**Capítulo 1: O Silêncio dos Inocentes**
Enterrei a vida de fora-da-lei há dez anos. Troquei os coletes, as guerras nas estradas e as noites na prisão por uma chave inglesa, uma hipoteca nos subúrbios de Lisboa e a missão de ser pai solteiro da menina mais doce do mundo, a Leonor. Prometi à sua mãe no leito de morte que manteria a nossa pequena longe da violência. Prometi que seria “João Cidadão”, não o “Martelo”.
Cumpri essa promessa. Usei camisas de colarinho nas reuniões da escola. Sorri para os vizinhos que olhavam as minhas tatuagens com desconfiança. Tornei-me o homem que consertava os corta-relvas de todos nos fins de semana, de graça. Era aborrecido. Era seguro.
Até ontem.
Estava na garagem, o cheiro de graxa e óleo velho no ar — o meu santuário — quando o portão lateral rangeu. Eram 14h de uma terça-feira. A escola ainda não tinha acabado. O meu relógio interno, afiado por anos de vida no limite, onde o tempo significava sobrevivência, disparou o alarme.
Quando levantei os olhos da transmissão que estava a reconstruir, a chave escapou-me da mão e caiu no cimento.
A Leonor estava ali. O seu vestido amarelo favorito — aquele que usava no dia das fotos porque dizia que a fazia sentir-se como um raio de sol — estava rasgado no ombro, expondo uma queimadura feia e roxa na pele. O cabelo, geralmente apanhado em tranças, estava uma desordem, com pastilha rosa presa no meio.
Mas foi o rosto dela que parou o meu coração e depois o fez bater com pura fúria. O lábio estava cortado, inchado, e os olhos… os olhos dela estavam vazios, sem luz, como se estivesse a olhar para um túmulo. Não parecia a minha menina. Parecia uma vítima de guerra.
“Leonor?” A minha voz falhou. Corri para ela, limpando a graxa das mãos nas calças, ajoelhando-me ao seu nível. Não ousava tocá-la, com medo de a magoar mais. “Meu amor, o que aconteceu? Quem fez isto?”
Ela não chorou. Essa foi a pior parte. Apenas tremia, como um animal assustado. Estava em choque.
“Eles… arrastaram-me pelo alcatrão,” sussurrou, a voz quase inaudível. “A Carolina e as amigas dela. Queriam o meu caderno de desenhos. Disseram que os meus desenhos eram de esquisitos.”
O meu sangue gelou. Carolina. A filha da presidente da assembleia de pais. A “princesinha” do Liceu de Cascais.
“Onde estavam os professores?” exigi, os punhos cerrados até os nós dos dedos branquearem. A adrenalina antiga voltava, a resposta de “luta” sobrepondo-se a dez anos de “fuga”. “Onde estava o segurança? Onde estava a Dona Filipa? Disseste que ela estava no recreio hoje.”
A Leonor baixou os olhos para os sapatos estragados, envergonhada, como se a culpa fosse dela. “A Dona Filipa estava lá, Pai. A dez passos de distância.”
“E então?” insisti, precisando de ouvir, precisando de saber a profundidade da traição.
“Ela… olhou para nós.” Uma lágrima finalmente escorreu pela poeira e sangue seco na sua face. “Gritei o nome dela. Vi-a olhar diretamente para mim. Depois, olhou para o relógio, bebeu um gole do café e virou costas. Fingiu que não viu. Deixou que me arrastassem pelos cabelos durante cinco minutos, Pai. Ela simplesmente deixou.”
O silêncio na garagem foi ensurdecedor. Não era apenas quietude; era um vácuo. Naquele silêncio, “João Cidadão” morreu.
Levantei-me devagar. O ar na sala pesava, carregado de eletricidade estática. A minha visão estreitou. Já não via a garagem suburbana. Só via vermelho.
“Pai?” A Leonor parecia assustada agora. Não dos bullies, mas do olhar nos meus olhos. Nunca tinha visto este homem. Só conhecia o pai que fazia panquecas aos domingos. Não conhecia O Martelo.
“Vai para dentro, meu amor,” disse, a voz baixa, transformando-se num rosnado que não usava há uma década. “Lava a cara. Põe gelo no lábio. Não abras a porta a ninguém.”
“Para onde vais?”
Caminhei até ao velho baú no canto — aquele que não abria desde que a Leonor tinha cinco anos. O cadeado abriu-se com um clique quando torci a chave escondida num parafuso oco na bancada.
Dentro, cheirava a couro, tabaco velho e memórias. Tirei o colete de couro preto. O símbolo dos “Dragões de Ferro” nas costas estava desbotado, mas ainda ameaçador. Presidente. Reformado.
“Vou à escola, Leonor,” disse, vestindo o colete. Ajustou-se como uma armadura. “E não vou sozinho.”
**Capítulo 2: Trovão na Estrada**
Puxei do telemóvel. O meu polegar pairou sobre um número que não ligava há anos. Gravado simplesmente como “Zé Grande.” Atual braço-direito dos Dragões de Ferro.
O meu coração batia forte, não de medo, mas de antecipação sombria. Tinha tentado a maneira educada. Enviei emails sobre o bullying. Falei com o diretor. Deram-me panfletos sobre “resolução de conflitos.” Disseram que “são coisas de miúdos.”
Hoje, iam aprender que ações têm consequências.
O telefone tocou duas vezes.
“João?” A voz do outro lado era áspera como pedras num liquidificador. Ouviu-se o ruído de um jogo de snooker ao fundo. “Está tudo bem? Nunca ligas para este número a não ser que o mundo esteja a acabar.”
“Não, Zé. Nada está bem.” Peguei no capacete preto fosco. “Preciso dos rapazes. Todos.”
“É o Cartel?” perguntou ele, o tom mudando de descontraído para alerta.
“Pior,” cuspi. “É a direção da escola. A Leonor chegou a casa espancada. Uma professora viu e não fez nada. Acham que, porque sou um pai solteiro nos subúrbios, sou fraco. Acham que estou sozinho.”
Houve uma pausa. Os Dragões eram fora-da-lei, criminosos para alguns, mas tínhamos um código. Mulheres e crianças eram intocáveis. E família? Família era sagrada. A Leonor era afilhada de metade do clube.
“Onde e quando?” perguntou o Zé. Sem perguntas. Sem hesitação.
“Estacionamento do Liceu de Cascais. Trinta minutos. Vou visitar o diretor.”
“Qual é o plano?”
“Intimidação,” disse, as palavras a saberem a metal na boca. “Não vamos tocar nos miúdos. Mas quero que aquela escola sinta o chão tremer. Quero que essa professora se molhe quando olhar pelaE, quando os Dragões de Ferro encheram o pátio da escola com o rugido das suas motas, todos perceberam que algumas promessas nunca se quebram.