Ela fugiu de um casamento abusivo e entrou no avião sem saber que o homem ao seu lado não era um simples desconhecido, mas um dos chefões do crime mais poderosos da Europa.

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Ela fugiu do seu casamento abusivo e entrou num avião, sem saber que o homem sentado ao seu lado não era apenas um estranho, mas um poderoso chefe da máfia, preparando o cenário para um encontro perigoso e inesperado.

Levou seis meses para Leonor Almeida planejar sua fuga. Seis meses de fingir, de sorrir sob hematomas que ninguém veria, de contar cada cêntimo, cada batida do coração, cada momento como se fosse um último aviso. O tempo se tornara seu inimigo e aliado ao mesmo tempo — tic-tac alto nas paredes de uma mansão que parecia um paraíso, mas era uma prisão.

Seu marido, Rodrigo Valente, era o tipo de homem que todos admiravam em público: um bilionário filantropo com um sorriso perfeito e reputação impecável. Mas a portas fechadas, era uma tempestade, e Leonor aprendera rápido que tempestades deixam cicatrizes. Os primeiros meses pareceram um conto de fadas — lençóis de seda, champanhe, desculpas infinitas — mas logo a verdade apareceu. O castelo era uma gaiola, e cada pedido de perdão vinha depois de um golpe. Cada “eu te amo” era um aviso disfarçado.

Às 4h15 de uma manhã gelada de novembro, Leonor escorregou da cama que virara sua prisão. O corpo doía da última briga; o roxo dos hematomas latejava, lembrando quão frágil sua vida se tornara. Mas seu coração, pela primeira vez em anos, pulsava de esperança.

Juntou seus pertences em silêncio: uma bolsa de couro gasto com dinheiro escondido, um passaporte enfiado num livro de receitas, uma mochila pequena. Nada de malas de luxo. Nada de joias. Apenas o essencial… e sobrevivência. O piano de cauda na sala parecia observá-la, uma plateia de fantasmas e memórias. Ela saiu para a noite e sentiu, pela primeira vez em anos, o gosto da liberdade.

Andando pelas ruas escuras da cidade, chamou um táxi com um telefone velho e soltou a primeira mentira que um sobrevivente aprende a dizer: “Só vou visitar uma amiga.” Ao amanhecer, estava no aeroporto, bilhete na mão, o zumbido metálico dos aviões vibrando em seu peito. O chamado para o voo 732 ecoou como uma promessa — ou um desafio.

Ao se acomodar no assento 12D, um homem sentou-se ao seu lado. Alto, impecavelmente vestido de preto, com olhos escuros como o mar da meia-noite e uma presença que ocupava espaço sem pedir. Por um instante, ela o estudou. Ele não falou, não a olhou, apenas observou a cabine com atenção, como se lesse cada pensamento à volta.

O avião enfrentou turbulência. Leonor estremeceu. Seu casaco escorregou, revelando os hematomas no ombro. O homem finalmente falou.

“Está tudo bem?” A voz era baixa, suave, cuidadosa — o tipo de calma que fazia alguém querer se apoiar nele sem saber porquê.

“Estou bem,” respondeu, automaticamente. Mentira. Seus olhos, porém, traíram a verdade.

Ele inclinou-se levemente, oferecendo espaço sem invadi-lo. “Se quiser, pode descansar. Ajuda.”

Descansar. A palavra era estranha. Não dormira livre em anos. Lenta, cuidadosamente, apoiou-se nele. Ele não se moveu. Não falou. E pela primeira vez em uma eternidade, ela dormiu.

Ao acordar, a luz do sol entrava na cabine. Ele lia, calmo e quieto.

“Desculpe,” sussurrou, envergonhada.

“Não há desculpas necessárias,” disse. Após uma pausa, acrescentou: “Sou Tiago Mendes.”

“Leonor,” respondeu, hesitante. “Prazer.”

Ele tinha o dom de tornar o comum extraordinário. Cada olhar, cada gesto era preciso mas natural. Percebia os detalhes — o elogio discreto à comissária, o modo como se adaptava à turbulência. Ela percebeu aos poucos: ele notava tudo.

Mais tarde, perguntou com suavidade: “Está correndo para alguém… ou fugindo de alguém?”

Leonor congelou. A verdade queimava-lhe na garganta, mas nada disse. Ele não pressionou. Apenas perguntou, baixinho: “Tem um lugar seguro para ficar?”

“Tenho… um hotel por duas noites. Depois, as manhãs são minhas,” admitiu, a voz trêmula.

“Bom,” disse ele simplesmente. “Manhãs são um começo.”

Ao pousar, ele entregou-lhe um cartão preto fosco com uma única palavra em relevo: TIAGO, e um número. “Se algum dia se sentir em perigo,” disse, “ligue-me. Ou não. A escolha é sua.”

No saguão, dois homens de terno escuro vasculhavam rostos. O coração de Leonor disparou. Tiago posicionou-se entre ela e eles, um escudo de confiança. “Amigos seus?” murmurou.

“Não. Homens dele,” sussurrou.

Ele tirou uma foto discreta e murmurou algo em italiano. Soou como uma promessa. Minutos depois, um carro preto os levou.

“Quer ajuda?” perguntou.

“Sim. Mas quero minha vida de volta, não só segurança,” disse.

“Esse é o plano,” Tiago respondeu.

Naquela noite, Leonor viu-se num penthouse seguro com vista para a cidade. Um médico cuidou dos seus hematomas enquanto Tiago ficou em silêncio à janela, um guardião nas sombras. “Por que está me ajudando?” perguntou.

“Porque alguém ajudou a minha irmã quando eu não pude,” respondeu baixinho.

Dias viraram semanas. Os hematomas sararam, mas os pesadelos persistiam. Tiago sempre presente, nunca exigente, nunca tocando — sua presença já dizia segurança. Então, chegou a notícia: Rodrigo registrou um desaparecimento e oferecera uma recompensa. Estava à sua procura.

“Fugir alimenta o medo,” Tiago disse firme. “Precisamos que ele acredite que você sumiu.”

A equipa de Tiago trabalhou em silêncio. Contas bancárias, documentos ocultos, gravações secretas — cada mentira de Rodrigo surgiu. Investidores fugiram. Jornais sussurraram. E numa manhã, manchetes gritaram:

“Bilionário Rodrigo Valente Acusado de Violência Doméstica e Fraude.”

A justiça veio sem caos. Quando Tiago entregou-lhe um pen drive com todas as provas, disse: “É hora de a sua voz importar.”

Leonor foi a público. No saguãoDe pé sob as luzes, com Tiago ao seu lado, ela sabia que os dias de medo haviam terminado, e o futuro, finalmente, era dela.

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