**Domingo, 15 de Outubro de 2023**
“Consegues imaginar estas palavras?”
Foram as últimas sílabas que o meu pai desperdiçou em mim antes de me empurrar para os dentes de uma ventania de Outubro e trancar a porta.
“Rua da minha casa. Não quero uma filha doente.”
Eu tinha quinze anos. Nem casaco, nem telemóvel, nem dinheiro. Só uma mochila da Sá Pinto com uma folha de matemática pela metade e um embrulho de barra de cereais. A chuva já encharcava o tecido dos meus ténis Converse, transformando os dedos em blocos de gelo.
Três horas depois, a polícia ligou-lhe. Quando ouviu o que o Agente Mendes tinha a dizer, o sangue sumiu-lhe do rosto, deixando-o da cor de papel velho. Mas, nessa altura, o dano já estava gravado na linha do tempo das nossas vidas. Era tarde demais para arrependimentos.
Chamo-me Leonor Mira. Agora, aos vinte e oito anos, sento-me num apartamento alto em Lisboa, a ver uma tempestade deslizar agressivamente pelo vidro duplo. Há uma carta em cima da bancada de mármore da cozinha. A letra é trémula, teia de aranha num papel barato de lar de idosos.
Depois de treze anos de silêncio, o meu pai quer ver-me. Diz que está a morrer. Diz que sente muito.
O mais engraçado da chuva é que funciona como uma máquina do tempo. O cheiro a asfalto molhado e ozono arrasta-me sempre para aquela noite: 14 de Outubro de 2011.
Lembro-me de chegar a casa da escola naquela terça-feira com um passo leve que agora me parece estranho. Tinha tido positiva no teste de matemática. A minha mente estava cheia dos detritos mundanos da adolescência—jantares, trabalhos de casa, o poster de banda vintage que estava a juntar a mesada para comprar. Não fazia ideia de que, em menos de uma hora, estaria a lutar pela vida à beira da estrada.
Assim que entrei em casa, o ar parecia pesado, como a cabine de um avião antes de cair.
O meu pai estava parado no meio da sala. Parecia um vulcão a segundos da erupção—trémulo, silencioso, mortal. O rosto tinha a cor de carne crua. As mãos tremiam-lhe; numa, um maço de notas, na outra, dois frascos de comprimidos vazios.
A minha irmã, Patrícia, estava atrás dele. Tinha dezanove anos, quatro a mais do que eu, e exibia uma expressão de luto perfeitamente ensaiada. A testa franzida, os lábios entreabertos—o retrato da irmã devota que acabara de descobrir algo terrível sobre a irmã mais nova.
Mas eu vi-lhe os olhos. Apanhei o microgesto que não conseguiu esconder. Um lampejo de pura satisfação.
A nossa madrasta, Marta, encostava-se à porta da cozinha, os braços cruzados, os lábios apertados numa linha fina e branca. Essa era a especialidade da Marta: assistir a atrocidades e não dizer nada.
O meu pai nem me deixou pousar a mochila. Começou a gritar antes de a porta fechar.
“Estás a roubar-me há meses!”
Atirou o dinheiro aos meus pés. “A comprar comprimidos? A escondê-los no quarto como uma viciada?”
“Pai, eu não—”
“A Patrícia encontrou as provas, Leonor! Dinheiro escondido na tua gaveta. Frascos no armário. Mensagens num telemóvel descartável a negociar com traficantes!”
Tentei explicar. Tentei dizer-lhe que nunca lhe toquei na carteira, nunca vi aqueles comprimidos, nem sabia o que era um telemóvel descartável. As palavras morreram-me na garganta quando percebi algo horrível.
Ele não estava a ouvir. Não queria a verdade—queria um culpado.
A Patrícia passara o dia inteiro a prepará-lo, a alimentá-lo com mentiras como veneno embrulhado em açúcar. Fingia-se destroçada, dizendo-lhe que “tentara ajudar-me”, que “não aguentava mais ver a irmã destruir-se”.
Foi uma atuação digna de um Óscar. E o meu pai engoliu tudo como se fosse o Evangelho.
Agarrou-me o braço—com força suficiente para deixar nódoas negras depois fotografadas pela polícia—e arrastou-me para a porta. A minha mochila estava no chão. Ele apanhou-a e atirou-ma ao peito.
Depois, abriu a porta.
A temperatura baixara quinze graus desde a manhã. A chuva caía em lençóis, horizontal e cortante. O trovão rolava como artilharia ao longe.
O meu pai olhou-me nos olhos. Não havia amor ali. Só nojo.
“Rua da minha casa. Não quero uma filha doente.”
Empurrou-me para a varanda. A porta bateu. O trinco fechou-se.
E, assim, fiquei sem casa.
Fiquei parada naquela varanda durante cinco minutos, gelada. Não do frio—embora ele já se infiltrasse—mas do choque da violência. Olhei para a madeira da porta, à espera que se abrisse. Que alguém risse e dissesse que era um mal-entendido. Que o meu pai se lembrasse de me amar.
Ninguém veio. A luz da varanda apagou-se.
O meu telemóvel estava em cima da secretária. Não me deixaram levar nada. A mochila tinha livros, uma calculadora e uma barra de cereais esmagada. Nada útil para sobreviver a uma noite ao relento.
Era 2011. Ainda havia cabines telefónicas, mas eram espécies em extinção, e quem andava com moedas? Certamente não uma rapariga de quinze anos que gastava o dinheiro em posters. Aluna de vinte valores, zero estrelas em habilidades de sobrevivência.
Então, comecei a caminhar.
Não foi uma decisão consciente. O meu corpo moveu-se sozinho em direção ao único porto seguro que conhecia: a casa da minha avó Amélia.
Ficava a onze quilómetros.
Onze quilómetros são nada de carro—dez minutos com a rádio a tocar. Mas caminhar onze quilómetros sob chuva gelada, de ténis de lona e sem casaco? Podia muito bem ser cem.
A estrada nacional estendia-se à minha frente, escura e brilhante como o lombo de um monstro. Os carros passavam, cegando-me com os faróis, encharcando as minhas calças com lama gelada. Eu era apenas uma sombra à beira da estrada, uma figura que ninguém queria olhar de perto.
Depois do primeiro quilómetro, a roupa colava-se à pele. O algodão das calças pesava como chumbo.
Depois do segundo, já não sentia os dedos. Enfiei-os nas axilas, mas os tremores começaram—violentos, convulsivos, a sacudir-me os ossos.
Depois do terceiro, os dentes batiam com tanta força que temi parti-los.
Continuei. Qual era a alternativa? Bater à porta do homem que me expulsara? Ele fizera a sua escolha. Só me restava seguir em frente. Um passo dormente de cada vez.
O insidioso da hipotermia é que ela mente. Não percebemos que estamos a morrer. O corpo desliga o não essencial—dedos, orelhas—para manter o centro quente. A mente turva-se. As decisões tornam-se melaço.
De repente, sentar-se “só um minuto” parece a ideia mais brilhante do mundo. Só um descanso. Só fechar os olhos até que os tremores parem.
Aguentei seis quilómetros antes de as pernas me traírem.
Havia um marco de correio à frenteE abracei a certeza de que, apesar de tudo, a minha história não terminaria naquela estrada molhada, mas sim no calor da casa da avó Amélia, onde o cheiro a canela e o abraço apertado me lembrariam, finalmente, que merecia ser amada.