Gêmeos Silenciosos Quebram o Silêncio com um Ato Surpreendente!

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A câmara avança lentamente pelo portão de ferro negro. O som do motor dissolve-se num estalo seco. Clac. Do outro lado, o silêncio parece vivo, espesso, pesado, como se engolisse o ar. O jardim é demasiado perfeito, sem uma folha fora do lugar. E o sol de Lisboa reflete nas janelas como lâminas.

Todos diziam que na mansão dos Vilar o tempo parara juntamente com as vozes. Nenhum riso de criança, nenhum “pai”, nenhum “mãe”. Apenas o eco dos próprios passos e, por vezes, o som distante de um relógio antigo que parecia marcar não as horas, mas a ausência delas. Naquela manhã abafada, Leonor chegou com uma mala pequena, o cabelo preso por um laço de fita vermelha e o olhar de quem carrega fé no bolso.

Parou diante da porta alta, sentiu o cheiro de cera e, por um instante, julgou ouvir alguém respirar do outro lado, mas era apenas o vento a deslizar pelas colunas de mármore. Quando o portão se fechou atrás dela, o som metálico ecoou como um aviso. Ali dentro, tudo obedece ao silêncio. Uma mulher magra, de coque impecável, abriu a porta.
“É a nova cuidadora?” — perguntou, sem sorrir.
Leonor anuiu. “Sim. Vim pelo anúncio.”

A mulher, a governanta Margarida, avaliou-a de cima a baixo como quem examina um móvel. Depois apontou o corredor.
“O Sr. Eduardo não gosta de atrasos nem de barulho.”
Leonor entrou. O ar no interior era frio, quase de igreja. O chão espelhava os passos, e o som do salto parecia um erro.

Nos corredores, quadros com molduras douradas exibiam retratos antigos, homens sérios, mulheres que não sorriam. Um chamava a atenção: o de uma jovem de olhos tristes, segurando dois bebés. Na placa, “Beatriz Vilar, 1987-2018”. Leonor sentiu um arrepio. Aquela mulher tinha o mesmo olhar dos meninos que ela ainda não conhecia.

Eduardo surgiu no topo da escada, fato escuro, mãos nos bolsos, olhar de pedra. A voz saiu baixa, controlada.
“A senhora cuidará dos meus filhos. Só isso?”
“Sim, senhor” — respondeu Leonor, tentando disfarçar o nervosismo.
“Eles não emitem nenhum som. Os médicos foram claros.” Fez uma pausa breve, os olhos fixos nela. “Não tente o que os outros tentaram. Cuide, alimente, mantenha a rotina.”
Leonor quis dizer que às vezes o impossível só precisa de tempo, mas conteve-se. O olhar dele pedia silêncio.
A governanta completou, como quem repete um catecismo:
“Nada de música, nada de histórias. Eles assustam-se facilmente.”

Leonor apenas assentiu. Ao subir a escada para o andar das crianças, percebeu que o som dos próprios passos desaparecia à medida que avançava, como se a casa os engolisse. No quarto dos meninos, as pesadas cortinas deixavam passar um fio pálido de luz. Os brinquedos eram caros, coloridos, mas pareciam demasiado novos, nunca usados. Dois gémeos estavam sentados no tapete, a empilhar blocos de madeira.

Um deles, Tiago, olhou-a de relance e desviou o olhar rapidamente. O outro, Duarte, mantinha a cabeça baixa, concentrado no nada. Leonor ficou parada, sem saber se devia cumprimentá-los. O coração batia-lhe forte no peito. Ela, que crescera a ouvir que nunca aprenderia a falar, precisava agora de alcançar duas crianças presas no mesmo silêncio.

“Chamo-me Leonor” — disse devagar, quase num sussurro. — “Vim ficar com vocês.”
Nenhum dos dois reagiu. Apenas trocaram um olhar rápido, cúmplice. Era como se conversassem numa língua invisível, feita de gestos e piscadelas. Leonor ajoelhou-se à altura deles. A textura do tapete era fria sob os joelhos.

Observou os blocos, as pequenas torres que construíam e, sem pedir licença, pegou num bloco verde.
“Posso brincar também?” — perguntou, erguendo o bloco sobre a cabeça como se fosse um chapéu. — “Acho que virei uma torre viva.”
Duarte piscou duas vezes. Tiago segurou o riso. Não foi uma gargalhada, mas o canto da boca tremeu. Leonor percebeu e, naquele microgesto, cabia um universo.

“Está bem” — murmurou. — “Se não quiserem falar, eu falo por nós três.”
Num canto da sala, uma babá eletrónica piscava uma luz vermelha. Leonor sentiu que estava a ser observada, endireitou a postura, tentou parecer profissional, mas no fundo sabia: se tratasse aqueles meninos como robôs, eles nunca a deixariam entrar.

Naquela noite, após o jantar silencioso, Leonor ficou no quarto de hóspedes, a olhar para o teto. O som distante de um trovão fez o vidro estremecer. Lembrou-se da mãe, que passava as tardes a tentar fazê-la pronunciar as primeiras sílabas. Recordou a voz suave a dizer: “Não é que não saibas, filha, é que ainda não encontraram o teu modo de dizer.” Leonor fechou os olhos. O mesmo nó apertou-lhe a garganta.

“Se eu consegui, eles também hão de conseguir” — sussurrou no escuro.

Na manhã seguinte, acordou antes de todos. O céu ainda estava cinzento. O cheiro a café vinha da cozinha. Vestiu o uniforme simples, ajustou o laço vermelho no cabelo e desceu com passos firmes. Na sala de jantar das crianças, Tiago e Duarte estavam imóveis diante dos pratos. Não se mexiam. Pareciam aguardar uma ordem que nunca vinha.

Leonor aproximou-se.
“Bom dia, meninos.”
Nenhuma resposta. Sentou-se à mesa, fingindo naturalidade. Pegou numa bolacha, colocou-a no prato de cada um.
“Sabem o que é isto?” — perguntou.
“Nada.”
“É um carro” — disse, movendo a bolacha como se tivesse rodas. — “Brum!”
Um pequeno ruído escapou da garganta de Duarte. Um quase-riso, meio sopro.
Tiago virou o rosto, mas não afastou o prato. Leonor piscou-lhes, cúmplice.
“Opa, o carro enganou-se no caminho.”
Fingiu engolir a bolacha.
“Ai, entrou-me pela boca dentro.”
Duarte arregalou os olhos, surpreendido. Tiago tapou a boca com a mão, a conter o riso. Pela primeira vez, o ar da sala pareceu mover-se.

Leonor não comemorou, apenas respirou fundo.
“Se não quiserem comer, tudo bem. Mas eu prometo: enquanto eu estiver aqui, não precisam ter medo do som.”

Lá fora, passos ecoaram. Eduardo observava do corredor, mãos cruzadas, expressão indecifrável. Quando Leonor se virou, ele já desaparecera.

Mais tarde, Margarida apareceu à porta.
“Menina Leonor.” A voz era um aviso. “Aqui, cada palavra dita tem consequências.”
Leonor manteve o tom calmo.
“Entendido.”
A governanta inclinou ligeiramente a cabeça.
“As outras cuidadoras também diziam isso. Nenhuma durou mais de uma semana.”

E saiu, deixando no ar o cheiro de perfume antigo e a frase suspensa, pesada. LeonorNo corredor, o quadro de Beatriz balançou levemente, como se sorrisse, e pela primeira vez em anos, a mansão dos Vilar pareceu respirar em paz.

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