diogo, sabendo que a verdade, por mais sombria que fosse, finalmente as libertaria.

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