**PARTE 1**
**Capítulo 1: O Fantasma nos Campos de Milho**
Voltei a Lisboa para enterrar o passado, não para desenterrar novos problemas. Mas o perigo tem um jeito de te encontrar, especialmente quando passaste a última década a caçá-lo em lugares onde a maioria nem consegue apontar no mapa.
Chamo-me Tiago. Pelo menos, é o que diz o meu cartão de cidadão. Nos últimos doze anos, fui apenas um código, uma patente, um número numa placa de identificação. Saí há três meses. Baixa médica. Disseram que foi o joelho, mas todos sabíamos que era o resto. Aquilo que te mantém acordado às 3 da manhã, encharcado em suor, a procurar uma arma que já não está lá.
A minha irmã, Catarina, acha que estou só a “adaptar-me” à vida civil. Ela é uma boa mulher, cansada de ser mãe solteira e de trabalhar turnos duplos no café. Acha que passo os dias a arranjar o velho Fiat no quintal e a beber bica na varanda, a olhar para os infinitos campos de milho que rodeiam a nossa aldeia.
Ela não sabe que os meus olhos estão sempre a vigiar o perímetro. Não sabe que memorizo as matrículas de todos os carros que passam na nossa rua sem saída. Não sabe que durmo com um olho aberto, a escutar os rangidos da casa, a analisá-los em busca de ameaças.
E definitivamente não sabia o que estava a acontecer à sua filha, Leonor.
A Leonor tem dezasseis anos. Costumava ser uma fogo-de-artifício—alta, a rir, cheia de vida. Mas desde que voltei, tornou-se um fantasma. Chega a casa, vai direta para o quarto e põe música aos berros. A Catarina diz que é só “coisa de adolescente”.
Eu sei melhor. Conheço o olhar de quem vive com medo. É o mesmo olhar que vi nos aldeãos no Afeganistão. O olhar de quem sabe que está a ser caçado e acredita que ninguém virá salvá-los.
Começou numa terça-feira à tarde. O ar estava fresco, a cheirar a folhas secas e ao inverno que se aproximava. Estava sentado nos degraus da varanda, a afiar a minha faca de bolso, a aparar um pedaço de madeira que já nem parecia nada. O autocarro amarelo parou com um assobio no fim da estrada de terra.
A Leonor desceu. Mas não estava sozinha.
Um Audi vermelho, brilhante como se não pertencesse àquela estrada de terra, seguia devagar ao lado dela. Os vidros estavam abaixados. Não consegui ouvir as palavras de onde estava, a uns cinquenta metros, mas li a linguagem corporal perfeitamente.
O condutor inclinou-se para fora, a gritar qualquer coisa. Estava a rir. A Leonor não. Andava depressa, cabeça baixa, agarrada à mochila como se fosse um escudo. Tropeçou no cascalho, e o carro buzinou—um som agudo, gozão.
Parei de aparar a madeira. Deixei a faca no corrimão.
O Audi acelerou quando a Leonor chegou ao jardim, deixando uma nuvem de poeira que pairou no ar outonal como fumo. Vi o autocolante no vidro traseiro quando o carro desapareceu: *Futebol do Liceu de Sintra*.
Os reis desta terrinha. Os intocáveis.
A Leonor subiu a entrada. Viu-me sentado e limpou o rosto rápido. Tentou sorrir, mas os olhos não enganavam.
“Olá, tio Tiago,” murmurou, tentando passar por mim.
“Quem era aquele, Leonor?” perguntei. A minha voz está rouca ultimamente, mais suave do que era, mas mais pesada.
“Ninguém,” respondeu rápido. Demasiado rápido. “Só uns idiotas da escola.”
Ajustou a mochila, e a manga subiu. Vi-a. Só por um segundo. Uma nódoa negra no pulso, com a forma de dedos.
“Leonor,” disse, levantando-me. O joelho estalou, lembrança de um mau salto num terreno pior. “O que aconteceu ao teu braço?”
Puxou a manga para baixo. “Caí na aula de educação física. A sério, tio Tiago. Deixa isso.”
Bateu com a porta mosquiteira atrás dela.
Nessa noite, ao jantar, a casa estava em silêncio. A Catarina estava cansada, a Leonor calada, e eu a calcular. Já avaliei níveis de ameaça em zonas de guerra. Sei quando uma insurgência está a formar-se. Isto não era só bullying. Era escalada.
Não dormi nessa noite. Sentei-me na sala às escuras, a ver os números vermelhos do relógio da TV a mudar, a planear a minha missão.
Já não era um soldado. Não tinha um esquadrão. Não tinha apoio aéreo. Mas tinha uma sobrinha apavorada. E no meu livro, isso fazia disto uma zona de combate.
**Capítulo 2: A Armadilha**
No dia seguinte, decidi dar um passeio.
Vesti o meu velho casaco militar. Está gasto nos cotovelos e cheira a óleo de motor, mas esconde coisas bem. Não levei arma. Não precisava. À queima-roupa, contra alvos não treinados, uma arma é só um risco. Eu sou a arma.
Estacionei a minha carrinha três quarteirões da escola e caminhei até ao campo de futebol. Eram 15:30. O toque tinha soado.
A escola era daquelas fortalezas de tijolo dos anos 70. Por detrás do campo bem cuidado e dos holofotes do estádio, estava o passado podre da vila: a velha fábrica têxtil. Fechada há vinte anos. Um esqueleto da indústria, só vigas enferrujadas, vidros partidos e graffiti.
Ficava mesmo atrás das bancadas dos visitantes, separada apenas por uma vedação de arame farpado que os adolescentes tinham cortado há anos. Um ponto cego. Zona morta. Sem câmaras. Sem professores. Só sombras e más intenções.
Encostei-me a um grande carvalho, misturando-me com a sombra. Esperei.
Dez minutos depois, vi a Leonor. Andava sozinha, a tomar o atalho por trás das bancadas para evitar o estacionamento principal. Estava a tentar ser invisível.
Depois vi-os.
O Audi vermelho estava estacionado perto do barracão do equipamento. Três deles saíram. Eram grandalhões. Bem alimentados, a levantar pesos desde os doze, cheios de hormonas e privilégio. Usavam os blusões da escola como armadura.
Moviam-se com a confiança de predadores. Conheciam o terreno. Conheciam o horário.
Quando a Leonor passou pelo canto das bancadas, cercaram-na. Foi um flanco coordenado. Dois foram pela esquerda, um pela direita. Empurraram-na para o buraco na vedação.
Vi a Leonor parar. Recuou, a abanar a cabeça. O líder—o condutor do Audi—entrou no espaço pessoal dela. Era um miúdo loiro, bonito de um jeito cruel, com um maxilar que provavelmente o livrava de multas. Agarrou a alça da mochila dela e puxou.
Ela tropeçou em direção à vedação.
“Vá lá, Leonor,” ouvi-o gritar. “Não sejas assim.”
Empurraram-na para o buraco na vedação, para o terreno abandonado da fábrica.
O meu coração não disparou. Na verdade, abrandou para um baque rítmico. *Bum. Bum. Bum.* É o que o treino faz. O pânico desaparece. O mundo fica em silêncio. A visão fecha-se.
Comecei a mover-me.
Não corri”A Leonor correu para mim, enlaçando-me com força, e enquanto a segurava ali, na sombra daquela ruína, eu sabia que a guerra ainda não tinha terminado, mas desta vez, não estava sozinho.”