**Diário Pessoal**
A vila de Ribeira Serena, no norte de Portugal, orgulhava-se de duas coisas: a vista imaculada da Serra da Estrela, coberta de neve no inverno, e a solidez moral dos seus habitantes. O letreiro à entrada, pintado num alegre estilo tradicional, dizia: *“Ribeira Serena: Um Bom Lugar para Criar uma Família.”* Aos domingos, a agulha branca da Igreja Matral, liderada pelo afável Padre João Almeida, era o centro do universo. Durante a semana, o Presidente da Câmara, Eduardo Costa, reinava no Café Central, com a sua chávena de café sempre presa à mão.
Era uma vila construída sobre aparências. As pessoas cumprimentavam-se. Contribuíam para a venda anual de bolos. Sussurravam, em tom de preocupação, sobre os “menos afortunados”—que, em Ribeira Serena, era um termo educado para a Rita e a Leonor, que viviam no Bairro das Fontainhas, na periferia da vila.
Rita era a tragédia designada da vila, uma mulher consumida pela crise dos opióides que varreu o interior de Portugal como um incêndio. Mas Leonor, de nove anos, era a consequência viva.
Leonor sofria de Displasia do Desenvolvimento da Anca (DDA), um caso grave e não tratado. O que poderia ter sido corrigido com uma simples braçadeira na infância tornou-se, após anos de negligência, uma deformidade debilitante. A perna esquerda balançava num arco desigual, e a anca direita rangia osso contra osso. Caminhava com um andar doloroso, trôpego, cada passo uma nova humilhação.
Os “bons cidadãos” de Ribeira Serena viam-na. Viam-na mancar ao sair do autocarro escolar. Viam-na esforçar-se para acompanhar as outras crianças, que já tinham aprendido a excluí-la dos jogos.
Dona Felícia, dona do Mercearia Felícia, observava Leonor a arrastar-se pelo corredor, as mãozinhas apertando um punhado de vales-refeição, e suspirava. *“Que pena,”* dizia ao próximo cliente. *“Aquela pobre criança. Tal como a mãe.”*
O Padre Almeida visitara a casa uma vez. Deixara uma Bíblia e um panfleto de um programa de reabilitação em cima da mesa manchada de Rita, evitando cuidadosamente o lixo pelo chão. Acariciara a cabeça de Leonor, desviara os olhos do ângulo doloroso das suas pernas, e dissera: *“Estamos todos a rezar por ti, menina.”*
Mas as orações não aliviavam a dor na sua anca. A pena não parava o sofrimento constante. A vila resignara-se—uma história triste para lamentar durante o café, mas não um problema a resolver. Era “gente do bairro”, e em Ribeira Serena, alguns problemas eram considerados além da graça.
Numa quarta-feira gelada de outubro, com o vento a trazer o primeiro sinal do inverno, Leonor estava em missão. A mãe estava “doente”—aquela doença cinzenta e trémula que a deixava aos gritos ou em lágrimas. Mas estavam sem refrigerante, e Rita gritara até Leonor encontrar quatro euros amarfanhados no fundo de uma carteira.
Era um quilómetro inteiro das Fontainhas até à Bomba de Gasolina do Zé. Para Leonor, era uma peregrinação agonizante. Cada passo disparava uma dor ardente da anca ao joelho. Caminhava pelo passeio de pedra, cabeça baixa, o casaco fino fechado até ao nariz. Parecia um passarinho ferido, arrastando uma asa partida.
Entrou, o sino da porta tilintando. O empregado, um adolescente, mal ergueu os olhos do telemóvel. Leonor pegou numa lata de cola do frigorífico. As mãos estavam dormentes de frio. Ao chegar ao balcão, a lata escorregou-lhe dos dedos.
Caiu no chão de linóleo e rolou.
Leonor fixou-a, os olhos enchendo-se de lágrimas. Era só uma lata, mas naquele momento, parecia um obstáculo intransponível. Baixar-se significava mexer o peso—e isso significava fogo na anca. Tentou agachar-se, mas um estalo agudo na articulação fez-lhe soltar um gemido.
Era apenas uma criança, a chorar no meio da bomba de gasolina, incapaz de apanhar uma lata de refrigerante.
O sino da porta tilintou outra vez, deixando entrar um vento gelado e um cheiro intenso de couro, gasóleo e pó da estrada.
O empregado ergueu o olhar, os olhos arregalados.
Eram homens grandes. Os coletes de couro—”cortes”, como lhes chamavam—exibiam um emblema: uma caveira com um capacete militar, cruzada por um fuzil e uma chave inglesa, com as palavras *”Os Filhos Esquecidos”* por cima. Eram um clube de motociclistas, maioritariamente veteranos de guerras desde os tempos coloniais até ao Afeganistão. Pareciam rudes, imponentes, e completamente fora de lugar na pacata Ribeira Serena.
O líder, um homem com um peito largo como um frigorífico e uma barba grisalha entrançada, avançou. Chamava-se Rui “Urso” Ventura. Os seus olhos, aguçados e inteligentes, não perdiam nada. Vira a tensão no empregado, o modo como o GNR os vigiava sempre que passavam pela vila. Viu também a figura pequena e encolhida no chão.
Ignorou o empregado e aproximou-se de Leonor. Ela encolheu-se, assustada pelo seu tamanho e pela caveira no colete. Tinha aprendido a temer homens assim.
Urso ajoelhou-se, o couro a ranger. Movia-se devagar, deliberadamente, como se se aproximasse de um animal assustado. A voz, quando falou, não foi o rugido que ela esperava, mas um som grave e suave.
*“Tudo bem, passarinhLeonor olhou para ele, os lábios tremendo, e sussurrou: *“Ninguém me ajuda”*, enquanto as lágrimas escorriam pelo seu rosto magrinho.